Eu e o Lê namoramos, ficamos noivos e vivemos praticamente todo o nosso relacionamento à distância. Nunca moramos na mesma cidade antes do casamento. E quem já viveu um relacionamento a distância sabe: não é fácil. É desafiador, exige paciência e, no nosso caso, exigiu também muita fé.

O plano antes da tempestade

Como namorávamos a distância, sempre conversamos e oramos sobre o nosso futuro. Decidimos, juntos, que o Lê viria morar em Curitiba, e não eu para a cidade dele, Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul. A escolha fazia sentido: ele é advogado, e Curitiba oferecia muito mais mercado de trabalho na área jurídica. Eu, por outro lado, sou publicitária, e na cidade dele sequer havia agências de publicidade.

Mas antes de se mudar, o Lê precisava concluir uma etapa fundamental: passar na prova da OAB. Ele já havia se formado em Direito e precisava se tornar advogado lá, na cidade dele, antes de pensar em se mudar — não havia como transferir o processo no meio do caminho. O plano era simples: ele terminaria a OAB, viria para Curitiba alguns meses antes do casamento, conseguiria um emprego, se estabilizaria, e então nos casaríamos.

Quando a pandemia mudou tudo

Estávamos noivos, com o casamento praticamente todo planejado, local reservado, fornecedores fechados, tudo encaminhado. Foi então que a pandemia chegou e virou tudo de cabeça para baixo.

Além da distância, que já era complicada por si só, ficou ainda mais difícil nos vermos: aeroportos fechados, tudo parado, um caos generalizado. Não sabíamos mais se conseguiríamos nos casar na data planejada, nem se o local que havíamos reservado continuaria disponível. Era uma incerteza completa.

Nesse meio-tempo, o Lê já havia passado na primeira fase da OAB. Mas, pouco antes da segunda fase, a pandemia cancelou a prova. Diante de tudo isso, a distância, a incerteza sobre o casamento, e agora o exame cancelado, o que ele fez foi o que mais me impressiona até hoje: ele não esperou uma nova data ser divulgada para retomar os estudos. Continuou estudando todos os dias, sem parar, mesmo sem saber quando a prova aconteceria.

Eu me lembro de ter ido visitá-lo durante a pandemia e ficar alguns dias na casa da família dele. Mesmo com a minha presença ali, todas as noites, fizesse chuva ou sol, ele reservava um tempo para estudar para a segunda fase.

A prova foi remarcada uma vez, duas vezes, três vezes, perdi a conta exatamente de quantas, mas acho que foi na quarta ou quinta tentativa que ela finalmente aconteceu. E aconteceu faltando pouco mais de um mês para o nosso casamento. Todo aquele planejamento de ele se mudar antes, arrumar emprego com calma, foi por água abaixo.

Jejum, oração e as Escrituras como sustento

Durante todo aquele ano de incertezas, além do esforço e da dedicação dele aos estudos, havia outra coisa que fazíamos juntos, mesmo à distância: jejuávamos toda semana, sem falta. Todo sábado, nos ligávamos para orar juntos, no início e no fim do jejum, pedindo a Deus que abençoasse aquele processo, que a prova pudesse acontecer logo, que ele passasse de primeira, e que pudéssemos manter a data do nosso casamento como havíamos sonhado.

Também líamos as Escrituras juntos todas as noites, por chamada de vídeo. Chegamos a terminar todo o Livro de Mórmon dessa forma, ainda como namorados e noivos. Esse hábito fortaleceu muito a nossa relação, especialmente em um momento tão difícil e distante.

Acredito que essa foi a combinação perfeita para nós: o esforço e a disciplina dele nos estudos, o nosso jejum semanal, e a leitura das Escrituras juntos.

O resultado: um milagre

Depois de tanto esforço e tanta fé, o Lê passou na segunda fase da OAB. Eu estava em chamada de vídeo com ele no momento em que saiu o resultado, e a alegria foi imensa, gritamos e choramos juntos, porque faltava apenas um mês para o nosso casamento.

A partir daí, tudo começou a se resolver, mas com muitas adaptações. Não conseguimos realizar o casamento como planejávamos originalmente, para duzentas pessoas; acabamos fazendo uma cerimônia para apenas quinze convidados, só a nossa família. Até o local do casamento precisou ser trocado, uma semana antes da data.

O Lê, então aprovado na OAB, precisou pedir demissão do emprego que tinha na cidade dele para poder se mudar. Isso aconteceu a menos de um mês do casamento. Fui até lá ajudá-lo com a mudança, e enquanto isso ele criou um perfil no LinkedIn e começou a enviar currículos para empresas de Curitiba.

A entrevista no meio do nada

Um dia antes da nossa viagem de mudança, ele recebeu uma ligação de uma empresa interessada em entrevistá-lo. A entrevista foi marcada justamente para o dia da nossa viagem — um trajeto de Ponta Porã até Curitiba que leva o dia inteiro, saindo às cinco da manhã e chegando só à noite.

Ele tentou remarcar, explicou a situação, mas a recrutadora foi categórica: só poderia ser naquele dia e horário. Não tínhamos como adiar a viagem, porque eu precisava estar de volta ao trabalho em Curitiba. Diante disso, o Lê disse: “que seja da vontade do Senhor”, e combinou que faria a entrevista pelo caminho, caso conseguisse sinal de celular.

Viajamos com o carro cheio de tudo o que tínhamos. O horário da entrevista foi se aproximando e não havia sinal nenhum. Faltando trinta minutos, nada. Vinte minutos, nada. Cinco minutos, nada. A poucos minutos do horário marcado, já estávamos certos de que não daria certo.

Foi então que, a exatos dois minutos da entrevista, um risco de sinal apareceu no celular. Paramos o carro imediatamente ali mesmo, no meio de uma estrada cercada apenas de campo, pasto e vacas — não havia absolutamente nada ao redor. Era fevereiro, com um sol escaldante. O Lê saiu do carro, ficou de pé sob aquele sol, e quando a recrutadora ligou, no horário exato combinado, ele fez a entrevista dali mesmo, no meio do nada. Depois, conseguiu se sentar embaixo de uma árvore para terminar a ligação.

Assim que a entrevista terminou, o sinal desapareceu de novo — tão repentinamente quanto havia surgido. Fazia todo sentido não haver sinal naquele trecho isolado da estrada, mas, no exato momento da entrevista, o sinal esteve lá.

Eu e minha mãe, que estávamos no carro, nos emocionamos e choramos. Falamos que, independentemente do resultado daquela entrevista, aquilo já era uma das maiores demonstrações da mão do Senhor que já havíamos presenciado. Sentimos o espírito de forma muito forte e tivemos a certeza de estar diante de um milagre.

O emprego, uma semana antes do casamento

Terminamos a viagem, fizemos a mudança para Curitiba, e um dia depois a empresa ligou: o Lê estava contratado e começaria a trabalhar já na segunda-feira seguinte. Ele não passou nem um dia sequer desempregado, pediu demissão do trabalho anterior, se mudou, e na mesma semana em que chegou a Curitiba já tinha um novo emprego.

Uma semana depois, nós nos casamos.

Esse emprego foi uma bênção enorme para nós. Eu era recém-formada, tinha acabado de deixar de ser estagiária, e meu salário sozinho não seria suficiente para sustentar a nossa vida de casados. A conquista daquele emprego, exatamente naquele momento, foi mais uma prova clara, para nós, da mão do Senhor guiando a nossa história.

Essa é apenas uma das muitas histórias que vivemos ao longo do nosso namoro e noivado, vivemos incontáveis milagres nesse período, mas este, sem dúvida, foi um dos mais especiais e marcantes para nós.

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