Mal completara seis meses de existência, e a Igreja de Jesus Cristo já enviava seus primeiros missionários para uma jornada de mais de 2.400 km a pé.
Em setembro de 1830, em Fayette, Nova York, o profeta Joseph Smith recebeu uma revelação chamando Oliver Cowdery para pregar aos lamanitas, como os nativos americanos eram chamados na época — nas fronteiras a oeste do Missouri (ver D&C 28:8).
Revelações posteriores acrescentaram três companheiros à missão: Peter Whitmer Jr., Parley P. Pratt e Ziba Peterson (ver D&C 30:5; 32:1–3).
O chamado veio poucos meses depois de o governo americano assinar a Lei de Remoção Indígena, que previa deslocar os povos nativos para além do Missouri, na região que hoje corresponde ao Kansas e a Oklahoma.
Por isso, fazia sentido que o destino final dos missionários fosse justamente essa nova fronteira. Eles pregaram a quem encontraram pelo caminho, mas o objetivo principal sempre foi alcançar aquilo que o próprio Joseph Smith chamou de “as fronteiras dos lamanitas”.
De Nova York a Ohio: os primeiros contatos e uma colheita inesperada
A viagem começou em outubro de 1830. Depois de pregar por algumas horas a uma tribo amigável na Reserva Cattaraugus, perto de Buffalo, e deixar dois exemplares do Livro de Mórmon com eles, os missionários seguiram para Ohio.
Foi ali que a missão ganhou um rumo inesperado. Em Kirtland, região onde Parley P. Pratt havia morado anos antes, ele procurou o amigo Sidney Rigdon, pastor de uma congregação batista reformada, e lhe deu um exemplar do Livro de Mórmon.
Rigdon autorizou os missionários a pregar à sua congregação, e a notícia se espalhou rápido pela comunidade. Pratt descreveria depois que “as pessoas nos cercavam dia e noite”, entre curiosos, interessados e opositores.
Em cerca de três semanas, os élderes batizaram 127 pessoas, incluindo o próprio Rigdon, um número que, segundo alguns historiadores, pode ter chegado a dobrar o total de membros da Igreja até então. Vários desses novos conversos, como Rigdon e Frederick G. Williams (que se juntou ao grupo e seguiu viagem com eles), se tornariam líderes proeminentes da Igreja.

O inverno que mudou a rota: os primeiros santos dos últimos dias em Illinois
De Ohio, os missionários seguiram para os índios wyandot, perto de Sandusky, e depois para Cincinnati, de onde pretendiam pegar um vapor até St. Louis, Missouri, sem passar por Illinois. O plano mudou quando o rio Ohio começou a congelar. Os missionários desembarcaram na foz do rio Ohio, e, sem saber, se tornaram os primeiros santos dos últimos dias a pisar em solo de Illinois.
O problema é que essa etapa da viagem coincidiu com um dos invernos mais rigorosos já registrados no Meio-Oeste americano, conhecido até hoje como o “Inverno da Neve Profunda”.
Relatos de moradores da região descrevem neve tão alta que formava uma crosta capaz de sustentar o peso de um homem, e histórias de colonos que quase não conseguiam voltar para casa em meio à nevasca. Um chefe potawatomi chamado Senogewone descreveu décadas depois como a neve cobriu até as tocas dos animais, deixando cervos e perus sem conseguir se alimentar.
Foi em meio a esse cenário que os missionários atravessaram a pé cerca de 320 km pelo sudoeste de Illinois. Como nenhum dos quatro deixou um relato detalhado do trajeto, historiadores reconstituem a rota mais provável cruzando os registros de Parley P. Pratt com a antiga estrada de correio estabelecida na região em 1810, praticamente a única via de fato transitável naquele canto do estado, então pouco povoado.
Partindo da foz do rio Ohio, o grupo teria passado primeiro pelo povoado de Trinity (atual Cache) e, dali, seguido para o norte até alcançar a estrada de correio, atravessando pradarias abertas com o rio Cache de um lado e o Mississippi do outro.
O caminho logo entrava em uma região mais acidentada, cortada por formações de arenito e calcário e coberta por uma extensa mata, hoje parte da Floresta Nacional de Shawnee, que ao menos ofereceu aos missionários algum abrigo contra o vento gelado vindo do oeste.
Seguindo a estrada para o norte, eles teriam chegado a Jonesborough, um dos povoados mais estabelecidos da região, com agência de correio desde 1823, provavelmente onde pernoitaram.
De lá, a rota seguia por outros 40 km até Brownsville, perto da atual Gorham, cruzando ravinas profundas e passando perto de Bald Knob, uma das elevações mais altas do sul de Illinois. Brownsville era descrita como uma cidade “crua”, de casas de tora, mas já era um dos maiores povoados do estado na época, com olarias, ferreiros e oficinas de carpintaria.
Dali, o trajeto seguia por Kaskaskia, capital de Illinois até 1820, e por Prairie Du Rocher, onde a estrada de correio deixava as margens do Mississippi e virava para o interior, rumo a Waterloo, passando possivelmente pelo povoado de New Design.
O último grande povoado da rota teria sido Columbia, no condado de Monroe: foi provavelmente ali, a cerca de 30 km de St. Louis, que o grupo passou vários dias parado por causa de uma tempestade de neve e chuva que durou mais de uma semana, deixando até quase um metro de neve em alguns pontos.
O único registro que sobrou desses dias é uma única frase de Parley P. Pratt, contando que, mesmo entre estranhos, foram bem recebidos e pregaram a grandes grupos em várias vizinhanças, sem detalhar, porém, se alguém ali chegou a se converter. Foi nesse povoado, ao que tudo indica, que o evangelho restaurado foi pregado pela primeira vez em solo de Illinois.

A travessia final pelo Missouri
Passados os piores dias da tempestade, ainda não havia como atravessar o Mississippi até St. Louis. Não existe registro exato de quando ou como os missionários finalmente cruzaram o rio, mas sabemos que retomaram a viagem “no início de 1831”, passando por St. Louis e depois por St. Charles, já em solo do Missouri, mais uma vez em meio a frio extremo.
Jornais da época registraram nevascas de mais de um metro de altura naquela região, acompanhadas de trovões e relâmpagos fora do comum.
Pratt descreveu essa etapa como uma caminhada de cerca de 480 km por pradarias sem estradas, com vento cortante e pão congelado que precisava ser mordido pela casca. Ao todo, a expedição somou cerca de 2.400 km até chegar a Independence, no condado de Jackson, na fronteira mais a oeste dos Estados Unidos.
O fim da missão: pregação aos delaware e o retorno ao leste
Ali, enquanto Peter Whitmer Jr. e Ziba Peterson passaram a trabalhar como alfaiates para se sustentar, Oliver Cowdery, Parley P. Pratt e Frederick G. Williams cruzaram a fronteira até o Território Indígena para pregar aos índios delaware.
A recepção foi boa, boa o suficiente para despertar a desconfiança de agentes indígenas e de outros missionários da região, que pressionaram as autoridades a expulsar os “mórmons” do território, sob ameaça de intervenção militar. Foi esse episódio que encerrou, de forma abrupta, a primeira missão da Igreja aos povos nativos.
Os missionários voltaram a Independence, onde permaneceram até a chegada de Joseph Smith, em julho de 1831. Em fevereiro daquele ano, Parley P. Pratt já havia sido designado para retornar ao leste e relatar os resultados da missão.

Um legado maior do que o esperado
Nenhum nativo americano foi batizado ao longo dessa missão, e, à primeira vista, isso poderia soar como um fracasso. Mas o resultado foi quase o oposto do que os quatro missionários haviam imaginado ao partir de Nova York.
Os 127 conversos batizados de passagem por Kirtland podem ter formado, por algum tempo, o maior grupo de santos dos últimos dias já reunido em um só lugar, e ajudaram a transformar aquela pequena cidade de Ohio em um dos primeiros grandes centros da Igreja.
Há algo de simbólico nisso: os missionários saíram em busca de um povo específico e, no caminho, encontraram outro.
A tempestade que os empurrou para dentro de Illinois, o frio que quase os venceu no Missouri, a porta fechada entre os delaware, nada disso parecia, no momento, caminhar na direção certa.
Só o tempo revelaria que aquela rota improvisada pelo inverno mais duro do século ajudaria a erguer dois dos grandes alicerces da Igreja em seus primeiros anos, Kirtland e Independence, e abriria, sem que ninguém percebesse na hora, o caminho que faria de Illinois uma passagem obrigatória para os santos dos últimos dias na década seguinte.
Fonte: BYU Religious Studies Center
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