É de conhecimento geral que centenas de líderes políticos, religiosos e civis visitam todos os anos Salt Lake City, onde se encontra a sede da Igreja Mórmon, ou Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Poucos sabem, porém, que esse padrão começou há muito tempo.
Dom Pedro II foi o segundo e último Imperador do Brasil. Ele se tornou imperador muito jovem. Um homem culto e muito elogiado, viajou o mundo. Em 1876, Dom Pedro II viajou para os Estados Unidos para participar na celebração do centenário americano (a primeira escala de sua viagem, que duraria dois anos). Naquela época não havia mórmons no Brasil, mas ele incluiu na sua viagem uma visita a “capital mórmon”.

 

Viagem do Imperador aos EUA

Ullysses Grant, presidente dos Estados Unidos, e Dom Pedro II

Em 15 de abril de 1876, d. Pedro II e sua comitiva desembarcaram em Nova Iorque e, a partir daí, o imperador seguiu rigorosamente o projeto elaborado para a viagem que durou quase três meses. D. Pedro II narrou, minuciosamente, os lugares por onde passou, totalizando vinte e oito estados/territórios e a capital – Washington-DC (…), [visitou] escolas, bibliotecas, museus e instituições públicas. Foi convidado pelo presidente Ullysses Grant para presidir a inauguração da Exposição Universal da Filadélfia, a quem retribuiu, oferecendo-lhe um hino em homenagem ao centenário da Independência dos Estados Unidos composto pelo maestro Antônio Carlos Gomes. [1]

O Imperador quis conhecer o país de perto, o que fez viajando de trem de Nova York e a São Francisco. O trajeto não incluía Salt Lake City, a capital do Estado , entretanto, Dom Pedro II desejou conhecer a “capital mórmon”, e fez um esforço adicional para chegar ao local.

Dom Pedro II em Salt Lake City

O visitante real chegou à Salt Lake City no sábado, 22 de abril, às 20 horas, e foi imediatamente ao
teatro Salt Lake, onde presenciou um programa do humorista Alfred Burnett. Seu camarote estava ornamentado com os pavilhões dos E.U.A. e do Brasil, e a orquestra entoou o Hino Nacional Brasileiro.
No dia seguinte, visitou a Praça do Templo, onde ouviu o famoso órgão do tabernáculo – e ficou maravilhado.
Depois, Dom Pedro II pode “observar com muito interesse” os alicerces do Templo de Salt Lake, em construção desde 1853. Ao caminhar pela Praça do Templo, o Imperador fez inúmeras perguntas “relativas à fé religiosa e práticas dos Santos dos Últimos Dias. Pela natureza de suas perguntas e observações, Dom Pedro II demonstrou interesse à história da Igreja.”.
Também visitou a “ Savage Art Gallery ”, e lá comprou fotografias de Utah; assistiu à missa na igreja de Santa Maria Madalena.
Após isso, foi assistir uma reunião sacramental da Igreja na ala da cidade. O discursante principal foi o Apóstolo John Taylor.

Reunião Sacramental

Capela da Ala Salt Lake 14, para assistir a uma Reunião Sacramental. Ao chegar, foi-lhe oferecido um lugar ao púlpito, junto aos líderes do sacerdócio presentes. O Imperador preferiu sentar- se com a congregação, em um local de onde “tinha excelente golpe de vista de toda a cerimônia”.
“A Reunião Sacramental foi iniciada com os jovens da Ala cantando o Hino 53, enquanto “uma jovem senhora fazia o acompanhamento com belo efeito num harmônio”. A oração de abertura foi oferecida pelo Bispo Thomas Taylor. Após a bênção e distribuição do Sacramento, o Elder John Taylor, então membro do Quórum dos Doze, fez um discurso sobre “os primeiros princípios do Evangelho”, na qual o Imperador “ouviu com grande atenção”, e também ensinou “que a influência direta da divindade é tão necessária hoje como no tempo dos Profetas”. [2]
Pouco depois, tomou o trem de regresso a Ogden e continuou sua viagem para a Califórnia.

O que Dom Pedro II achou nos mórmons

Dom Pedro II manifestou suas impressões de Utah e dos habitantes posteriormente: admirara a grande obra dos mórmons e seu progresso no vale, mas, quanto à doutrina da Igreja, não entendia como o povo podia acreditar nas revelações de Joseph Smith e Brigham Young. Concluiu, profetizando, que a religião duraria pouco tempo. Antes de partir de Salt Lake City, doou mil dólares à missão católica em Utah.

Dom Pedro II jurara fidelidade à Igreja Católica porque assim o exigia a Constituição Imperial de 1824, em seu Artigo 103.

Entretanto, admirara a grande obra realizada pelos membros da Igreja em meio ao deserto, seu progresso no vale, e o preparo da terra para o plantio. Ele declarou: “Os mórmons realizaram árduo labor, preparando esta terra para as culturas, impelidos (…) pelo entusiasmo religioso” [3]

Repercussão na Imprensa

As imprensas norte-americana e brasileira tiveram representantes que acompanharam Dom Pedro durante toda sua estada nos Estados Unidos. O jornal mais importante era o New York Herald, que fez cobertura da viagem, começando desde o Brasil, tendo, para isso enviado o jornalista James J. O’Kelly. Os artigos de O’Kelly, publicados quase diariamente, foram colecionados e transcritos em língua portuguesa por Argeu Guimarães, sob o título Dom Pedro II nos Estados Unidos (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1961).
A viagem de Dom Pedro a Utah é também assunto em um artigo escrito por David L. Wood, publicado na Utah Historical Quarterly, volume 37, número 3 de 1969, pp. 337-352.
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Notas

Um artigo contando sobre a viagem do imperador Dom Pedro II foi também disponibilizado na revista A Liahona de março de 19771, p. 37.

[1] http://www.museuimperial.gov.br/diario-d-pedro-ii/5393-di%C3%A1rio-da-viagem-de-d-pedro-ii-aos-estados-unidos.html

[2] Marcio Roberto Patelli, “História da Igreja no Brasil – 139 anos da visita de Dom Pedro II a Salt Lake City“, Notícias SUD Brasil”

[3] Idem a nota anterior