Jovens Missionários de tempo integral da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, comprometem-se a passar 18-24 meses servindo ao Senhor. Eles deixam suas casas, estudos seculares, trabalho, família e amigos. Eles partem para uma parte do mundo para exercer seu ministério cristão e convidar outros a virem a Cristo e serem aperfeiçoados Nele por meio das ordenanças do evangelho. Trata-se de um encargo deveras sagrado. Assim, não há espaço para relacionamentos mais íntimos com o sexo oposto durante a missão.

“Tranque seu coração e deixe a chave em casa” – é um dos primeiros ensinamentos que recebemos no Centro de Treinamento Missionário – lugar em que todo missionário recém-chamado passa antes de ir para respectiva missão. Como a idade para fazer missão baixou: rapazes podem partir com 18 anos e moças com 19, pode surgir de modo mais frequente do que nos passado, um desafio de maturidade e relacionamento com o sexo oposto. Portanto, “Tranque seu coração” é um discurso ainda mais pungente em nossa época.

Todo o missionário sabe que ele não vai namorar, que não vai encontrar uma esposa [na missão]! Ele terá bastante oportunidades quando voltar para casa, e o campo missionário não é lugar para isso!

Encontramos, às vezes, um rapaz que em casa não era muito popular, era meio fechado enquanto morava com a família e não teve muitas namoradas. Assim quando o missionário vem para o campo e alguém o bajula, alguma garota que demonstra muito interesse por ele, ele fica todo cheio de si.

Pensa, imediatamente: É com essa que me devo casar. Bem digo-lhes mais uma vez, como repetição e para acentuar: tranquem seu coração em casa e, se não o fizeram, façam-no agora e enviem a sua chave de volta!

Não permitam nenhum devaneio, nenhum pensamento ou romantismo em sua mente. Durante dois anos, vocês se deram ao Senhor, totalmente, para ensinar o evangelho ao mundo.

Quando houveram feito isso perfeitamente durante dois anos e forem para casa, serão infinitamente mais atraentes, mais capazes, mais dignos, mais amadurecidos para tomarem essas decisões importantes para sua vida no que se refere a pessoa que passará a eternidade com vocês. [1]

O discurso é do Presidente Spencer W. Kimball, alguns anos antes dele se tornar Presidente da Igreja.

Trancar o coração não significa tornar-se duro ou colocar-se longe emocionalmente das pessoas. O missionário deve trabalhar não só com todo poder, mente e força – mas também com todo coração (D&C 4:2). Então, é óbvio que o missionário pode e deve se aproximar das pessoas e desenvolver um relacionamento de confiança. Mas ele não deve esquecer seu papel. Exige-se que tenha uma atitude formal e profissional, alegre, positiva e bondosa – mas não tão íntima a ponto de descaracterizar sua figura de missionário.

O Manual do Missionário determina:

“Procure representar o Senhor de acordo com os mais elevados padrões  de obediência e conduta. Mantenha seus pensamentos, palavras e ações em harmonia com a mensagem do evangelho de Jesus Cristo. Uma conduta correta influenciará sua eficiência como missionário assim como sua salvação pessoal. Influenciará também a confiança que não-membros, membros e outros missionários têm em você, Tenha, a todo o momento, uma conduta tal que todos o reconheçam como representante de Jesus Cristo.” (pg. 7-8)

O Manual também traça regras especificas de relacionamento com outras pessoas. Primeiramente trata do relacionamento com o companheiro – pois todo missionário permanece em dupla durante seu serviço:

“Pregar o evangelho de dois em dois é o padrão estabelecido pelo Senhor (…). Os companheiros apoiam-se mutuamente (…). Eles se ajudam no aprendizado e no crescimento e fortalecem-se nos tempos de dificuldade. Podem também oferecer proteção contra perigos físicos, falsas acusações e tentações.

Ame e respeite seus companheiros. Reconheça o melhor em cada um deles. Encontre formas de servir um ao outro. (…)

Permaneçam juntos: Nunca fique sozinho.” (pg. 30-31)

O Manual passa então a tratar do relacionamento com a liderança da missão, crianças, membros da Igreja, conversos, familiares e amigos e Autoridades Gerais. Mas a parte que realçarei é a que trata do relacionamento com o sexo oposto:

“Nunca fique sozinho, ou flerte, nem tenha um relacionamento inadequado com qualquer pessoa do sexo oposto. Não telefone, não escreva, não envie e-mail nem aceite telefonemas ou cartas de qualquer pessoa do sexo oposto que more dentro, ou perto dos limites da missão. (…) Relate imediatamente ao presidente da missão qualquer situação sua ou de seu companheiro que possa causar violação desse padrão. (…)

Não dê conselhos a missionários do sexo oposto, mesmo quando estiver servindo em posições de liderança. Conversas como essas podem levar a sentimentos e relacionamentos impróprios. Situações deste tipo devem ser sempre encaminhadas ao presidente de missão.” (pg. 34-36)

Quando o manual trata sobre a moradia dos missionários, preceitua: “nunca more em local onde vivam pessoas solteiras do sexo oposto ou onde o marido ou a esposa fique fora frequentemente. Nunca aceite visitas nem ensine [pessoas] na residencia onde você mora” (pg. 48)

Tais regras podem parecer duras para quem não serviu como missionário. Mas não o são. Não cremos em celibato. Na verdade, o casamento é vital para nossa doutrina. Mas, conforme o profeta Joseph Smith ensinou, aquilo que é certo sob certas circunstâncias, pode ser, e geralmente é, errado em outras (Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, pg. 249).

Se o jovem missionário tem uma namorada ou noiva (e o mesmo vale para a jovem missionária) – pode manter o relacionamento à distância, com cartas e e-mails. Nada proíbe isso. Meus pais mesmo, eram noivos antes de suas missões – e após servirem em suas respetivas áreas, voltaram da missão com honra – e casaram-se. Sobre isso, o famoso discurso “Tranque Seu Coração” diz:

Se já tiverem uma garota no seu interior, tudo bem, mas que lá a trancassem. Mas, se não tiverem uma já no seu íntimo, tranquem-no contra qualquer outra, qualquer que seja ela! E o mesmo se aplica às moças também. Estou, falando principalmente com vocês, Élderes.

O Presidente Kimball enfatizou ainda que é impossível apaixonar-se na missão, a menos que se queira:

Tranquem o seu coração e deixem a chave em casa. Nunca o abram aqui! É impossível apaixonar-se por alguém, a menos que abram seu coração!

Seu coração é o único órgão que tem a capacidade de apaixonar-se, e quando um missionário diz: acabo de apaixonar-me por uma garota! – isto é uma coisa extremamente tola!

Ninguém se apaixona, a menos que queira faze-lo. A menos que esteja tentando faze-lo. Ninguém o consegue! Ninguém jamais o conseguiu!

(…)

Eu disse tranquem-no quando saírem de suas casa, e não pensem no assunto. Mas, se saírem por aí, dizendo:Bem, ela é uma garota bonitinha! É, certamente, é uma coisinha fofa! Ela é uma ótima menina! Gostaria de conversar com ela só ter uma conversinha.

Bem, se o fizerem, estarão procurando problemas, e isto poderá trazer-lhe uma vida inteira de aborrecimentos, uma vida de pesares, se continuarem a fazê-lo. Assim, quero acentuar novamente: Tranquem seu coração e deixem a chave em casa!

Onde quer que morarem,deixem a chave com seus pais.

(…)

Alguém disse: Bem, mas haverá algum mal em casar-se com uma garota mexicana se você fez missão no México? Não, isto não é um crime, mas [geralmente] prova que algum missionário abriu ser coração.

Ele o destrancou. Será errado casar com uma garota alemã quando se fez missão na Alemanha? É claro que não, não existe crime nisto, se vocês a tiverem conhecido de alguma outra maneira.

Mas quando a conhecerem no campo missionário e já tiverem aberto seu coração, digo-lhes que não é certo! E terão depreciado sua missão!

Simplesmente mantenham seu coração trancado! Todo o seu pensamento deve estar voltando para obra missionária.

Os membros e amigos da Igreja podem ajudar enormemente os missionários, ajudando-lhes a manterem-se seguros e cumprirem todas as regras.

Todos conhecemos ou ouvimos falar de alguém que casou-se com uma pessoa que conheceu na missão. Primeiramente não nos cabe julgar ou condenar. Repito: não nos cabe julgar ou condenar!

Curiosamente o Presidente Harold B. Lee conheceu sua futura esposa enquanto servia como missionário:

Na mesma época [em que Harold B. Lee servia como missionário de tempo integral], havia na missão uma jovem de Salt Lake City de nome Fern Lucinda Tanner, considerada pelos colegas uma moça inteligente, bonita e excelente conhecedora das escrituras. Ao ser desobrigado, o Élder Lee retornou a Clifton por um breve período de tempo, transferindo-se depois para Salt Lake City, a fim de encontrar e cortejar a garota que tanto admirara, à distância, no campo missionário. Cerca de onze meses após seu retorno, eles casaram-se no Templo de Salt Lake. (“O Ministério de Harold B. Lee,” Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Harold B. Lee, (2001))

Já vi alguns membros justificarem relacionamentos íntimos com missionários e o descumprimento das regras da missão em razão deste episódio, pois um homem que se tornou Presidente e Profeta da Igreja conheceu sua esposa na missão! Mas as pessoas que usam essa história deste modo esquecem que o Presidente Lee serviu com honra e que não cortejou a jovem Fern durante a missão – mas apenas a admirou à distância. Eles começaram a namorar depois da missão e se casaram meses depois.

Prova de que o Elder Lee foi um grande missionário esta nos arquivos confidenciais do Departamento Missionário da Igreja É datado de 30 de dezembro de 1922 e assinado pelo Presidente John M. Knight, mencionando o período de sua missão, 11 de novembro de 1920 a 18 de dezembro de 1922. Em seguida, responde a diversas perguntas: “Qualificações—Como orador: ‘Muito bom’. Como líder presidente: ‘Bom’. Possui bom conhecimento do evangelho? ‘Muito bom’. Tem disposição e energia? ‘Muita’. É discreto e exerce boa influência? ‘Sim’. Observações: ‘O Élder Lee presidiu a Conferência de Denver, com notável distinção, de 8 de agosto de 1921 a 18 de dezembro de 1922. Um missionário excepcional.”(“O Ministério de Harold B. Lee,” Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Harold B. Lee)

A grande questão é direcionar todas as forças – mesmo as emocionais para o serviço do mestre enquanto missionário. Não se deve, em termos práticos, escrever cartas, trocar olhares, tocar de modo mais íntimo, etc pessoas do sexo oposto, casadas ou solteiras. A missão é do Senhor, e nenhum missionário tem autorização para roubá-la, colocando seus interesses pessoais acima dos do Senhor.

Conheci um irmão – que depois serviu como presidente de Estaca – que confidenciou-me algo singular. Nunca conversa sobre missão ele disse que sua bênção patriarcal lhe dizia que conheceria sua futura esposa na missão. Bem, ele disse, eu cheguei no campo missionário e mostrei essa parte de minha bênção para meu presidente de missão. O presidente lhe disse para focar na missão e trancar o coração. Ele o fez. Fez uma missão honrada. Ao voltar para casa, foi ao Templo. Lá encontrou, inesperadamente, uma moça que servira na mesma missão – mas que ele nunca tivera sentimentos por ela. Nunca até aquele momento! Eles saíram juntos, namoraram e casaram. Tiveram seis filhos. A bênção patriarcal foi cumprida e nenhuma regra foi quebrada.

Esse caso extremo é isso mesmo: extremo e raro. O patriarca foi inspirado a colocar algo assim na bênção – e não se questiona este fato, pois a interpretação é pessoal e restrita aquele que recebe a bênção. Mas mesmo com um surpreendente profecia dessas – a regra missionária teve que ser cumprida – e, no caso do irmão que relatei, foi plenamente cumprida! – E ainda bem! Talvez, segundo o mesmo irmão refletiu, se ele estivesse buscando encontrar uma esposa na missão, não teria encontrado a moça com que se casou algum tempo depois de seu serviço de tempo integral.

Se esses ensinamentos – de trancar o coração no curto espaço da missão – parecerem demasiadamente exigentes, e você acha que: “duro é este discurso; quem o pode ouvir?” (João 6:60) – a resposta do Senhor se aplica: “Sabendo, pois, Jesus em si mesmo que os seus discípulos murmuravam [isso], disse-lhes: Isto escandaliza-vos? (…) O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos digo são espírito e vida. Mas há alguns de vós que não creem.” (João 6:61, 63-64) Ao ouvir o discurso sobre o Pão da Vida (João 6, que citei) – que focava na missão do Mestre e nos encargos do discipulado, muitos deixaram de seguir o Salvador. Mas aqueles que ouvem e aplicam os mandamentos e regras se tornam verdadeiros discipulos de Cristo – dispostos a deixar seus interesses pessoais de lado e fazer o certo no momento certo. Para eles “trancar o coração” não é um desafio, mas uma exigência especifica do encargo assumido quando se compromete com o chamado missionário.

 

 

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[1] “Tranque seu coração”, Spencer W. Kimball; Tal discurso foi proferido em uma missão, e não se encontra nas revistas da Igreja. Pode ser encontrado de modo apócrifo em vários blogs da internet. Por exemplo aqui. O discurso é distribuído no Centro de Treinamento Missionário e em algumas missões.