Nas escrituras sagradas, duas cidades se destacam como os maiores símbolos de dois modos de vida, totalmente opostos: Sião e Babilônia. Compreender o que essas duas cidades representam é importante para qualquer cristão que busca alinhar sua vida com a vontade de Deus.
Mas afinal, o que significam esses nomes? São apenas lugares antigos ou representam algo para nós hoje?
Ao estudar as escrituras e observar o mundo ao meu redor, percebi que pertencer a Sião e Babilônia depende muito de nossas escolhas. E cada um de nós está ajudando a construir uma delas.

O signficado de Babilônia
Para entender Babilônia, precisamos voltar às suas raízes históricas. Babilônia (ou Babel) foi fundada por Ninrode, na região da Mesopotâmia, e tornou-se o palco do famoso episódio da Torre de Babel, onde o Senhor confundiu a língua do povo devido à sua rebeldia e orgulho (Gênesis 10:8–10; 11:1–9).
A Bíblia registra a pretensão deste povo:
“Edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo topo toque nos céus.”
(Gênesis 11:4)
Séculos mais tarde, sob o domínio do rei Nabucodonosor, Babilônia cresceu e se tornou um império colossal, conhecido tanto por sua riqueza quanto por sua profunda corrupção, sensualidade e idolatria.
Nas escrituras, a Babilônia virou exemplo e passou a simbolizar a iniquidade do mundo e o cativeiro espiritual. É a representação de uma sociedade que se esquece de Deus, onde:
“Todo homem anda em seu próprio caminho e segundo a imagem de seu próprio deus”.
(Doutrina e Convênios 1:16).
Profetas do Velho Testamento e apóstolos no Novo Testamento repetidamente usaram a Babilônia como um alerta severo. Em Jeremias 51:6, o profeta clama: “Fugi do meio de Babilônia”, exortando para que o povo do convênio abandonasse o pecado. No livro de Apocalipse, os capítulos 17 e 18 profetizam a queda definitiva desta cidade, lembrando-nos de que a moralidade decadente e as falsas promessas de felicidade do mundo acabarão por ruir.
“Caiu, caiu a grande Babilônia.”
(Apocalipse 18:2)
Hoje, Babilônia representa a cultura que tenta ditar nossos padrões morais, nosso vocabulário e nossos valores, pressionando-nos a conformar-nos com o que é popular, em vez do que o Padrão que o Senhor nos ensinou. O próprio Senhor nos convida:
“Deixai Babilônia; reuni-vos dentre as nações.” (Doutrina e Convênios 133:7)
Essa ordem do Senhor, envolve mudar nossa mentalidade e hábitos e nos juntarmos a outros que também estão buscando fazer isto. O Élder Neal A. Maxwell certa vez advertiu que precisamos “abandonar a casa de praia na Babilônia”. Ou seja, não podemos dizer que somos cristãos, enquanto mantemos um refúgio confortável nas conversas e valores do mundo.

O significado de Sião
A palavra Sião aparece muitas vezes na Bíblia e originalmente se referia a um lugar específico em Jerusalém.
Nos tempos do Antigo Testamento, Sião era o nome de uma fortaleza que ficava em uma colina da cidade. Quando o rei Davi conquistou Jerusalém, aquele local passou a ser conhecido como Cidade de Davi.
A Bíblia registra esse momento:
“Davi tomou a fortaleza de Sião; esta é a cidade de Davi.”
(2 Samuel 5:7)
Com o tempo, o termo Sião passou a representar não apenas aquela colina, mas toda Jerusalém e o povo do Senhor. Em muitos salmos e profecias, Sião é descrita como o lugar onde Deus habita e de onde Ele abençoa Seu povo. Por exemplo, o salmista declarou:
“Grande é o Senhor e muito digno de louvor, na cidade do nosso Deus, no seu santo monte.”
(Salmos 48:1)
E também:
“O Senhor ama as portas de Sião mais do que todas as habitações de Jacó.”
(Salmos 87:2)
Sião também representa o povo fiel de Deus
Em contraste com a Babilônia, encontramos Sião. No entanto, além do significado geográfico, as escrituras também ensinam que Sião descreve o caráter do povo de Deus.
Nas escrituras modernas, o Senhor define Sião:
“Pois isto é Sião — os puros de coração”
(Doutrina e Convênios 97:21)
Essa definição mostra que Sião também depende da retidão das pessoas que vivem ali.
Um dos exemplos mais impressionantes disso é encontrado na história do profeta Enoque. As escrituras descrevem que o povo de sua cidade viveu de forma tão justa que o Senhor os chamou de Sião:
“E o Senhor chamou seu povo Sião, porque eram unos de coração e vontade e viviam em retidão; e não havia pobres entre eles”.
(Moisés 7:18)
Esse tipo de sociedade justa e unida tornou-se um ideal espiritual que os profetas aguardaram ao longo da história. O Élder D. Todd Christofferson, do Quórum dos Doze Apóstolos, ensinou:
“Sião é Sião por causa do caráter, dos atributos e da fidelidade de seus cidadãos.”
Portanto, Sião é tanto um lugar quanto um povo.
Por último, vale mencionar outra Sião – a Nova Jerusalém – que ainda será estabelecida. Esta cidade terá um local geográfico estabelecido, onde Cristo reinará durante o Milênio, e regerá todas as nações.

Quando entendi que Sião não significa fugir do mundo
Quando pequeno, sempre tive uma devoção muito grande a Jesus Cristo. Desde cedo eu sentia um desejo sincero de conhecê-Lo mais e entender Seus ensinamentos. Eu gostava de aprender sobre Ele e buscava viver de uma maneira que O agradasse.
Mas, ao mesmo tempo, comecei a observar o mundo ao meu redor. Via como as coisas podiam ser difíceis. Percebia como muitas pessoas eram maldosas umas com as outras — mentiras, enganos, roubos, violência e todo tipo de injustiça. O mundo era totalmente diferente do que Sião nas escrituras, e isto me incomodava profundamente.
Com o tempo, comecei também a olhar para dentro de mim mesmo. Percebi minhas próprias fraquezas. Muitas vezes eu fazia coisas que não queria fazer ou pensava coisas que não estavam de acordo com aquilo que eu acreditava ser correto. Essa briga interna trazia um sentimento pesado ao meu coração.
Foi então que surgiu um pensamento sincero:
“Talvez a melhor forma de viver de maneira pura fosse me afastar de tudo e de todos.”
Na minha mente de criança, imaginei algo parecido com a vida de um monge. Assim, desejei por algum tempo, viver em um mosteiro, longe das influências do mundo, dedicado apenas à espiritualidade. Parecia simples, pois se o mundo era cheio de coisas ruins, bastava me afastar dele.
Deus nos muda, para nós mudarmos ao mundo
Em certo momento da minha vida, tive até a oportunidade de ir para um lugar onde pude estudar com outras pessoas religiosas e dedicar tempo a essa busca espiritual. Aquela experiência foi importante para mim, mas ainda não parecia ser o tipo de vida que o Senhor queria para mim.
Com o tempo, ao estudar mais profundamente as escrituras e ao conhecer os missionários de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, entendi que O Senhor não estava me convidando a fugir do mundo.Ele estava me convidando a ser transformado, e então ajudá-lo a transformar o mundo.
Ao estudar a vida do Salvador, percebi que Ele não se isolou das pessoas. Mesmo sendo perfeito, Ele caminhou entre aqueles que eram considerados pecadores, rejeitados ou marginalizados pela sociedade.
O próprio Salvador declarou:
“Não necessitam de médico os sãos, mas sim os que estão doentes.”
(Mateus 9:12)
Então aprendi que para pertencer e construir Sião eu não deveria me isolar com pessoas escolhidas, mas viver de maneira diferente. Eu devo estar no mundo, mas não ser do mundo.

Sião e Babilônia nos Últimos Dias
Para deixar claro, o conflito entre Sião e Babilônia é na verdade o mesmo conflito que começou antes desta vida. Portanto, é a escolha entre seguir Cristo ou se rebelar, escolhendo seu próprio caminho.
No passado, a orientação de Deus para Seu povo frequentemente envolvia fugir fisicamente da Babilônia. Vimos Abraão fugir da Caldeia, Moisés libertar Israel do Egito e a família de Leí abandonar Jerusalém antes de sua destruição. Era um mesmo padrão: escapar das trevas do mundo para fundar uma nova sociedade e buscar refúgio em um lugar isolado.
Joseph Smith, um profeta que Deus levantou em nossa época, ensinou:
“A edificação de Sião é uma causa que foi do interesse do povo de Deus em todas as épocas.”
Entretanto, para nós que vivemos nos últimos dias, o Senhor mudou o “como” fazer isto. Como eu mesmo aprendi, não somos mais chamados a empacotar nossos pertences e fugir para outro lugar. Em vez disso, fomos chamados para estabelecer Sião no meio da Babilônia.
Portanto, devemos fincar nossos pés onde estamos (em nossas próprias nações, cidades e lares) e construir refúgios. O trabalho da nossa geração é ser o sal da terra e a luz do mundo (Mateus 5:13-16). Se agirmos assim, fortaleceremos nossas famílias e comunidades, preparando a Terra para a Segunda Vinda de Jesus Cristo.

Como construir Sião nos últimos dias?
O Pres. Christofferson nos ensinou em seu discurso “A Sião Vem, Pois, Depressa”, que há três pilares para construirmos Sião:
1. União
É fácil falar sobre um mundo sem sofrimento. Mas isso não acontecerá enquanto não eliminarmos disputas familiares, invejas, críticas e ressentimentos nos ambientes em que nós vivemos.
Assim, construir Sião exige que nos arrependamos e perdoemos todos aqueles que nos ofendem. Portanto, para sermos Sião, precisamos deixar o orgulho de lado. O Senhor nos ensinou:
“De vós é exigido que perdoeis a todos os homens.” (D&C 64:10)
2. Santidade
É um desafio estabelecer Sião, quando diariamente somos ‘bombardeados’ de estímulos — telas, redes sociais, músicas e conteúdos que frequentemente banalizam o pecado.
Portanto, para construir Sião, precisamos de:
- Padrões elevados de recato.
- Pureza moral.
- Fidelidade aos convênios.
- Centralidade de Cristo na vida.
Não basta sermos “menos iníquos que o mundo”. Somos chamados a ser santos:
Portanto, que tipo de homens devereis ser? Em verdade vos digo que devereis ser como eu sou.(3 Néfi 27:27)
3. Cuidar dos pobres e necessitados
Devemos lembrar do que o Senhor já nos declarou:
“Se algum homem tomar da abundância que fiz e não repartir sua porção com os pobres (…) erguerá seus olhos no inferno.” (D&C 104:17–18)
Isso é muito sério. Não tem a ver com um sistema político como temos hoje. Tem a ver com o que se espera do povo de Deus. Pois Babilônia mede sucesso pela ostentação. Enquanto isso, Sião mede seu sucesso pela generosidade com que compartilha seus bens.
Eu aprendi ao observar membros simples da Igreja, que: com suas ofertas de jejum, projetos de serviços e pequenos atos de bondade, estes irmãos e irmãs ‘assentam tijolos’ e ‘levantam paredes’ inteiras na construção de Sião.

Sião e Babilônia: quando Cristo voltar
As escrituras profetizam que a Nova Jerusalém será estabelecida e que Cristo reinará como Rei de Sião, durante o milênio. Entretanto, Sião não será confortável para quem ama a Babilônia.
Conforme cantamos no hino:
“Babilônia vai caindo, para não mais renascer.”
O mundo continuará mudando. Então é fato que a oposição só aumentará. Entretanto, também aumentará o poder espiritual sobre os que estiverem “armados com retidão” (1 Néfi 14:14).
Portanto, Sião não é uma utopia que só existe “no mundo das ideias”. Nem a Babilônia é apenas uma história antiga. Elas são realidades, com as quais convivemos todos os dias. Assim, o Senhor nos convidou:
“Erguei-vos e brilhai, para que vossa luz seja um estandarte para as nações.” (D&C 115:5)
Veja também
- Como alcançar a união da sociedade de Sião descrita em 4 Néfi 1?
- Irmã Chieko N. Okazaki: a diversidade traz união à Igreja
- 15 discursos que mudaram a minha vida (e espero que sejam úteis a você)



