Quando pensamos na palavra “lamanita” no Livro de Mórmon, é natural associá-la a uma linhagem, os descendentes de Lamã e Lemuel, mais tarde ligados aos povos indígenas das Américas. Essa leitura tem base no próprio texto e nas promessas feitas a Leí sobre sua posteridade.

Mas, ao longo do livro, “lamanita” também funciona como uma designação de aliança, usada para descrever quem está distante de Deus, mas que continua sendo lembrado por Ele.

As duas leituras não competem entre si: a linhagem nunca é apagada, mas o livro se recusa, repetidas vezes, a deixar que ela seja a palavra final sobre quem pertence ao convênio.

Um registro guardado para trazer de volta

Essa ideia aparece desde muito cedo. Jarom explica que as placas foram preservadas “para o propósito e benefício de nossos irmãos, os lamanitas” (Jarom 1:2), e Leí já havia sido assegurado de que, mesmo que sua posteridade passasse por períodos de afastamento, o Senhor se lembraria deles e não permitiria que fossem “totalmente destruídos” (2 Néfi 4:9).

Enos torna essa preocupação ainda mais pessoal. Depois de receber a certeza de sua própria redenção, ele ora especificamente por “meus irmãos, os lamanitas” (Enós 1:11), pedindo que o registro fosse preservado “para que fosse levado, em algum dia futuro, aos lamanitas, para que, talvez, pudessem ser levados à salvação”.

O Senhor responde com uma promessa direta, e Enos escreve: “sabia que seria de acordo com o convênio que ele havia feito; portanto, minha alma descansou” (Enós 1:17). O retorno dos lamanitas, aqui, não é uma esperança vaga. É um convênio.

Os filhos de Mosias vivem essa mesma preocupação na prática. Eles pedem permissão para pregar “a seus irmãos, os lamanitas” (Mosias 28:1), buscando não a conquista, mas a reconciliação e o fim das contendas.

E não é por acaso que são justamente eles, que antes tinham sido “os piores dentre os pecadores” e temiam ser “rejeitados para sempre”, os que sentem esse chamado com mais força. Quem já experimentou misericórdia em meio ao próprio afastamento é quem mais deseja ver outros resgatados.

O que Jacó realmente quis dizer

A chave para entender essa dupla leitura, linhagem e convênio, está em uma explicação editorial de Jacó. Depois de listar vários grupos que existiam entre o povo de Leí, ele escreve que, a partir dali, chamaria de lamanitas “aqueles que procuram destruir o povo de Néfi”, e de nefitas os que fossem “amigos de Néfi” (Jacó 1:13–14).

Ou seja, mesmo nesse momento inicial do livro, os nomes já deixam de ser puramente genealógicos e passam a descrever de que lado do convênio cada grupo está.

Esse padrão se repete várias vezes. Há lamanitas retratados em fidelidade ao Senhor enquanto sociedades nefitas mergulham no orgulho (Helamã 6:1–3).

Samuel, o Lamanita, profetiza com autoridade total sobre um povo nefita que rejeita os profetas (Helamã 15:5–10). Depois do ministério de Cristo, o povo vive unido, sem “espécie alguma de -itas” entre eles (4 Néfi 1:17), até que a divisão volte a aparecer, não por linhagem, mas pela aceitação ou rejeição do evangelho.

E Morôni chega a afirmar que a maldade dos nefitas superou a dos lamanitas (Morôni 9:20). Os nomes de linhagem continuam ali, mas o valor moral que carregam muda de acordo com a fidelidade de cada povo, não com sua ancestralidade.

Vale notar, inclusive, a força da pergunta de Jacó em outro discurso, quando questiona os nefitas: “quão melhores sois vós do que eles, aos olhos de vosso grande Criador?” (Jacó 3:7). Em hebraico, o nome Néfi remete à ideia de bondade.

A pergunta de Jacó, então, carrega um duplo sentido: não é só “quão melhores”, mas quase “quão néfi vocês realmente são?” Nefitas que vivem na iniquidade deixam de corresponder ao próprio significado do nome que carregam.

Um convênio maior que a linhagem

O sermão do rei Benjamim aprofunda essa ideia. Em Mosias 5, o povo entra em um convênio individual de tomar sobre si o nome de Cristo e se tornar “filhos de Cristo” (Mosias 5:7).

Esse convênio é oferecido não só aos descendentes de Leí, mas também ao povo de Zaraenla, que nem sequer fazia parte da linhagem original de Leí. Pertencer ao convênio, aqui, é uma questão pessoal e relacional, não apenas uma questão de ascendência.

É esse mesmo princípio que aparece na conversão dos lamanitas liderados por Amon. Depois de largarem as armas, eles se tornam “um povo reto” que “não lutava mais contra Deus” (Alma 23:7), e passam a ser chamados de anti-nefi-leítas, um novo nome que marca essa mudança sem apagar sua origem lamanita (Alma 23:17).

O texto diz que, a partir de então, “a maldição de Deus não mais os acompanhou”, linguagem que descreve algo relacional, e não uma marca biológica fixa.

A maldição não é um destino biológico

Essa é uma das ideias mais importantes de toda essa leitura: em vez de uma marca permanente, a “maldição” que recai sobre os lamanitas é tratada, no texto, como uma condição de afastamento que pode ser revertida pelo arrependimento.

O próprio Jacó já havia prometido isso: “o Senhor Deus não os destruirá, mas será misericordioso para com eles, e algum dia se tornarão um povo abençoado” (Jacó 3:6).

Leí deixa a mesma promessa a seus netos, dentro de seu discurso final. Ele os alerta com urgência para que despertem e “sacudam as cadeias” que os prendem (2 Néfi 1:23), mas coloca uma condição logo em seguida: “se fordes amaldiçoados, eis que eu vos deixo a minha bênção” (2 Néfi 4:6). Esse “se” é o ponto central: a distância vem sempre acompanhada de uma promessa condicionada à fidelidade.

Esse mesmo padrão aparece fora do Livro de Mórmon. Simeão profetiza que Cristo seria posto “para queda e levantamento de muitos em Israel” (Lucas 2:34), e Paulo rejeita que o tropeço de Israel fosse definitivo: “Tropeçaram eles para que caíssem? De maneira nenhuma” (Romanos 11:11). Os ramos “quebrados” ainda podem ser enxertados de volta.

É a mesma lógica da alegoria da oliveira em Jacó 5, em que o Senhor da vinha trabalha pacientemente, nutrindo e enxertando com cuidado, “pois esta é a última vez que nutrirei minha vinha” (Jacó 5:71).

Há também um padrão de inversão que aparece com força. A fé da rainha lamanita, convertida por Amon, é tão grande que ele afirma nunca ter visto “tamanha fé entre todo o povo dos nefitas” (Alma 19:10).

É quase o mesmo padrão dos samaritanos nos evangelhos: um deles volta para agradecer a Cristo quando os outros nove não voltam (Lucas 17:15–18), e é um samaritano quem demonstra o que realmente significa amar o próximo, na parábola do bom samaritano (Lucas 10:33–37). Quem era visto como distante do convênio acaba mais perto, em humildade e fé.

A missão de 1830 aos lamanitas

Esse referencial ajuda a reler um episódio conhecido da história da Restauração: a missão de 1830, quando Oliver Cowdery, Parley P. Pratt, Peter Whitmer Jr. e Ziba Peterson foram chamados a “ir aos lamanitas” (Doutrina e Convênios 28:8; 30:5–8; 32:2–3).

Eles caminharam mais de 2.400 quilômetros até o Território Indígena, no atual Kansas, levando o Livro de Mórmon a nações como os seneca, shawnee, wyandot e delaware, apresentando-o como um registro dos antepassados desses povos.

Entre os delaware, o chefe William Anderson recebeu os missionários com cortesia, mesmo sem nenhuma conversão ter resultado desse encontro, um contraste silencioso com o sentimento comum da época, que via os povos nativos como perdidos.

Mas, em Fort Leavenworth, o agente indígena Richard Cummins negou permissão oficial para a missão continuar, e os élderes foram ordenados a se retirar do território. A recusa refletia a aplicação de leis federais e o avanço da Lei de Remoção Indígena, que naquele mesmo ano empurrava povos nativos para o oeste, e não uma rejeição espiritual dos povos que os missionários visitaram. Foi uma interrupção política, não um fracasso de convênio.

O cumprimento inesperado em Kirtland

Por muito tempo, esse episódio foi lido como um fracasso simples: os élderes chegaram aos delaware e shawnee, foram barrados pela lei e voltaram sem resultados visíveis. Mas o verdadeiro cumprimento da missão só ficou claro depois, no caminho de volta.

Foi em Kirtland, Ohio, parando para pregar entre congregações campbellitas, que os missionários batizaram mais de cem pessoas, entre elas Sidney Rigdon, Isaac Morley, Newel K. Whitney e a jovem Mary Elizabeth Rollins Lightner. Nenhum deles era descendente literal de Leí que os élderes buscavam. Ainda assim, foi ali que nasceu o primeiro grande núcleo da Igreja fora de Nova York.

É o mesmo princípio que Néfi já havia ensinado: “tantos quantos dos gentios se arrependerem são o povo do convênio do Senhor” (2 Néfi 30:2). Os missionários foram atrás de uma linhagem específica e encontraram, no caminho, pessoas prontas para o convênio por meio da fé e do batismo. A busca pela linhagem quase os fez não perceber o que já estava acontecendo bem diante deles.

Uma identidade que soma, e não substitui

Essa leitura de aliança não apaga a ancestralidade nem diminui a importância histórica dos povos indígenas no Livro de Mórmon. A própria Igreja já fez ajustes de linguagem nesse sentido.

A introdução do livro, que em 1981 dizia que os lamanitas eram “os principais antepassados dos índios americanos”, foi revisada em 2006 para “entre os antepassados”, e o ensaio da Igreja de 2014 sobre Livro de Mórmon e estudos de DNA reforça que o livro nunca afirmou que seu povo foi o único habitante das terras que ocupou.

Nada disso torna o convite do evangelho menos verdadeiro, ele sempre foi central. O que muda é o entendimento de que pertencer ao convênio depende, em primeiro lugar, de responder a Cristo.

Como ensinou D. Todd Christofferson em “Por Que a Igreja”, “não nos empenhamos pela conversão à Igreja, mas a Cristo e a Seu evangelho”, e o trabalho missionário reflete isso: ele busca reunir, não classificar, da mesma forma que o pastor de Lucas 15 deixa as noventa e nove ovelhas seguras para buscar a que se perdeu, tratando-a como parente, não como estranha.

Esse mesmo cuidado aparece em Helamã 5, quando Néfi e Leí ministram entre os lamanitas dividindo sua própria vulnerabilidade: são presos, e é em meio a essa prisão que o fogo que os envolve, sinal de proteção divina, se torna visível para todo o povo ao redor. O discipulado, nesses relatos, não acontece à distância, mas dentro da proximidade e da humildade.

O Livro de Mórmon

O que isso significa para a Igreja hoje

Passagens como 3 Néfi 21:22–26 descrevem lamanitas, gentios e judeus reunidos por meio da obra de Sião, um futuro que ainda não se cumpriu por completo, mas que segue apontando para a mesma direção.

O próprio Mórmon, ao escrever sobre “meus irmãos”, os descendentes de Leí, ora para que “possam, mais uma vez, ser um povo deleitável” (Palavras de Mórmon 1:8), uma oração enraizada na posteridade literal, mas que se abre a todos que recebem o testemunho de Cristo trazido pelo livro.

Essa é também a experiência de santos indígenas ao redor do mundo, que testemunham que a fidelidade ao convênio não exige abandonar a memória cultural ou a identidade de povo. O convênio não apaga quem se é, ele reordena.

Como disse o presidente Russell M. Nelson em discurso na BYU–Idaho, “o Senhor usa o improvável para realizar o impossível.” E, como lembra a escritora Melissa Inouye em “A Church That Is Real”, “a Igreja que é verdadeira é uma Igreja que é real… ela incorpora contradições e contrastes.” É formada por gente imperfeita, unida pelo convênio, caminhando junto rumo a Sião.

Isso também dignifica a Igreja como um todo, hoje espalhada entre povos das ilhas do Pacífico, indígenas, latino-americanos, africanos e tantos outros que, por muito tempo, ficaram à margem das narrativas religiosas de origem europeia e americana.

Essas comunidades não são receptoras periféricas de uma história já pronta. Elas entram no convênio pelo mesmo padrão que o Livro de Mórmon repete do início ao fim: lembrança depois do afastamento, ajuntamento depois da distância.

O que fica no fim

O ponto central aparece de forma simples em 2 Néfi 26:33: o Senhor “não nega a ninguém que a ele venha… e todos são iguais para Deus.” Ser chamado de “lamanita” no Livro de Mórmon, então, pode significar mais do que uma linha genealógica. Pode ser também o nome de quem está distante, mas nunca esquecido, e para quem a volta está sempre em aberto.

Como resume o élder Patrick Kearon em “A Intenção de Deus É Trazê-lo para Casa”, “Deus está em busca incessante de vocês. Ele quer que todos os Seus filhos escolham voltar para Ele, e Ele emprega todas as medidas possíveis para trazê-los de volta.”

Aquele que se chamou de Bom Pastor também sabia, em algum momento, o que era ser uma ovelha perdida, como escreveu Melissa Inouye em “A Lost Sheep”. É esse mesmo Pastor que continua buscando, não à distância, mas de dentro, descendo ao deserto para levar Seu povo de volta para casa.

Fonte: The Interpreter Foundation

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