O texto do Salmo 19 não separa três coisas que normalmente tratamos como assuntos distintos: a criação, a lei divina e a busca pelo templo. O salmo trata todas elas como uma única “voz”, e o desafio de uma vida de fé é aprender a escutar essa voz até conseguir responder a ela.

Ele começa afirmando algo direto: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Salmos 19:1). Mas o verso seguinte guarda uma ambiguidade interessante no hebraico original, que o artigo explora com cuidado: a palavra traduzida como “linha” ou “fio” (qav) pode significar tanto uma corda de medir, usada por um construtor para traçar uma fundação, quanto a corda esticada de um instrumento musical.

Por isso, a tradução grega antiga (Septuaginta) e o apóstolo Paulo, ao citar esse verso em Romanos 10:18, entenderam a palavra como “voz” ou “som”, enquanto o hebraico preservado sugere “linha” de medição.

Essa ambiguidade não é um erro a ser resolvido, mas revela algo profundo: medir o universo e ouvi-lo não são, no pensamento hebraico antigo, duas atividades diferentes, são a mesma coisa vista de dois ângulos. A mesma corda que serve para traçar uma fundação também pode ser esticada para produzir uma nota musical.

Livro de Salmos

Uma lei que não restringe, mas sustenta a existência

O salmo passa então da criação para a lei de Deus: “A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma” (Salmos 19:7). Muitos leitores modernos sentem essa mudança de assunto como uma quebra brusca no poema — como se o salmista tivesse trocado de tema no meio do texto.

Essa estranheza é nossa, não do texto original: estamos acostumados a pensar em leis como restrições impostas depois que algo já existe (como um código de trânsito). Já a lei, no sentido bíblico, é o que torna possível que algo exista e se mova de forma ordenada, o sol e as estrelas “guardam” suas leis com alegria, e é justamente por segui-las que continuam existindo.

Essa mesma ideia aparece em Doutrina e Convênios 88:42–47, quando o Senhor descreve os céus, o sol, a lua e as estrelas se movendo conforme leis que Ele mesmo estabeleceu, e conclui que quem já viu qualquer uma dessas coisas obedecendo às suas leis já viu, de certa forma, “Deus movendo-se em sua majestade e poder”. Néfi, por meio de seu pai Leí, vai ainda mais longe, ao ensinar que, sem lei e sem oposição, a própria criação teria desmoronado em um estado sem ação nem propósito (2 Néfi 2:11–13).

Um dos pontos mais concretos é a história de como o presidente Russell M. Nelson, ainda como jovem médico, foi motivado por esse mesmo princípio a pesquisar as leis que regem o coração humano, numa época em que a cirurgia cardíaca a céu aberto ainda não existia e se acreditava que um coração parava de bater assim que era tocado.

Duas passagens de escritura o levaram a essa busca: a promessa de que “todas as bênçãos são baseadas em leis” e de que “a todo reino foi dada uma lei” (D&C 130:21; D&C 88:38). Se havia uma lei para cada reino, raciocinou ele, deveria existir também uma lei que governasse o batimento cardíaco, e ele passou anos procurando por ela, até ajudar a descobrir como ajustar o equilíbrio de sódio e potássio no sangue para parar e reiniciar o coração de forma segura durante uma cirurgia.

E as “notas erradas”?

Se a criação inteira segue leis tão precisas, o que dizer do pecado e da escolha errada?

O élder Dallin H. Oaks, então membro do Quórum dos Doze Apóstolos ensinou que o adversário, ao tentar arruinar o plano do Pai, na verdade colaborou com ele, “pois é a oposição que torna possível a escolha”. Isso significa que até as “notas dissonantes” da vida, o mau uso do arbítrio, acabam fazendo parte, de um jeito ou de outro, de uma composição maior que Deus continuará regendo.

O salmo termina com um pedido de purificação: “Quem pode entender os seus erros? Purifica-me tu dos que me são ocultos” (Salmos 19:12).

Esse pedido pode ser conectado a outro salmo, o 24, que pergunta quem pode subir ao monte do Senhor e “estar no seu lugar santo”, respondendo: “aquele que tem mãos limpas e coração puro” (Salmos 24:3–4). E o Salmo 27 revela o que realmente motivava esse desejo de entrar no templo: não o cumprimento de uma obrigação, mas o desejo genuíno de “contemplar a formosura do Senhor” (Salmos 27:4).

Uma voz que finalmente encontra resposta

O salmo termina com um pedido pessoal: “Sejam agradáveis as palavras da minha boca, e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, rocha minha e redentor meu” (Salmos 19:14).

Isso é um fechamento significativo: o salmo começa dizendo que os céus proclamam a glória de Deus mesmo “sem fala, sem linguagem”, sem que sua voz seja ouvida (Salmos 19:3), eles comunicam só por existirem. E termina com uma pessoa pedindo, agora sim com palavras, para que a sua própria voz seja digna de ser ouvida.

É quase como se toda a imensidão dos céus existisse, entre outras razões, para formar alguém capaz de responder a ela. A mesma ideia aparece séculos depois, na revelação dada por meio de Joseph Smith à sua esposa Emma, ao reunir os primeiros hinos da Igreja: “minha alma se deleita no cântico do coração; sim, o cântico dos justos é uma oração para mim” (D&C 25:12).

Fonte: Meridian Magazine

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