Vários detalhes sobre a “descendência de Caim” no Livro de Moisés encontram apoio em fontes antigas e medievais. Este texto explica, de forma simples, quais são esses detalhes e onde eles aparecem fora da Bíblia e das escrituras Santos dos Últimos Dias.
O que o Livro de Moisés diz sobre Caim e sua descendência
Depois que Caim matou Abel, o Senhor disse:
“E agora serás amaldiçoado desde a Terra, que abriu a boca para receber de tua mão o sangue de teu irmão. Quando lavrares a terra, ela não te dará mais sua força. Fugitivo e vagabundo serás na Terra.” — Moisés 5:36–37
Ou seja, Caim foi amaldiçoado e, de certa forma, excluído do convívio com os outros depois do assassinato.
Uma maldição parecida caiu sobre a descendência de Caim (e sobre qualquer outra pessoa) que continuasse as obras de trevas de Satanás. Por exemplo, Lameque, um descendente de Caim, também foi amaldiçoado e “desprezado, e expulso, e não veio para o meio dos filhos dos homens” (Moisés 5:52–54). Da mesma forma que a terra não deu mais sua força para Caim, o texto diz que “Deus amaldiçoou a terra com grave maldição, e se indignou contra os iníquos” (Moisés 5:56).
Mais adiante, o texto volta a falar da separação da descendência de Caim, desta vez associando-a à cor negra:
“E Enoque também viu os remanescentes do povo que eram os filhos de Adão; e eram uma mistura de toda a semente de Adão, exceto a de Caim, pois a semente de Caim era negra e não tinha lugar entre eles.” — Moisés 7:22

O “povo de Canaã”: um grupo parecido
Curiosamente, uma descrição parecida é feita sobre o “povo de Canaã” — um grupo misterioso que existiu antes do Dilúvio e que não deve ser confundido com os cananeus da época bíblica posterior:
“… o povo de Canaã dividir-se-á na terra e a terra será estéril e infecunda; e nenhum outro povo viverá ali, a não ser o povo de Canaã; Pois eis que o Senhor amaldiçoará a terra com muito calor e a sua esterilidade continuará para sempre; e uma cor negra desceu sobre todos os filhos de Canaã, de modo que foram desprezados entre todos os povos … E aconteceu que Enoque continuou a chamar todo o povo, com exceção do povo de Canaã, ao arrependimento.” — Moisés 7:7–12
Ou seja, tanto a descendência de Caim quanto o povo de Canaã são descritos com três características em comum:
| Característica | Caim | Descendência de Caim | Povo de Canaã |
|---|---|---|---|
| Amaldiçoado | Sim (Moisés 5:36–37) | Sim (Moisés 5:52, 56) | Sim (Moisés 7:8, 15, 20) |
| Excluído/desprezado | Sim (Moisés 5:37) | Sim (Moisés 5:54; 7:22) | Sim (Moisés 7:8, 12) |
| Associado ao negrume | Não é mencionado | Sim (Moisés 7:22) | Sim (Moisés 7:8) |
É importante deixar claro que não estamos afirmando que a “descendência de Caim” e o “povo de Canaã” sejam necessariamente o mesmo grupo, apenas que eles ocupam um espaço parecido na narrativa. O argumento principal do artigo não depende dessa relação.
O que Joseph Smith poderia ter conhecido sobre o assunto
A passagem bíblica mais relacionada a esse tema é Gênesis 6:1–3, que fala dos “filhos de Deus” que se casaram com as “filhas dos homens”, sem explicar quem eram esses grupos.
Vários autores da época de Joseph Smith (século XIX) já diziam que os “filhos de Deus” eram a linhagem de Sete, e as “filhas dos homens” eram a linhagem de Caim, e que essa mistura era proibida:
- O teólogo João Calvino escreveu que foi “ingratidão” dos descendentes de Sete se misturarem com os filhos de Caim.
- O pastor Matthew Henry, em seu comentário bíblico, dizia que a “posteridade de Sete… misturou-se com a raça excomungada de Caim”.
Também havia, na época, a ideia de que Caim teria recebido pele escura como castigo por matar Abel, uma crença encontrada tanto nos Estados Unidos quanto na Europa dos séculos XVII a XIX.
Diante disso, alguém poderia pensar que o Livro de Moisés simplesmente repete ideias comuns do ambiente cultural do século XIX. Mas, como mostram as seções seguintes, ideias semelhantes já existiam muito antes, na Idade Média e até na Antiguidade.
Caim e sua descendência “amaldiçoados e excluídos” em fontes antigas
1 Enoque (livro judaico antigo) não diz diretamente que a descendência de Caim foi excluída em vida, mas fala da separação entre os espíritos de Abel e de Caim após a morte (1 Enoque 22:8–10).
Escritores cristãos antigos são bem mais diretos:
- Júlio Africano (séc. II–III d.C.) já defendia que os “filhos de Deus” eram os descendentes de Sete, e os “filhos dos homens” eram os de Caim — ideia parecida com a do Livro de Moisés.
- Afraates, escritor sírio, contou que Noé decidiu não se casar para não se misturar com “os malditos filhos da casa de Caim”.
- João Cassiano afirmou que a linhagem de Sete era chamada “anjos de Deus” enquanto se manteve separada da de Caim.
- Eusébio de Emesa, Atanásio e Teodoreto de Ciro também escreveram que a linhagem de Sete “não se misturava” com a de Caim, por causa da maldição.
- Efrém, o Sírio, escreveu que os descendentes de Sete “se separaram de Caim e não se casaram com ele por causa de sua vergonha”, e que a terra de Caim recebeu uma segunda maldição de infertilidade — o que lembra muito Moisés 5:56 e 7:8.
O tema aparece até em textos que recontam a história de Adão e Eva. No livro O Conflito de Adão e Eva com Satanás, Adão orienta seu filho Sete, antes de morrer, a separar seus filhos dos filhos de Caim e nunca deixá-los se misturar.
O texto conhecido como A Caverna dos Tesouros conta que, após o funeral de Adão, a família de Sete se separou da família de Caim, subindo para viver numa montanha, enquanto Caim e seus descendentes ficaram na planície. Isso é muito parecido com a descrição, no Livro de Moisés, do povo justo de Enoque vivendo em “lugares altos” (Moisés 6:37–38; 7:17) e vindo de uma “terra de justiça” (Moisés 6:41).
Cirilo de Alexandria ainda acrescenta que os descendentes de Sete eram mais fortes em batalha do que os de Caim — o que lembra Enoque e seu povo vencendo todos os inimigos com o poder de Deus (Moisés 7:13).
A mesma ideia de separação aparece também em textos islâmicos, que falam de Enoque pedindo a seu povo que não se associasse aos descendentes de Caim (chamado de Qābīl em árabe), e em um texto judaico medieval tardio chamado Crônicas de Jerameel, que conta que os filhos de Sete moravam nas montanhas perto do Jardim do Éden, enquanto Caim morava nos campos de Damasco, onde Abel foi morto.
Caim e sua descendência associados ao “negrume” em fontes antigas
No Livro de Moisés, a cor negra e a escuridão costumam representar o mal, as trevas de Satanás, suas obras sombrias, a prisão escura preparada para os iníquos, e a escuridão profetizada para os últimos dias. Ou seja, associar a descendência de Caim ao negrume se encaixa num tema maior do livro inteiro, e não é só um detalhe histórico isolado.
Essa não é uma afirmação de que essa “negrume” seja sobre cor de pele literal, isso não fica definido pelo texto. Mas mostra que a associação simbólica entre Caim e a escuridão aparece em várias fontes antigas:
- Na Vida Grega de Adão e Eva, Caim recebe o epíteto grego Adiaphōtos, que pode significar algo como “o não-iluminado” ou “aquele de alma escura”.
- Em um livro armênio sobre Adão, conta-se que Deus bateu no rosto de Caim com granizo “que escureceu como carvão”, deixando-o com “rosto negro”, em contraste com Abel, cujo rosto “brilhava”.
- No Apocalipse de Elias, uma figura satânica tem sua “tribo” descrita como tendo se tornado “escura”.
- Em O Conflito de Adão e Eva com Satanás, diz-se que os anjos caídos “ficaram negros desde que transgrediram”.
- Em um texto samaritano, os filhos de Caim são chamados de “filhos das trevas”, enquanto os filhos de Sete são “filhos da luz”.
- Na parte de 1 Enoque conhecida como “Apocalipse dos Animais”, a linhagem de Caim é representada por gado preto, enquanto a linhagem de Sete é representada por gado branco, um simbolismo de retidão (branco) e maldade (preto) que também aparece no Livro de Moisés, onde Enoque é “revestido de glória” (Moisés 7:3, 7:17), em contraste com o “negrume” da descendência de Caim e do povo de Canaã.
- Segundo o pesquisador David Goldenberg, o próprio nome árabe de Caim no Alcorão, Qābīl, pode estar relacionado à raiz aramaica qbl, que significa “negro”.
É importante notar também que, no Livro de Moisés, Caim é chamado de “pai” das mentiras de Satanás (Moisés 5:24), e Satanás é descrito como “pai” dos iníquos (Moisés 7:37). Em algumas tradições judaicas, Caim também era visto como “filho do diabo”, reforçando essa ligação simbólica entre Caim, Satanás e a escuridão.

Conclusão
É preciso deixar bem claro que não se está afirmando que Caim ou sua descendência tinham pele negra, que a pele negra é uma maldição, ou que casamentos inter-raciais sejam pecaminosos. A posição oficial e atual de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é clara: “Os líderes da Igreja hoje condenam de forma inequívoca todo racismo, passado e presente, em qualquer forma.” A ideia aqui é que:
- Os “filhos de Deus” eram a linhagem justa de Adão (e não deviam se misturar com a linhagem de Caim) já existia pelo menos desde a época de Júlio Africano (séculos I–II d.C.).
- A associação entre Caim e o conceito de escuridão/negrume pode ser rastreada até o período do Segundo Templo judaico, no Apocalipse dos Animais de 1 Enoque (200–100 a.C.).
Essas fontes antigas não eliminam a possibilidade de que Joseph Smith tenha tido contato com ideias parecidas em seu próprio ambiente do século XIX. Mas elas mostram que essas ideias não são necessariamente modernas, e que o Livro de Moisés ressoa com tradições antigas e medievais de formas que vão além do texto simples de Gênesis.
Fonte: Scripture Central
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