Um novo estudo propõe uma forma diferente de ler as guerras e crises políticas do livro de Alma, no Livro de Alma, no Livro de Mórmon. Para o pesquisador Noel Hudson, boa parte daquela instabilidade não teria vindo apenas de conflitos morais ou religiosos, mas de uma disputa de bastidores entre duas linhagens rivais: os nefitas e os mulequitas, com uma terceira herança, a dos jareditas, ainda pairando sobre ambas.

O artigo se apoia em décadas de pesquisa de nomes como Hugh Nibley, John Sorenson e Noel Reynolds, além de trabalhos mais recentes de Val Larsen e Lyle Hamblin, para argumentar que a legitimidade hereditária, e não só a convicção religiosa, ajuda a explicar por que a história nefita posterior foi tão marcada por guerras civis.

Um casamento que uniu dois povos e duas coroas

Tudo começa na fusão entre o povo de Mosias, o pai, e o povo de Zaraenla, ocorrida quando os nefitas encontraram os descendentes de Muleque já estabelecidos naquela terra.

Segundo a hipótese de Val Larsen, essa união teria sido selada por um casamento dinástico entre as duas elites, nos moldes do que aconteceu séculos depois na Inglaterra, quando o casamento entre Henrique VII e Elizabeth de York encerrou a Guerra das Rosas unindo as casas de Lancaster e York.

Se Benjamim, herdeiro de Mosias, o pai, tiver se casado dessa forma, Mosias, o filho, seria meio mulequita, o que ajudaria a explicar por que ele foi um rei tão amado pelo povo (Mosias 29:40): sua realeza representava, ao mesmo tempo, as duas linhagens.

Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

A sombra jaredita por trás dos nomes

Mas há uma terceira herança na mistura. Sorenson e Nibley já haviam demonstrado que o povo de Zaraenla também incorporou remanescentes da civilização jaredita, destruída séculos antes.

Essa influência aparece com clareza nos nomes: Coriantumr, por exemplo, é tanto o nome do último rei jaredita quanto o de um dissidente nefita que liderou um exército lamanita; Corior provavelmente está ligado ao conhecido Coriantumr, e mais tarde a Coriântumr novamente, quando um descendente de Zaraenla toma o trono de Zaraenla (Helamã 1).

Nibley já notara que um número expressivo de nefitas com nomes jareditas pertencia justamente às facções dissidentes, opostas à ortodoxia nefita.

Hudson usa esse padrão onomástico, a ideia de que nomes carregam pistas sobre herança cultural e genética, como ferramenta central do artigo, reconhecendo que é uma abordagem especulativa, mas com bom respaldo em outras áreas de pesquisa histórica.

Sangue e direito de governar

Questões de legitimidade atravessam todo o Livro de Mórmon. Já nas placas menores, Néfi parece escrever uma “história de linhagem” para justificar sua liderança.

Gerações depois, esse mesmo tipo de disputa reaparece nas guerras da época de Alma, o filho: Zerahemnah invade alegando um direito ancestral dos lamanitas de governar os nefitas (Alma 44); mais tarde, Amoron, nome de origem jaredita, ligado à antiga capital Moron, acusa os nefitas de terem usurpado “o direito ao governo que lhes pertencia por direito” (Alma 54:17–18).

Para Hudson, esse mosaico de povos dentro da própria sociedade nefita, remanescentes jareditas, mulequitas, zoramitas, zeniffitas, lamanitas convertidos, mantinha viva uma disputa constante sobre o que realmente significava “ser nefita”.

Por que o governo dos juízes nasceu frágil

Quando a monarquia foi substituída pelo sistema de juízes, Alma, o filho, herdou um cargo sem o peso histórico e simbólico da coroa.

Diferente de Mosias, o filho, que reinou apoiado em séculos de tradição e em relíquias sagradas como a Liahona e a espada de Labão, Alma, o filho, tinha que sustentar sua autoridade sozinho, e isso ficou evidente logo no caso de Neor, quando ele precisou invocar não só a lei, mas também “a vontade do povo” para justificar a sentença (Alma 1:14).

Paradoxalmente, o novo sistema, criado justamente para evitar a concentração de poder nas mãos de um único homem, acabou concentrando ainda mais poder nas mãos do juiz superior: Alma, o filho, acumulava as funções de juiz, sumo sacerdote e comandante militar, sem o conselho permanente de sacerdotes que Mosias, o filho, tinha à disposição.

Três anos depois da execução de Neor, a insatisfação explodiu na revolta de Amlici, um sinal claro de que tanto a Igreja quanto o novo governo ainda careciam de legitimidade aos olhos de parte do povo.

Dividir para estabilizar

Diante disso, Alma, o filho, parece ter tomado uma decisão deliberada: dividir o poder que centralizava.

Ele entrega o cargo de juiz superior a Nefia, nome que ecoa a linhagem do próprio Néfi, sugerindo raízes na realeza nefita e servindo para agradar os saudosistas da monarquia, e, paralelamente, o comando militar passa a um capitão independente, Zorão, provavelmente de ascendência mulequita, capaz de atrair a lealdade dessa outra metade do povo. Era, na leitura de Hudson, uma forma antiga do que hoje chamaríamos de “equilibrar a chapa” eleitoral.

Ainda assim, a reforma não resolveu a tensão de fundo. Os zoramitas, também vistos como culturalmente distantes da ortodoxia nefita, acabaram se aliando aos mulequitas dissidentes e desertando em massa para os lamanitas, liderados por Zerahemnah, provável descendente do próprio Zaraenla.

Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Capitão Moroni: a escolha política por trás do herói militar

É nesse cenário que entra Capitão Moroni, nomeado comandante aos vinte e cinco anos, idade jovem demais para que a experiência de batalha, sozinha, explique sua ascensão.

Hudson sugere que o próprio nome “Moroni” (“de Moron”), remetendo à antiga capital jaredita, aponta para uma provável ascendência mulequita, o que teria feito dele uma escolha estratégica: alguém capaz de comandar com legitimidade tanto os nefitas quanto os mulequitas, justamente num momento em que um general puramente nefita poderia ser visto pelos mulequitas como uma ameaça.

Ao mesmo tempo, o próprio discurso de Moroni ao erguer o Estandarte da Liberdade, em que ele se declara “remanescente da semente de José” (Alma 46:23–24), sugere que ele também reivindicava ascendência nefita.

Essa dupla herança, na leitura do artigo, pode explicar por que Moroni conseguiu unir soldados de origens tão diferentes sob o mesmo estandarte, algo que generais exclusivamente nefitas (como Helamã) ou exclusivamente mulequitas (como Teancum) não conseguiriam sozinhos.

Uma falha na Constituição derruba Paorã

Mesmo assim, o novo sistema ainda apresentava uma brecha estrutural. A divisão de tarefas fazia sentido na teoria: o capitão-chefe ficava nas fronteiras, comandando as batalhas contra os lamanitas, enquanto o juiz superior permanecia no centro do território, responsável por recrutar soldados e requisitar suprimentos, tarefa que, na prática, caía justamente sobre a população mulequita majoritária de Zaraenla.

Um general como Moroni ou Teancum talvez conseguisse cumprir essa função sem gerar tanto ressentimento; Paorã, aparentemente, não.

Isso ajuda a explicar um dos maiores mistérios dessa fase do relato: por que Paorã demorou tanto para avisar Helamã e Moroni sobre a crise política em Zaraenla, deixando os exércitos sem reforços nem suprimentos por tanto tempo?

Hudson sugere que o silêncio de Paorã pode não ter sido simples negligência, como já propuseram outros pesquisadores, mas cautela: notícia de um golpe bem-sucedido na capital poderia inspirar novas revoltas em outras partes do território, e Paorã talvez hesitasse em confiar informações tão sensíveis a Moroni, meio mulequita, sem antes ter certeza de sua lealdade.

Foi só depois que a carta de Moroni deixou clara sua devoção à causa que Paorã finalmente agiu.

Foi justamente essa brecha na divisão de poderes que permitiu a um homem chamado Pacos tomar a cidade e expulsar Paorã sem derramamento de sangue (Alma 61).

E a tensão de fundo não desapareceu com a vitória de Moroni: décadas depois, um exército liderado por Coriântumr, o dissidente de nome jaredita mencionado no início deste artigo, voltaria a tomar Zaraenla e colocaria um descendente do próprio Zaraenla no trono (Helamã 1).

Mais tarde ainda, pesquisadores como Daniel Belnap e Lyle Hamblin sugerem que os próprios ladrões de Gadiânton podem ter sido uma nova forma de dissidência mulequita contra o governo nefita.

Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Uma disputa que atravessa gerações

Para o autor, encarar as guerras do livro de Alma pela lente das “dinâmicas dinásticas” não diminui seu significado espiritual, pelo contrário, revela uma camada adicional de sofisticação política por trás do texto.

A renúncia de Alma, o filho, a aparente fraqueza de Nefia e Paorã como executivos e a ascensão de Capitão Moroni deixam de parecer episódios soltos e passam a fazer parte de um esforço contínuo e deliberado para equilibrar heranças rivais dentro de uma nação que ainda estava aprendendo a ser uma só.

Hudson reconhece que boa parte do argumento se apoia em pistas indiretas, sobretudo nos nomes próprios e no que eles podem sugerir sobre ascendência e cultura, e não em declarações explícitas do texto.

Ainda assim, ele defende que essas pistas se acumulam de forma consistente ao longo de várias gerações da narrativa, do casamento que uniu Mosias, o pai, e Zaraenla até a ascensão de Capitão Moroni décadas depois.

É essa acumulação de coincidências onomásticas, políticas e militares que sustenta a hipótese central do artigo: um general de herança mista, como Moroni parece ter sido, conseguia unir sob o mesmo estandarte soldados que generais de sangue só nefita ou só mulequita, como Helamã ou Teancum, respectivamente, dificilmente conseguiriam liderar sozinhos.

No fim, Hudson sugere que a transição da monarquia para o governo dos juízes não apagou essas rivalidades hereditárias, apenas as reorganizou dentro de uma nova estrutura constitucional.

Vista assim, a história registrada no livro de Alma deixa de ser apenas um relato de conflitos morais isolados e passa a ilustrar um desafio bem mais universal: o de construir uma autoridade legítima e justa em meio a divisões herdadas do passado, um desafio, que continua ecoando até os dias de hoje.

Fonte: The Interpreter Foundation

Veja também