O valor do véu

Existem certas coisas sobre nós mesmos, sobre a divindade
que só podemos aprender desenvolvendo sozinho certas aptidões.

Élder Bruce C. Hafen
Do Quorum dos Setenta
Originalmente publicado em A Liahona, dez de 1991.

Por que teria Deus decidido colocar um véu entre o mundo da mortalidade e o mundo das eternidades? Isso pode parecer desconcertante. O véu não só nos impede de lembrar de nosso passado pré-mortal, mas também mantém Deus, seus anjos e suas atividades ocultos de nossa vista.

Depois da ressurreição, o Salvador encontrou dois de seus discípulos no caminho de Emaús. Eles não o reconheceram, quando ele lhes dirigiu a palavra. Ao lhe falarem sobre Jesus de Nazaré, em que haviam “esperado” (notai o passado do verbo), tornou-se-lhe evidente que eles não haviam captado a mensagem de seu ministério mortal. Disse-lhes então: “Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo que os profetas disseram.”

E então, “começando por Moisés…, explicava-lhes o que dele se achava em todas as escrituras”. (Lucas 24:13-31).

Ele não lhes revelou quem era. Ensinou-lhes as mesmas escrituras que havia usado para ministrar-lhes enquanto estava na carne. Só mais tarde eles o reconheceram.

Por que ele não se identificou antes? Poderia ter revelado sua ressurreição muito mais claramente, com muito mais rapidez.

Em outra passagem de Lucas, lemos a parábola do mendigo Lázaro e o rico, que morreram mais ou menos ao mesmo tempo. O que o homem rico compreendeu do outro lado do véu, fez com que rogasse ao pai Abraão que enviasse Lázaro de volta para pregar arrependimento à sua família, que permanecia na mortalidade. Abraão, porém, respondeu: “Têm Moisés e o profetas; ouçam-nos. E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dos mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam. Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite.” (Lucas 16:29-31)

Por que não?

Lemos, no primeiro capítulo do livro de João, a respeito do Verbo, que era vida e a luz do mundo, uma luz que “resplandece nas trevas e as trevas não a compreendem” (João 1:5). Cristo veio ao mundo, mas este não o conheceu, e seu próprio povo não o recebeu. Por que o Senhor não se revelou mais obviamente? Ele veio tão silenciosamente!

Se é tão importante que o conheçamos hoje, por que o Senhor não envia uma grande carruagem atravessando o céu todos os dias, ao meio dia, puxada por cavalos brancos voadores? A carruagem poderia parar logo acima da terra e então uma voz do além dizer: “E agora, uma palavra do nosso Criador.”

Por que ele não quis fazer as coisas desse modo?

Considerem também a parábola do filho pródigo. Um jovem procurou o pai e pediu sua herança. Então, depois de recebê-la, foi embora e aprendeu algumas lições importantes por meio de tristes experiências. (Lucas 15:11-32). O pai deveria saber que tipo de problemas o rapaz enfrentaria. Não haveria algum meio de o pai ter-lhe ensinado o que ele iria encontrar sem correr o risco de perdê-lo?

Certamente, isto deve ter ocorrido ao nosso Pai na existência pré-mortal, quando considerou o plano do livre arbítrio na mortalidade. Amando seus filhos como ele ama, por que iria correr o risco de que muitos não voltassem? Não tinha ele o poder de nos tocar de alguma forma milagrosa, que evitasse esse risco e nos dotasse a todos da capacidade de viver com ele no reino celestial?

Um versículo do livro de Hebreus esclarece que o próprio Salvador teve que aprender muitas lições, na vida, da maneira mais difícil: por meio da experiência. Ele…

oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte (…). Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu.E, sendo ele consumado, veio ser a causa de eterna salvação para todos os que lhe obedecem”. (Hebreus 5:7-9).

Seguem-se então aquelas linhas significativas, nas quais Paulo fala sobre a necessidade de nos dar apenas o conhecimento que podemos assimilar:

Vos haveis feito tais que necessitais de leite e não de sólido mantimento. Porque qualquer que ainda se alimente de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino. Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” (Hebreus 5:12-14; grifo nosso).

Por que não forçar as pessoas a serem dignas? Por que a experiência é tão essencial, que vale o risco de impossibilitar nossa volta? Por que é que nós, que estamos acostumados ao leite, precisamos “em razão do costume” exercitar nossos sentidos, para nos tornarmos preparados para o alimento sólido?

A salvação é um processo, assim como uma meta. O processo envolve crescimento, desenvolvimento e transformação de nossa parte – além da graça salvadora do Senhor Jesus Cristo. Assim, temos que, na mortalidade, adquirir capacidade e aptidões, não meramente coletar informações. Quando as pessoas são forçadas a serem dignas algo interfere no processo que permite a retidão em um ambiente livre e até bloqueia tal processo. O viver digno transforma as pessoas.

APRENDER APTIDOES DIVINAS

Há dois tipos diferentes de conhecimento. Um deles envolve processos racionais, como de coletar informações e decorar.

O outro tipo de conhecimento, eu chamaria de desenvolvimento de aptidões – aprender a tocar piano ou a nadar, ou a desmontar o motor de um carro, aprender a cantar, dançar ou pensar.

O processo de desenvolvimento de uma personalidade cristã é mais uma questão de adquirir aptidões e atributos divinos, do que uma questão de aprender coisas e números. E nos é impossível aprender essas habilidades divinas, a menos que participemos do processo. Não deveríamos esperar que fosse de outra forma. Que professor de piano poderia ensinar as pessoas a tocar, se elas não quisessem estudar? Que treinador poderia aperfeiçoar a técnica de uma atleta, sem supervisionar suas tentativas e erros, durante inumeráveis treinamentos?

Imaginem uma escola de música com um método revolucionário em que os alunos de piano não tivessem que tocar. A escola ensinaria de maneira exclusivamente teórica todos os princípios básicos; descreveria detalhadamente como mover os dedos; examinaria profundamente a teoria e a história da música; ensinaria completamente como ler música. Os alunos decorariam todos os melhores livros que já foram escritos sobre como tocar piano. O curso poderá ter a duração de quatro anos. Os alunos teriam um projeto cada um, como o de decorar a partitura de um importante concerto de piano. Eles poderiam fechar os olhos e ver o manuscrito, tanto do piano como da orquestra, brotarem em sua mente. Poderiam dizer tudo a respeito dele.

Então, quando o primeiro formado do “Curso Aprenda Piano Sem Tocar” pisasse num palco de teatro, para estrear com orquestra, o que achais que aconteceria? Não muito. Por quê?

Embora “pensar” seja um elemento essencial em qualquer forma de aprendizado, algumas coisas só podem ser aprendidas por meio da prática.

SUBMETER AO MESTRE

Em um importante livro sobre filosofia do conhecimento, um erudito chamado Michael Polanyi identifica a aquisição de aptidões como um campo incomparável do conhecimento. Polanyi crê que só podemos aprender uma técnica imitando a execução habilidosa de alguém que a tenha dominado – embora o professor que imitamos não possa especificar e avaliar cada detalhe de sua arte. Existe uma analogia próxima entre esta idéia e o conceito central do evangelho, de que conhecer pessoalmente o Salvador e imitar seu exemplo é o melhor meio de viver o evangelho, um meio que transcende meramente o seguir mandamentos específicos e doutrinas detalhadas.

Embora Polanyi não esteja escrevendo sobre religião, seu conceito certamente se aplica ao conhecimento religioso: “Aprender pelo exemplo é submeter-se à autoridade. Segue-se o mestre porque se confia em sua maneira de fazer as coisas, mesmo quando não se pode analisar e descrever detalhadamente sua eficiência. Observando o mestre e imitando seus esforços na presença do seu exemplo, o aprendiz adquire inconscientemente as regras da arte, inclusive aquelas que não são explicitamente conhecidas pelo próprio mestre. Essas regras ocultas só podem ser assimiladas por alguém que se entregue à imitação sem crítica de uma outra pessoa. Uma sociedade que pretenda preservar um patrimônio de conhecimento pessoal precisa submeter-se à tradição” (Personal Knowledge (Conhecimento Pessoal), Nova York, Harper and Row, 1964 p.53).

A FALÁCIA DO CÉTICO

Muitos de nós já conhecemos pessoas que não testarão a veracidade do evangelho por não desejarem submeter-se aos seus mandamentos. Rogamos ao cético que prove o evangelho e veja. O cético, porém, quer que o provemos primeiro, antes de submeter-se a algo que lhe pareça a perda de sua liberdade. Sua própria dúvida, porém, tornará impossível ao evangelho dar-lhe frutos, pois a menos que ele viva os princípios do evangelho – perder-se nele – nunca poderá encontrar a prova que exige.

Até que a pessoa que tenta aprender uma habilidade tenha o desejo de se comprometer total e irrevogavelmente, há muitas coisas que não consegue aprender. Polanyi descreve como um cego, com uma bengala branca, se acostuma a “ver” com ela. O que a bengala lhe diz, o cego nunca poderá descrever plenamente para ninguém mais. Aqueles que não são cegos – mas que meramente fecham os olhos de vez em quando para ver como é – não ficam suficientemente motivados para aprender o que a bengala pode dizer-lhes sobre o mundo. Por que não? Porque eles não têm que saber. A menos que seja cego, você não terá que saber.

Para prosseguir com a analogia, o cego pode dizer que prefere não correr o risco de ser atingido por um carro e, portanto, prefere simplesmente ficar em casa.Tudo o que o professor pode dizer é: “Se você deseja a liberdade que sua bengala pode lhe dar, precisa correr o risco. Eu não lhe posso dizer como usar a bengala, a menos que você saia e aprenda com a prática. Ficarei ao seu lado e falarei com você. Dir-lhe-ei tudo que sei, mas se você não estiver decidido, nada há que eu possa fazer por você”.

O cego deve, de algum modo, ser persuadido de que a agonia do treino com a bengala, passo a passo, com todos os erros que inevitavelmente o acompanham, vale os esforços e os riscos envolvidos. A prática necessária não é simplesmente uma questão de repetição; é, sim, um processo de mudança e crescimento, alcançado pelo esforço mental repetido, tendo em mira o aprendizado de uma habilidade específica, em busca de algum propósito.

Como é que uma pessoa convence as outras a respeito de coisas como essas? Nosso amigos céticos poderão dizer: “O que há de tão maravilhoso sobre o reino celestial? Expliquem-me para que eu possa entendê-lo, e então talvez eu possa aceitar todos os mandamentos, arriscar-me, submeter-me ao Mestre, e passar por toda a prática e rotina. Antes, porém, quero que me provem que, no fim, tudo terá valido a pena”.

E qual poderá ser nossa resposta? Não existe meio pelo qual mentes humanas, ressuscitadas ou não, possam comunicar a outras mentes humanas como é. Não sabemos por que é assim. Está na natureza da realidade e na natureza do universo. Tudo o que podemos fazer é confiar e prová-lo. Alguma coisa acontecerá àqueles que provarem, e então eles saberão. Quando, porém, tentarem explicá-lo a outra pessoa, o ouvinte provavelmente não entenderá por completo o que estão falando.

Nossa existência mortal nos dá a oportunidade de desenvolver as aptidões, capacidades e os atributos divinos que precisamos ter para viver no reino celestial. Quando meu filho de nove anos diz que deseja guiar o carro, preciso explicar-lhe que se ele for para a auto-estrada, ele se tornará perigoso. Poderá matar-se e matar uma porção de pessoas. Ele ainda não tem a capacidade de usar a liberdade oferecida por uma auto estrada.

Até que desenvolva essa capacidade – a aptidão, o bom senso, a maturidade – guiar na auto-estrada o matará. O mesmo seria verdadeiro se fôssemos levados prematuramente à liberdade – e à responsabilidade – de viver em um reino governado por leis celestiais.

A responsabilidade pode libertar-nos ou esmagar-nos, dependendo de quão preparados estamos para recebê-la.

Doutrina e Convênios ensina que “qualquer princípio de inteligência que alcançarmos nesta vida, surgirá conosco na ressurreição”(D& C 130:18). ”Princípio de inteligência” pode referir-se a acontecimentos, informações ou conhecimento dos mandamentos e doutrinas. Pode, também, referir-se a capacidade e habilidade cristãs – auto-controle, obediência, compaixão, paciência, desprendimento e outras virtudes.

Por que poderíamos ser “condenados” ou detidos em nosso progresso, se o véu fosse tirado cedo demais? Estaríamos impedindo nosso progresso em direção ao desenvolvimento das qualidades celestiais. Mesmo se uma carruagem voasse pelos céus todos os dias, não nos seria de muita utilidade conhecer Deus e Jesus Cristo, a quem ele enviou. (Vide João 17:3) A “vida eterna” não se refere à extensão da vida, mas à qualidade de vida. Envolve o desenvolvimento de longo alcance, difícil e gradual, da capacidade de viver como Cristo vive. Quando começarmos a viver como ele vive, começaremos a conhecê-lo.

Lembrem-se da apresentação do plano de Satanás na existência pré-mortal: “Redimirei a humanidade toda, de modo que nem uma só alma se perderá, e sem dúvida, o farei; portanto, dá-me a tua honra” (Moisés 4:1). Geralmente dizemos que o problema do plano de Satanás foi ele “ter procurado destruir o livre-arbítrio do homem, que eu, o Senhor Deus, lhe tinha dado” (Moisés 4:3).

A NECESSIDADE DO LIVRE-ARBÍTRIO

Por que o livre-arbítrio tem tanta importância?

Sem o livre-arbítrio, não podemos desenvolver as aptidões e atributos essenciais ao crescimento que precisamos ter para voltarmos à presença de Deus. É simplesmente impossível. Um cavalo pode ser levado até a água, mas não pode ser forçado a beber. Pode-se dar um livro a uma criança, mas ela nunca aprenderá a ler a menos que, voluntariamente, se esforce para isso. O plano de Satanás não poderia ter dado certo. A alegação de que nenhuma alma se perderia, a despeito de nossas escolhas, era como a maior parte de suas alegações: uma mentira.

Essas idéias sugerem por que a ação voluntária e a liberdade de questionar são essenciais para o desenvolvimento do caráter religioso, da mesma forma que são essenciais para o desenvolvimento intelectual.

A idéia de que a salvação envolve um processo de desenvolvimento de aptidões também pode ajudar-nos a compreender por que existe um véu. Não precisamos ficar impacientes por as coisas precisarem ser do jeito que são; devemos, sim, ficar agradecidos. Essas circunstâncias nos demonstram como a fé, o arrependimento e o conhecimento de Deus são processos e princípios de ação. Compreendemos esses processos e princípios não simplesmente por defini-los, mas também por experimentá-los. Deus é um grande professor, e conhece os padrões e os princípios que precisamos seguir, a fim de desenvolvermos capacidade divina. Ele nos pode ensinar essas coisas – tem esse poder – mas só se nos entregarmos ao processo.

Se insistirmos em receber uma medalha ou uma recompensa como prova de que estamos aprendendo as coisas certas, ou se achamos que estamos aptos a explicar a todos como o evangelho funciona e por que funciona – embora o próprio Deus não possa explicá-lo a nossas mentes finitas até que tenhamos desenvolvido a capacidade de compreendê-lo – não teremos aprendido o que significa o Evangelho de Jesus Cristo. Ainda nos estaremos debatendo de um lado para outro como adolescentes espirituais, tentando dominar os detalhes de uma lei menor.

A essência de nossa religião não pode ser completamente avaliada. Não pode ser plenamente compreendida, a não ser por experiência. Isto, porém, não é razão para dar-lhe menos valor. As coisas mais significativas que conhecemos não podem ser totalmente medidas ou especificadas – o amor à família, o testemunho, a gratidão a Deus. De alguma forma, reduzir estas coisas a um teor que possamos transmitir inteiramente a outras pessoas pode ser como degradar sua santidade. Como a beleza e a alegria, elas são importantes demais para serem especificáveis.

É claro que o valor do aprendizado, por meio da experiência, não significa que precisamos cometer nós mesmos todo erro humano, a fim de aprender as lições da vida. Podemos aprender vívida e permanentemente com as experiências dos outros, ao observarmos as conseqüências boas ou más das escolhas alheias. Em toda parte no mundo, hoje, há evidências de que “a iniqüidade nunca foi felicidade” (Alma 41:10).

Além disso, não podemos, unicamente por nosso próprio esforço, desenvolver os atributos de uma perfeição cristã – mesmo que participemos plenamente das oportunidades de aprendizado fornecidas pela experiência mortal. Precisamos fazer tudo que esteja ao nosso alcance, mas a obtenção da capacidade celestial será alcançada, finalmente, como dom divino. “Pois sabemos que é pela graça que somos salvos, depois de tudo o que pudermos fazer” (2 Nefi 25:23). “Sim, vinde a Cristo, sede perfeitos Nele (…)  e por sua graça podereis aperfeiçoar-vos em Cristo” (Moroni 10:32).

A expiação do Salvador pode compensar não somente nossos pecados, mas também nossas fraquezas. Esta compensação é significativa porque nos lembra da missão de Cristo, e também porque nos assegura que temos uma outra fonte, além de nossos próprios esforços que nos auxilia na busca de compreensão, de significado, e no esforço de nos tornarmos como Deus.

Existe um véu entre nosso mundo na mortalidade e o mundo de eternidades de Deus. Às vezes, ele pode tornar-se muito tênue, mas, para a maioria de nós, o véu permanece. Ele colocou-o para ajudar-nos a aprender como devemos viver, o que nos precisamos tornar, a fim de vivermos com Ele um dia.

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