É uma das perguntas mais debatidas, e menos respondidas oficialmente, entre os Santos dos Últimos Dias: depois de sermos designados para um dos reinos de glória, é possível progredir para um reino superior? A Igreja não tem uma posição oficial sobre isso, o que deixa espaço para interpretações bem diferentes entre os próprios membros e líderes ao longo da história.

Vamos reunir o que as escrituras e os líderes já disseram sobre o tema, e também o que, até hoje, permanece em aberto.

Os três reinos de glória

A base de toda essa discussão está em Doutrina e Convênios 76, a visão em que Joseph Smith e Sidney Rigdon descreveram três reinos de glória que aguardam a maioria das pessoas depois da ressurreição: o celestial, o terrestre e o telestial. Cada um deles é descrito como uma glória real e distinta, nenhum dos três é tratado como um castigo ou punição; são graus diferentes de recompensa, de acordo com o tipo de vida e os convênios vividos por cada pessoa.

O mesmo capítulo também descreve algo interessante: aqueles que herdam o reino telestial são “ministrados” por servos designados para isso (D&C 76:86–88), e o reino terrestre recebe ministração de quem está no reino celestial (D&C 76:81). É justamente esse detalhe que alimenta boa parte do debate: se a ministração entre reinos continua depois da ressurreição, ela teria algum propósito além de uma simples visita social?

progressão entre reinos de glória

O que a Igreja diz oficialmente

A resposta curta é: não há uma declaração oficial e definitiva. A literatura atual da Igreja evita entrar no mérito de progressão entre reinos, preferindo enfatizar que o progresso eterno pleno está reservado a quem alcança a exaltação no reino celestial. Diferentes líderes da Igreja, ao longo do tempo, já se posicionaram de formas distintas sobre o tema, o que por si só é um sinal de que a questão nunca foi resolvida por revelação pública.

Vale lembrar como uma doutrina passa a ser oficialmente reconhecida pela Igreja: segundo a própria Sala de Imprensa, isso exige que a Primeira Presidência e o Quórum dos Doze Apóstolos se aconselhem juntos e cheguem a um consenso, proclamado depois de forma consistente em publicações oficiais, não basta a opinião pessoal de um único líder em um discurso, carta ou diário. Por isso, declarações de líderes do passado sobre esse tema, por mais respeitadas que sejam, devem ser entendidas como reflexões pessoais, e não necessariamente como doutrina estabelecida da Igreja.

O argumento mais firme contra: as “sete heresias mortais”

O posicionamento mais conhecido contra a ideia de progressão entre reinos veio do élder Bruce R. McConkie, do Quórum dos Doze Apóstolos, em um discurso de 1980 na Universidade Brigham Young que ficou conhecido como “As Sete Heresias Mortais”.

Nele, McConkie listou a crença de que existiria progressão de um reino de glória para outro como um dos ensinamentos que considerava incorretos, afirmando:

“Eles não progridem de um reino para outro, nem um reino inferior chega algum dia aonde um reino superior já esteve. Qualquer progressão eterna que exista acontece dentro de uma mesma esfera.”

O discurso gerou bastante repercussão na época, a ponto de sua versão publicada ter sido revisada após conversas com a Primeira Presidência. Até hoje, ele costuma ser citado como o principal contraponto a quem defende a possibilidade de progressão.

progressão entre reinos de glória

Pistas na direção contrária: o que a punição “eterna” realmente significa

Por outro lado, há quem recorra a Doutrina e Convênios 19:10-12 para argumentar o oposto. Nessa revelação, o Senhor explica que expressões como “punição eterna” e “castigo sem fim” não significam necessariamente um castigo que nunca termina, mas sim “a punição de Deus”, já que “Eterno” e “Sem Fim” são nomes que descrevem a Ele mesmo, e não necessariamente a duração literal da punição.

Para quem defende a esperança de progressão, essa passagem sugere que os termos mais duros usados nas escrituras sobre julgamento podem ser menos absolutos do que parecem à primeira leitura.

Outro texto citado nesse debate é Alma 12:14, que descreve a vergonha de quem chega ao juízo final sem ter se arrependido, a ponto de preferir “que as rochas e as montanhas” caíssem sobre essa pessoa a enfrentar a presença de Deus naquele estado.

Esse tipo de linguagem reforça a ideia de que a vergonha e a culpa por pecados não resolvidos, e não necessariamente uma sentença fixa e definitiva logo após a morte, seriam o verdadeiro obstáculo para se sentir em casa na presença de Deus.

Um tema que a Igreja deixou em aberto de propósito

Vale lembrar que nenhum dos reinos de glória é descrito nas escrituras como um lugar de punição, todos são chamados de reinos de glória, cada um deles descrito como algo além da compreensão humana. Isso torna a pergunta sobre progressão menos sobre “escapar” de um reino inferior, e mais sobre entender até onde vai o alcance da Expiação de Jesus Cristo e da justiça de Deus.

Assim como acontece com outros temas ainda não totalmente esclarecidos por revelação, a orientação mais comum entre os líderes da Igreja tem sido a de não tirar conclusões definitivas. O próprio presidente Dallin H. Oaks reconheceu isso de forma direta no discurso “Reinos de Glória”, na conferência geral de outubro de 2023:

“Há muito que não sabemos sobre os três maiores períodos do plano de salvação e sua relação uns com os outros: (1) o mundo espiritual pré-mortal, (2) a mortalidade e (3) a próxima vida. Entretanto, sabemos estas verdades eternas: “A salvação é um assunto individual, mas a exaltação é um assunto de família”.”

Ou seja: não usar a esperança de uma segunda chance depois desta vida como motivo para adiar decisões espirituais importantes no presente. Como ensinam as Regras de Fé, a Igreja “Cremos em tudo o que Deus revelou, em tudo o que Ele revela agora, e cremos que Ele ainda revelará muitas coisas grandiosas e importantes relativas ao Reino de Deus.”, e esse parece ser exatamente um desses temas.

Veja também