Servir missão nunca foi, para mim, uma decisão difícil. Fazia parte de quem eu sou. Meus pais foram batizados por missionários, as escrituras sempre estiveram dentro da minha casa, e meu irmão mais velho serviu em Salvador, na Bahia, foi um exemplo enorme para mim. Então, desde cedo, estava claro no meu coração que aquele era o meu caminho.

Na minha cabeça, um bom missionário era aquele que pregava a todos, que estava sempre feliz, que falava de Jesus Cristo não só com palavras, mas nos atos e até no jeito de falar. E, claro, os batismos eram o resultado natural de tudo isso. Eu acreditava muito nisso. Talvez acreditasse demais, porque, no fim, eu ainda media o meu trabalho pelo que eu conseguia ver crescer, e não pelo que eu plantava.

A última área

Terminei a missão numa das áreas mais difíceis em que servi. Todo mundo conhecia aquela área, ela tinha um histórico complicado, mas também já tinha recebido bons missionários que fizeram um bom trabalho ali. Então cheguei com essa mentalidade: 

“É difícil, mas é uma área onde quem se dedica consegue ver fruto.”

Era um lugar gigante. Para você ter ideia, levava de três a quatro horas para atravessar de uma ponta à outra caminhando. Eu tinha uma bicicleta, mas ainda assim era enorme, e, ao mesmo tempo, muito vazio. Um lugar bem de interior, com pouca gente. Isso tornava o trabalho difícil de um jeito que é difícil de explicar para quem nunca passou por isso.

Numa das paredes, eu tinha um lembrete escrito em espanhol: “Podemos pensar que não há nada a fazer, ou podemos simplesmente fazer algo.” Não tem uma grande história por trás daquele bilhete. 

Era só uma frase para me lembrar, todos os dias, de que mesmo quando não há progresso visível, mesmo quando não há ninguém para ensinar, ainda existe uma escolha: ficar parado no desânimo ou fazer alguma coisa.

Eu estava finalizando a missão e queria ter algum resultado, famílias para ensinar, pesquisadores progredindo, batismos, confirmações. E não era essa a minha realidade ali. Por isso, aquela reta final pesou um pouco mais.

fracassei como missionário

A família que eu não fui procurar

Foi nesse cenário que conheci aquela família. Para ser sincero, não fomos nós que os encontramos, eles eram parentes de uma família muito firme na Igreja, e o bispo nos pediu para visitá-los e nos aproximar deles.

Eu lembro bem: era uma noite, já no finalzinho do dia, quando fomos até a casa deles. A gente nem sabia direito como se aproximar de uma família de menos ativos, não sabíamos se seriam receptivos, se nos receberiam bem. Mas eles foram amorosos desde o primeiro instante. Receptivos, carinhosos, pessoas maravilhosas. Foi fácil amá-los.

Acabei ensinando aquela família e também a filha mais nova, uma menina de apenas nove anos. E aqui preciso ser honesto sobre algo que talvez não soe muito “missionário”: eu não tinha tanta fé nos frutos que aquele batismo geraria.

Não era falta de amor. A gente batizou aquela criança com muito carinho e com esperança. Mas ela era uma criança, e uma criança precisa de todo um suporte para progredir no evangelho. Depende dos líderes, depende da família, depende de muitas decisões que não estavam nas mãos dela. 

Minha esperança na permanência dela, sozinha, não era tão alta. Eu torcia para que a família apoiasse, mas sabia o quanto isso é difícil. Na minha cabeça de missionário, era mais um “estou batizando, estou fazendo a minha parte pela salvação dela”, mas com um certo pé atrás.

O dia do batismo, mesmo assim, foi de muita alegria. Aquela menina sempre foi alegre, muito inteligente, aprendia tudo o que ensinávamos com uma rapidez impressionante. A gente estava genuinamente feliz naquele dia. Eu estava feliz.

A pergunta que ficou

Quando a missão terminou, eu não voltei para casa me sentindo um fracasso, eu tive áreas maravilhosas, momentos de muito fruto. Mas eu me comparava muito com as minhas áreas anteriores. E aquela última área deixou em mim uma pergunta silenciosa: será que eu poderia ter feito mais?

Quando a gente é jovem, acredita que tudo precisa ser imediato. Que o resultado de uma missão se mede em números e batismos. Eu acreditava muito nisso. Meu irmão serviu na Bahia e batizou muita gente. A maioria dos meus amigos serviu em lugares onde se batizava demais. Então os números ocupavam um espaço grande na minha cabeça.

O que eu ainda não entendia é que o Senhor não conta números. Ele conta cada alma. Ele conta a salvação e o arrependimento de cada pessoa, uma por uma.

A ligação, dez anos depois

A resposta veio quando eu já nem esperava por ela.

Eu estava voltando da estaca de carro, num domingo, quando meu antigo companheiro me ligou, o mesmo com quem eu batizei aquela menina. A nossa amizade nunca esfriou; a gente sempre se respeitou e teve um carinho enorme um pelo outro. E ele me disse: “Daniel, você lembra dela?” Eu lembrei na hora.

Ele me contou que aquela menina tinha crescido firme no evangelho. Que tinha sido professora. E que agora estava indo servir missão, chamada para Londres, na Inglaterra.

Eu não tinha contato com aquela família havia anos. Praticamente não soube nada deles desde que voltei. Então receber aquela notícia, do nada, foi de tirar o fôlego. A sementinha que eu tinha plantado sem muita esperança não só vingou, ela cresceu, floresceu e agora ia plantar em outros o mesmo que um dia plantaram nela.

“Sua missão foi aceita”

Algum tempo depois, eu tive a oportunidade de visitá-la pessoalmente, antes de ela entrar no Centro de Treinamento Missionário. E, depois daquela visita, fui até a casa da missão, numa parte de Buenos Aires.

Foi ali que aconteceu. Eu senti uma voz, na minha cabeça, no meu coração, me dizendo que a minha missão tinha sido aceita.

Não é que eu vivesse achando que ela não tinha sido aceita. Mas, lá no fundo, tinha aquele sentimento de quem deu tudo de si e ainda assim se pergunta se foi suficiente. Eu trabalhei muito. Eu me dediquei de verdade, estava ali realmente pelo Senhor. 

E eu queria ter visto mais resultado. Naquele momento, na casa da missão, ouvi do Senhor, dentro do meu coração, que estava tudo certo. Que tinha sido aceita. Foi uma confirmação espiritual, emocional e quase física.

E vou te contar uma coisa que, para mim, é a prova mais íntima de que aquilo foi real. Durante anos, eu sonhei com a minha missão. A cada três meses, mais ou menos, eu sonhava que estava de volta, servindo de novo como missionário, e acordava sem entender o porquê, chegava a comentar com a minha esposa. Depois daquela confirmação, nunca mais sonhei com a missão. Pode parecer loucura, mas eu acredito que aquilo foi o Senhor fechando um ciclo dentro de mim.

O que eu aprendi sobre plantar

Olhando para trás, eu entendo que aquela semente nunca dependeu da minha fé no resultado. Ela dependeu da minha fidelidade em plantar. Eu batizei achando que o que importava era o número que eu estava somando, e dez anos depois descobri que o que importava era a alma que eu nem confiava que ficaria. E essa alma cresceu tanto que agora vai semear em outros.

Se você está se dedicando e os resultados parecem não vir, o que eu aprendi é isto: a gente precisa confiar no Senhor. A fé é exatamente isso, entender que nem tudo vai acontecer do nosso jeito, no nosso tempo, e que muitas vezes os resultados são invisíveis aos nossos olhos. Mas o nosso esforço nunca é invisível para Ele. 

O Senhor olha para o coração. Ele ama o esforço. E, de uma forma ou de outra, Ele recompensa, talvez com uma história como a minha, talvez de um jeito que você só vai entender daqui a dez anos.

O importante é fazer o seu melhor dentro das suas limitações, não importa onde você serviu, com quem serviu ou em qual área esteve. Eu plantei sem fé no que ia colher. Mas plantei. E, no tempo do Senhor, a colheita veio mais bonita do que eu jamais imaginei.

Veja também