É surpreendentemente difícil para os adultos se lembrarem de como é a vida do ponto de vista de uma criança. Passamos da infância para a vida adulta de maneira tão gradual que talvez nem percebamos o quanto o mundo delas é diferente do nosso.
Por exemplo, talvez não imaginemos que, entre as grandes preocupações de algumas crianças, esteja o medo de fazer xixi na roupa na escola. Isso pode parecer bobagem para os adultos. Esquecemos que, na escola, as crianças muitas vezes precisam pedir permissão para ir ao banheiro. Elas podem se lembrar de ocasiões em que não conseguiram chegar a tempo, além da humilhação de terem sido provocadas por causa disso.
Muitas vezes, as crianças se sentem surpreendentemente impotentes em relação à própria vida. Quando julgamos o comportamento delas a partir da perspectiva de um adulto, elas podem parecer irracionais, dramáticas ou difíceis. Mas, quando enxergamos o mundo do ponto de vista delas, seu comportamento muitas vezes começa a fazer sentido, e nossa irritação pode dar lugar à compaixão.

O mundo parece diferente para os adolescentes
A maioria de nós também já se esqueceu de muitos dos desafios da adolescência. Os adolescentes estão aprendendo a pensar sobre o próprio pensamento. Estão se tornando cada vez mais conscientes de como as outras pessoas podem pensar a respeito deles. Pode ser uma fase muito confusa, embora necessária, do desenvolvimento.
Os psicólogos às vezes descrevem algumas características do egocentrismo adolescente. Os adolescentes podem sentir como se todos estivessem observando e avaliando o que fazem. Também podem acreditar que suas experiências são únicas ou que os perigos comuns não se aplicam exatamente a eles.
Como resultado, podem ser extremamente sensíveis. Talvez passem o que nos parece ser uma quantidade extraordinária de tempo se arrumando para ir à escola. Podem ficar pensando repetidamente nas coisas que os colegas disseram a eles ou sobre eles. Podem desejar fazer algo heroico e, ao mesmo tempo, sentir-se extremamente vulneráveis à vergonha.
Para os adultos, os adolescentes podem parecer irracionais ou sensíveis demais. No entanto, aprender a compreender seu mundo interior e social é tão normal, e tão necessário, quanto uma criança pequena aprender a andar ou falar.
Você se lembra de se sentir extremamente constrangido quando era criança? Lembra-se de ficar imaginando o que as pessoas pensavam de você? Lembra-se de ficar vermelho de vergonha por causa de algo que disse? Lembra-se de ser alvo de piadas ou provocações dos colegas?
Se conseguirmos nos lembrar, mesmo que um pouco, dessa vulnerabilidade, será menos provável que descartemos as preocupações de nossos filhos como bobagens ou exageros. Talvez tenhamos a humildade necessária para compreendê-los.
É claro que nossos filhos não são versões em miniatura de nós mesmos. Lembrar de nossa própria infância pode nos dar humildade, mas não pode nos dizer exatamente como é a vida para eles. Por isso, precisamos observá-los. Perceber o que lhes traz alegria, o que os deixa constrangidos, o que os preocupa e o que lhes dá esperança. Precisamos ouvir atentamente aquilo que parece enorme no mundo deles, mesmo quando parece pequeno no nosso.
Nosso objetivo não é apenas lembrar de nossa própria infância, mas entrar no mundo deles.
Compreender nossos filhos exige esforço
Minha esposa, Nancy, e eu costumávamos sair ocasionalmente para jantar e conversar sobre cada um de nossos filhos. Nancy podia perguntar como poderíamos ajudar um deles a fazer mais amigos ou outro a lidar com uma experiência difícil. Eu sugeria algumas possibilidades. Ela sabia quais delas se encaixavam melhor para cada filho.
Ela percebia coisas que eu não percebia porque passava muito tempo com eles e porque sabe ouvir muito bem. Essas conversas me lembravam de que compreender nossos filhos não acontece automaticamente. É uma disciplina. Podemos observá-los, comparar nossas percepções, rever nossas suposições e continuar tentando enxergar a vida através dos olhos deles.
Anjelica Huston conta que, quando era jovem, fez um comentário negativo à mesa de jantar sobre Vincent van Gogh. Disse, de maneira um tanto despreocupada, que não gostava das obras dele. Seu pai, o famoso diretor de cinema John Huston, explodiu: “Você não gosta de van Gogh? Então diga o nome de seis pinturas dele e me explique por que não gosta delas.”
Quando ela não conseguiu responder, ele ordenou: “Saia da sala e, enquanto não souber do que está falando, não volte à mesa de jantar com suas opiniões.”
John Huston estava preocupado com julgamentos feitos sem reflexão, e havia sabedoria nessa preocupação. Mas ataques duros não ensinam humildade nem conhecimento. Muitas vezes, apenas criam ressentimento. Ele não estava debatendo com uma crítica de arte. Estava orientando uma criança.
Talvez pudesse primeiro ter procurado entender o que sua filha enxergava, ou deixava de enxergar, na obra de van Gogh. A curiosidade poderia ter aberto a porta para o ensino.

Corrigir sem deixar de ouvir
Haim Ginott descreve uma maneira muito diferente de transformar a opinião pouco informada de uma criança em uma oportunidade de aprendizado.
Quando Clara, de 14 anos, criticou a pintura moderna, sua mãe não contestou sua opinião. Também não condenou seu gosto.
Mãe: Você não gosta de arte abstrata?
Clara: Não gosto mesmo. É feia.
Mãe: Você prefere arte figurativa?
Clara: O que é isso?
Mãe: Você gosta quando uma casa parece uma casa, uma árvore parece uma árvore e uma pessoa parece uma pessoa.
Clara: Sim.
Mãe: Então você gosta de arte figurativa.
Clara: Olha só. A vida inteira eu gostei de arte figurativa e nem sabia.
A mãe de Clara usou a afirmação da filha como uma oportunidade para ensiná-la. E, nesse processo, demonstrou respeito e carinho.
Observe que a mãe de Clara não apenas tolerou a opinião da filha. Primeiro, ela entrou no mundo da filha, e depois ampliou esse mundo.
Antes de corrigirmos nossos filhos, devemos tentar compreender como o mundo parece do lugar onde eles estão. Não conseguimos compreender verdadeiramente outra pessoa até que, como diz o velho ditado, tenhamos nos colocado no lugar dela. Isso é especialmente verdadeiro em relação aos nossos filhos.
Quando começamos a compreender o cenário da vida deles, suas esperanças, vergonhas, ansiedades, sonhos e monstros, o comportamento deles passa a fazer mais sentido.
Aquilo que parecia desafio pode ser desânimo. Aquilo que parecia vaidade pode ser insegurança. Aquilo que parecia uma reação exagerada pode ser uma dor verdadeira.
Antes de reagir, procure compreender
Compreender não significa aprovar tudo o que nossos filhos fazem. Significa enxergar com clareza suficiente para responder com sabedoria, em vez de irritação. Quando nos colocamos no lugar deles, temos muito mais chances de ajudá-los a encontrar o caminho para uma vida adulta feliz.
Pense em uma situação recente em que seu filho fez algo que deixou você irritado ou confuso.
- Como essa situação pode ter parecido pelos olhos de seu filho?
- O que seu filho pode ter sentido, temido, esperado ou tentado fazer?
- O que mudaria em sua maneira de responder se você compreendesse esses sentimentos?
- Na próxima vez que se sentir irritado com seu filho, você conseguiria parar por tempo suficiente para perguntar: “Como isso é para você?”
Fonte: Meridian Magazine
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