O Salmo 150 tem apenas seis versículos e encerra todo o livro de Salmos. Nos versículos centrais, o salmista reúne uma longa lista de instrumentos: trombeta, saltério, harpa, tamborim, cordas, órgãos e diferentes tipos de címbalos. Até a dança aparece no convite ao louvor.

Logo após, vem o versículo 6 que é tão conhecido:

“Tudo quanto tem fôlego louve ao Senhor.”

O convite agora é extendido a tudo o que respira, e não mais se faz necessário ter um instrumento. A palavra hebraica usada no versículo é neshamá, também encontrada em Gênesis 2:7, quando Deus sopra “o fôlego da vida” nas narinas do homem. A expressão kol haneshamá tehalel Yah continua presente na liturgia judaica.

Esse convite ganha um significado interessante quando pensamos no canto coletivo, pois nem todo mundo sabe tocar um instrumento e nem todo mundo considera que tem uma voz bonita ou afinada, mas respirar é algo que todos os que estão reunidos fazem de forma natural.

cantar em grupo

Como a música influencia a respiração e o coração

Cantar depende diretamente da respiração. A melodia determina quando é preciso puxar o ar, quanto tempo sustentá-lo e quando respirar novamente. Por isso, durante uma música, a respiração tende a ficar mais lenta e organizada do que em uma situação comum.

Essa mudança também pode ser observada no ritmo cardíaco. Nosso coração não mantém exatamente o mesmo intervalo entre cada batida: a frequência tende a aumentar durante a inspiração e diminuir durante a expiração. Quando a respiração fica lenta e regular, essa variação se torna mais perceptível.

Em 2013, pesquisadores da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, colocaram sensores cardíacos em jovens de 18 anos e propuseram três atividades em grupo.

Primeiro, os participantes deveriam sustentar um som, respirando livremente. Depois, cantaram um hino, seguindo as pausas naturais da melodia. Por fim, entoaram um mantra formado por frases longas, com aproximadamente uma respiração a cada dez segundos.

Quando cada participante respirava livremente, os padrões cardíacos também variavam de maneira individual. Nas atividades em que a música determinava a respiração, porém, os padrões começaram a apresentar oscilações semelhantes. Durante o mantra, os pesquisadores observaram oscilações regulares de 0,1 Hz entre os participantes.

O estudo, publicado na Frontiers in Psychology, mostrou justamente essa relação entre a estrutura da música e a variabilidade cardíaca de quem canta.

O que sincronizou os corpos não foi o talento dos cantores. Foi a melodia impondo a mesma respiração a todos. O hino escolhido para o experimento foi “Härlig är jorden“, um cântico de peregrinos escrito pelo dinamarquês Bernhard Severin Ingemann em 1850 sobre uma melodia folclórica da Silésia, a mesma que, em inglês, leva a letra de “Fairest Lord Jesus”.

O que acontece com o corpo ao cantar em grupo

Dois anos depois, pesquisadores ligados à Universidade de Oxford estudaram outro aspecto do canto coletivo: a formação de vínculos dentro de um grupo.

Eiluned Pearce, Jacques Launay e Robin Dunbar acompanharam sete turmas de educação para adultos durante sete meses. Quatro eram de canto, duas de artesanato e uma de escrita criativa. Os encontros aconteciam semanalmente, por duas horas, e os participantes respondiam a questionários sobre o quanto se sentiam próximos dos colegas.

No final do período, todas as turmas apresentaram níveis semelhantes de proximidade. O que chamou a atenção dos pesquisadores foi a velocidade com que isso aconteceu.

Entre os participantes das aulas de canto, a sensação de proximidade aumentou rapidamente logo no início. Nas outras atividades, esse vínculo se desenvolveu de forma mais gradual. Os pesquisadores chamaram esse fenômeno de “efeito quebra-gelo”, em um artigo publicado na Royal Society Open Science.

Uma das possíveis explicações está na própria natureza da atividade. Uma conversa normalmente envolve poucas pessoas de cada vez. Já uma música permite que dezenas de pessoas participem simultaneamente da mesma experiência. E não estamos falando de cantores profissionais: os participantes do estudo eram pessoas comuns que estavam aprendendo a cantar.

cantar em grupo

“Tudo quanto tem fôlego”

Os dois estudos observam aspectos diferentes do canto coletivo. Um mostra como a estrutura de uma música pode organizar a respiração e influenciar os padrões cardíacos de quem canta. O outro mostra como cantar em grupo pode acelerar a sensação de proximidade entre pessoas que ainda estão se conhecendo.

Nenhum desses efeitos exige uma voz perfeita.

Talvez isso ajude a enxergar de outra maneira o convite feito no prefácio da Primeira Presidência ao hinário:

“Incentivamos todos os membros, quer tenham inclinações musicais ou não, a juntarem-se a nós no cântico dos hinos.”

Em uma congregação, cantar não é uma apresentação reservada às pessoas com mais habilidade musical. É uma atividade da qual todos podem participar. Mesmo quem canta baixo, perde uma nota ou não tem uma voz treinada ainda pode fazer parte daquele momento coletivo.

Essa preocupação também aparece no novo hinário Hinos — Para o Lar e a Igreja, que vem sendo publicado em fases desde 2024. Entre os objetivos do projeto está oferecer músicas que possam ser cantadas por membros da Igreja em diferentes culturas, idiomas e circunstâncias, tanto no lar quanto nas reuniões da Igreja.

Há algo especialmente bonito na maneira como o livro de Salmos termina. Depois de tantos capítulos que falam de medo, sofrimento, arrependimento, súplica e esperança, os cinco últimos salmos, do 146 ao 150, são marcados pelo louvor e pelo repetido “aleluia”.

No último deles, aparecem trombetas, harpas, tamborins, cordas e címbalos, mas a última convocação não é dirigida aos músicos, é dirigida a quem tem fôlego.

E na sua ala ou ramo, como é o canto congregacional? Tem algum hino que todo mundo parece cantar com mais força? Conte nos comentários.

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