Quem acompanha o presidente Dallin H. Oaks principalmente por seus discursos na Conferência Geral provavelmente conhece sua maneira direta de ensinar. Ao longo de décadas como apóstolo, ele não evitou assuntos difíceis e, muitas vezes, falou com clareza sobre temas que provocam fortes debates dentro e fora da Igreja.

Mas como é o presidente Oaks quando não está diante de um púlpito?

Richard E. Turley Jr. talvez seja uma das pessoas mais preparadas para responder a essa pergunta. Historiador e ex-diretor administrativo do Departamento de História da Igreja, Turley é autor de In the Hands of the Lord: The Life of Dallin H. Oaks, biografia publicada em 2021.

Para escrever o livro, ele teve acesso a diários, cartas e outros registros pessoais de Oaks. Mas sua perspectiva não veio apenas dos documentos. Os dois se conhecem há cerca de quatro décadas.

E algumas das coisas que Turley descobriu ajudam a mostrar um lado do profeta que nem sempre aparece em seus discursos públicos.

Richard E. Turley Jr. Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

“Em particular, ele é o que é em público”

Ao falar sobre o que encontrou nos documentos pessoais de Oaks e também sobre aquilo que observou durante anos de convivência, Turley chegou a uma conclusão simples:

“Em particular, ele é o que é em público, no sentido de que pratica aquilo que prega. Há algumas pessoas que podem ser mais relaxadas em certos aspectos na vida privada do que são em público. Ele é a pessoa mais transparente que já conheci. Ele é o que é.”

Um episódio simples ilustra o que Turley quer dizer.

Durante uma viagem à Universidade da Virgínia, Turley estava acompanhando o presidente Oaks e sua esposa, Kristen. No dia seguinte, antes de um importante discurso, eles visitavam locais históricos da região quando encontraram por acaso uma equipe do Church News.

Oaks estava usando duas bengalas para ajudá-lo a manter o equilíbrio. Quando a equipe pediu para fotografar o casal, alguém se ofereceu para retirar as bengalas, aparentemente imaginando que ele preferiria não aparecer com elas na fotografia.

Turley contou:

“Uma das pessoas da equipe do Church News disse: ‘Podemos tirar isso do senhor?’, pensando que ele não gostaria de ser fotografado com as bengalas. Ele parou por um momento e disse: ‘Não. É quem eu sou agora’. Acho que isso é um reflexo de sua completa transparência. Ele não tenta aparentar ser algo que não é. O que você vê em público é quem ele é em particular, exceto pelo fato de que ele é mais expansivo e caloroso quando você o vê em um ambiente privado.”

Era um detalhe pequeno, mas, para alguém que o acompanhou durante tantos anos, revelava bastante sobre sua personalidade.

Dallin H. Oaks Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Uma fé construída “linha sobre linha”

Os diários também permitiram que Turley observasse de perto a vida espiritual de Oaks. Embora existam experiências espirituais marcantes em sua história, Turley acredita que a fé do presidente da Igreja foi construída principalmente da maneira descrita nas escrituras: “linha sobre linha, preceito sobre preceito”.

Uma dessas experiências aconteceu ainda na infância, o presidente Oaks estava morando na fazenda dos avós quando seu primo pequeno, Sterling Harris, saiu de casa sem que os adultos percebessem. O menino caminhou até um canal de irrigação e caiu na água.

Quando perceberam seu desaparecimento, começaram a procurá-lo. Oaks estava presente quando retiraram do canal o corpo aparentemente sem vida da criança.

Segundo Turley, seu avô então exerceu a autoridade do sacerdócio e ordenou que o menino vivesse. A criança voltou à vida. O presidente Oaks jamais esqueceu aquela experiência.

Mas Turley explica que a maioria das experiências espirituais de sua vida não aconteceu exclusivamente dessa maneira:

“Há momentos em nossa vida em que podemos ter experiências espirituais muito dramáticas, e ele teve algumas delas. Mas, para a maioria de nós, inclusive para ele, a espiritualidade se desenvolve linha sobre linha, preceito sobre preceito.”

Anos depois, uma dessas experiências aconteceu enquanto Oaks trabalhava em um exigente escritório de advocacia em Chicago. Sua rotina já exigia longas horas de trabalho quando o presidente da estaca o chamou para servir como missionário da estaca. O chamado exigiria várias horas adicionais todas as semanas.

“Confiando apenas em sua mente, ele pensou: ‘Isso é impossível. Não há horas suficientes na semana para que eu consiga fazer as duas coisas’. Mas, em seu coração, percebeu: ‘Este é um chamado que está sendo feito a mim pelo Senhor, por meio do meu presidente de estaca, a quem respeito profundamente. E não posso recusar esse chamado’.”

Ele decidiu aceitar e, segundo Turley, algo então começou a mudar em sua rotina profissional. Ele passou a encontrar informações e preparar memorandos jurídicos mais rapidamente do que conseguia antes, abrindo espaço para cumprir suas responsabilidades missionárias.

“Ele conseguiu fazer as duas coisas porque aceitou o chamado do Senhor. E esse exercício de fé da parte dele se repete durante toda a sua vida. Ele precisa aceitar algumas coisas pela fé e então seguir em frente. Mas, depois de ter experiências em que as respostas a essa fé a confirmaram, ele simplesmente segue adiante com aquilo que sente que foi orientado a fazer.”

Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Uma característica que pode surpreender: mudar de opinião

A formação de Dallin H. Oaks é marcada pelo Direito e pela vida acadêmica. Ele foi professor da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, presidente da BYU e juiz da Suprema Corte de Utah antes de ser chamado para o Quórum dos Doze Apóstolos.

Essa trajetória poderia transmitir a imagem de alguém extremamente seguro de suas próprias conclusões e pouco disposto a abandoná-las, mas Turley descreve algo diferente.

“Ele é uma das pessoas mais humildes que já conheci. Conheci muitas pessoas muito inteligentes em minha vida, nos diferentes cargos que tive. E algumas dessas pessoas inteligentes, quando você entra na sala, fazem questão de deixar claro que são a pessoa mais inteligente ali. E, se você questiona isso de alguma maneira, elas partem para cima de você e defendem sua posição até a morte.”

Segundo Turley, Oaks é “exatamente o oposto”.

Essa característica podia ser observada até dentro de casa.

“Ele escuta cuidadosamente a todos. Seus filhos me disseram que, à mesa de jantar, não importava quão velho ou jovem você fosse: esperava-se que participasse das conversas familiares, e suas opiniões eram respeitadas por todos à mesa, inclusive pelo presidente Oaks. Ele poderia corrigi-los ou dizer que aquilo que estavam pensando estava completamente errado, mas ele escutava e valorizava o que tinham a dizer.”

Turley ouviu relatos semelhantes de pessoas que serviram com Oaks no Quórum dos Doze e na Primeira Presidência.

“O presidente Eyring me disse que houve momentos em que dizia algo contrário ao que ele havia dito, e ele ouvia cuidadosamente. E, se acreditasse que eu tinha a melhor ideia, agradecia por aquilo e mudava de opinião. Acho que ele é um exemplo perfeito de como todos nós devemos continuar crescendo e aprendendo, sem nos tornarmos rígidos em nossas opiniões, mas amadurecendo à medida que envelhecemos.”

Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Por que algumas pessoas enxergam Oaks de maneira tão diferente?

Talvez nenhum aspecto do ministério de Dallin H. Oaks provoque tantas opiniões diferentes quanto sua maneira de tratar questões sociais.

Seus ensinamentos sobre casamento, família e sexualidade fizeram com que algumas pessoas o enxergassem como excessivamente rígido ou até insensível, especialmente em questões relacionadas à comunidade LGBTQ.

Turley reconhece que existe uma razão para essa percepção, mas acredita que ela também pode produzir uma imagem incompleta do homem que ele conhece. Quando perguntado se Oaks é mal compreendido, sua resposta foi:

“Vou dizer duas coisas: sim e não. Vou começar pelo não. Ficou muito claro para mim, nesses quarenta anos de convivência com o presidente Oaks, que, quando ele tem uma forte impressão de que precisa fazer alguma coisa, ele vai fazê-la independentemente das críticas que possa receber. Ele é absolutamente corajoso nesse sentido. Nunca vi alguém pensar menos nas consequências sociais quando sente que está fazendo a coisa certa.”

Nesse aspecto, portanto, a imagem pública de alguém firme em suas convicções não estaria necessariamente errada. Mas Turley acredita que existe outra parte da personalidade do profeta que nem sempre recebe a mesma atenção.

“Por outro lado, acho que ele é mal compreendido e transformado em uma figura bidimensional, como acontece muitas vezes. As pessoas acabam sendo caricaturadas, e acho que ele foi caricaturado. Acho que seu desejo de ter um mundo em que pessoas de diferentes origens e posições possam viver harmoniosamente juntas é muito forte em sua vida.”

Turley também descreve um lado emocional que, segundo ele, aparece com mais facilidade longe do púlpito.

“Ele tem esse lado de sua personalidade que as pessoas muitas vezes não veem no púlpito. […] Ele é uma pessoa muito sensível, que tem emoções fortes e, em particular, expressa essas emoções. Eu realmente acredito que ele sente um grande amor por todas as pessoas.”

Para Turley, essas características não são contraditórias. Oaks pode sentir amor pelas pessoas e, ao mesmo tempo, acreditar que precisa defender aquilo que considera correto, mesmo quando isso provoca críticas.

Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Conviver em um mundo de profundas diferenças

Essa combinação também ajuda a compreender um tema que Turley acredita que continuará tendo importância: a pacificação.

Ele recordou um discurso de Oaks na Universidade da Virgínia no qual o então apóstolo falou sobre o desafio de viver em uma sociedade pluralista.

“Ele falou sobre nossa necessidade de viver juntos em um mundo pluralista e sobre como aqueles que procuram alcançar novamente uma vitória total sobre pessoas que discordam deles em questões como as relacionadas às pessoas LGBTQ precisam recuar e aprender a coexistir em um mundo pluralista. Eu recomendo esse discurso a todos.”

A ideia de aprender a conviver com diferenças profundas também se conecta a um princípio enfatizado repetidamente pelo presidente Russell M. Nelson: tornar-se um pacificador.

Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

A influência das mulheres na vida de Dallin H. Oaks

Outro aspecto que aparece com força na biografia é a influência das mulheres na trajetória de Oaks.

Sua primeira esposa, June Dixon Oaks, é descrita por Turley como uma mulher extraordinariamente forte. Enquanto o marido enfrentava as exigências da faculdade de Direito, da carreira acadêmica e posteriormente de outras responsabilidades, June assumiu grande parte das necessidades práticas da família.

“Ela era uma pessoa poderosa por mérito próprio. Era forte. Ele conseguiu fazer o que fez porque ela compensava aquilo que ele não conseguia fazer em casa. Ela fazia reformas, cuidava dos projetos da casa, levava os filhos aos lugares, ajudava-os nos estudos. Ela fazia todas aquelas coisas que poderiam ter sido feitas por ele, exceto pelo fato de que ele não estava em casa naquele momento. E fazia isso voluntariamente e sem ressentimento.”

Depois da morte de June, Oaks conheceu Kristen McMain. Turley também a descreve como uma mulher extremamente preparada e independente, com doutorado e experiência profissional no mundo editorial.

“Duas mulheres extraordinárias, duas mulheres muito talentosas, duas mulheres muito fortes. E elas trabalharam bem com ele, em igualdade de responsabilidades.”

Mas a influência feminina começou muito antes de seus casamentos. O presidente Oaks perdeu o pai ainda criança e foi criado por uma mãe que precisou trabalhar para sustentar a família.

Anos depois, quando presidiu a BYU, incentivou especialmente as mulheres a levarem a própria educação a sério. Na época, existia a ideia de que algumas jovens frequentavam a universidade principalmente para encontrar um marido. Ele se posicionou contra essa maneira de enxergar a educação feminina.

“Vocês estão aqui para receber uma educação e devem aproveitar essa experiência. Vocês não sabem se irão se casar. Não sabem, se casarem, se perderão o cônjuge por morte, divórcio ou algum outro motivo. E não sabem se precisarão trabalhar em algum momento, mesmo sendo casadas. Portanto, recebam uma boa educação e aprendam a sustentar a si mesmas.”

Para Turley, não se trata de um interesse recente. Ao mencionar declarações do profeta sobre a necessidade de utilizar melhor as capacidades das mulheres dentro da Igreja, ele evitou especular sobre quais decisões poderiam surgir no futuro, mas fez uma observação significativa:

“Certamente tem sido um tema de sua vida.”

Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Continuidade, e não uma mudança radical

Dallin H. Oaks e Russell M. Nelson foram chamados para o Quórum dos Doze Apóstolos no mesmo dia. Embora Oaks tenha sido ordenado algumas semanas depois devido às responsabilidades que ainda precisava concluir na Suprema Corte de Utah, os dois passaram décadas servindo lado a lado.

Mais tarde, Oaks tornou-se conselheiro de Nelson na Primeira Presidência. Por isso, Turley lembra que muitas decisões e ênfases da presidência de Nelson foram construídas em conselho.

“Quando ele serviu como conselheiro na Primeira Presidência do presidente Nelson — e ele se sentou ao lado do presidente Nelson por décadas no Quórum dos Doze — os dois consultavam um ao outro e chegavam a um entendimento comum. Portanto, muitas das coisas que vocês viram refletidas pelo presidente Nelson eram resultado do pensamento conjunto dele e de seus conselheiros.”

“Não acho que o presidente Oaks veja necessidade de uma mudança radical e repentina. Acho que ele vê uma continuação, um amadurecimento e um refinamento.”

Uma das áreas em que ele acredita que essa continuidade poderá ficar especialmente evidente é justamente a pacificação.

“Acho que, por causa de sua formação e experiência únicas, veremos uma ênfase na pacificação, algo que começou com o presidente Nelson e seus predecessores. Acho que ele continuará falando sobre isso nesta época em que muitas pessoas estão tentando desenvolver um sentimento de animosidade em relação às outras. Acho que ele vai pregar a paz.”

Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

“Ele orava todos os dias para que o presidente Nelson vivesse mais do que ele”

Talvez um dos detalhes mais pessoais revelados por Turley seja também um dos que melhor ajudam a compreender como ele enxergava seu lugar na Igreja.

Depois de décadas servindo ao lado de Russell M. Nelson, a possibilidade de um dia sucedê-lo naturalmente existia. Mas, segundo Turley, não era algo que Oaks desejava que acontecesse.

Ao falar sobre como ele enfrentou a morte do presidente Nelson e a responsabilidade que veio depois, Turley contou:

“Ele ficou triste. Costumava me dizer que orava todos os dias para que o presidente Nelson vivesse mais do que ele. Então, ele apoiava e sustentava o homem que estava à sua frente. Ao mesmo tempo, reconhece que sua vida está nas mãos do Senhor e está disposto a aceitar qualquer responsabilidade que o Senhor lhe dê, inclusive esta.”

Para Turley, essa postura não começou agora. Quando o élder Oaks recebeu o chamado para o Quórum dos Doze Apóstolos, ficou profundamente surpreso. Ainda assim, aceitou aquilo que acreditava ser a vontade do Senhor.

Décadas depois, diante de uma responsabilidade ainda maior, seu biógrafo acredita que a disposição continua sendo a mesma.

“Essa era sua atitude quando foi chamado para os Doze. Ele ficou profundamente surpreso com o chamado. E essa é sua atitude agora que é o presidente da Igreja: ele está disposto a fazer tudo o que o Senhor quiser que ele faça.”

Talvez essa última frase ajude a conectar muitas das características que Turley observou ao longo de aproximadamente quarenta anos: a firmeza que algumas vezes provoca críticas, a disposição de mudar de opinião quando acredita estar errado, a fé para aceitar responsabilidades que inicialmente parecem impossíveis e a convicção de que sua vida pertence ao Senhor.

Para quem conhece Dallin H. Oaks principalmente pelo púlpito, o relato de seu biógrafo não apresenta necessariamente uma pessoa diferente. Na verdade, esse é justamente o ponto de Turley.

O homem que existe longe do púlpito é essencialmente o mesmo, apenas mais próximo, mais expansivo e, talvez, mais fácil de compreender.

Fonte: Keystone

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