A geografia do Livro de Mórmon fascina leitores há quase dois séculos. Do coração da América do Norte às selvas densas da Mesoamérica, o debate sobre onde os eventos do livro aconteceram passa por arqueologia, história e teologia. Este artigo reúne, em formato de perguntas e respostas, o que se sabe hoje sobre o tema, conferido diretamente nas fontes oficiais da Igreja.

A Igreja tem uma posição oficial sobre a geografia do Livro de Mórmon?

Não. Segundo o próprio texto oficial da Igreja sobre o assunto, “a Igreja não toma posição sobre as localizações geográficas específicas dos acontecimentos do Livro de Mórmon nas Américas antigas”.

O texto acrescenta que “especulações sobre a geografia do Livro de Mórmon podem enganar em vez de iluminar” e que esse tipo de estudo “pode ser uma distração de seu propósito divino” (Geografia do Livro de Mórmon, Tópicos e Perguntas).

A única posição oficial da Igreja é que os eventos descritos no livro aconteceram em algum lugar das Américas.

Segundo a própria Igreja, “o Senhor não falou” sobre esse assunto. O texto oficial orienta:

“As pessoas podem ter suas próprias opiniões sobre a geografia do Livro de Mórmon e outros assuntos sobre os quais o Senhor não falou. No entanto, a Primeira Presidência e o Quórum dos Doze Apóstolos exortam os líderes e membros a não defenderem essas teorias pessoais em nenhum contexto ou de nenhuma maneira que implique o apoio profético ou da Igreja a essas teorias” (Geografia do Livro de Mórmon).

O Livro de Mórmon

Como o próprio Livro de Mórmon descreve sua geografia?

Sem citar nenhum lugar do mundo real, o texto do Livro de Mórmon descreve uma região com formato de “ampulheta”: uma terra do norte, uma faixa estreita de terra no meio, e uma terra do sul. Cidades, rios e outros acidentes geográficos são posicionados uns em relação aos outros dentro desse mapa interno.

O relato mais detalhado dessa geografia interna está em Alma 22:27–34, no capítulo em que se explica a divisão da terra entre nefitas e lamanitas:

E assim, a distância entre o mar do leste e o mar do oeste, pela fronteira entre Abundância e a terra de Desolação, era o equivalente a um dia e meio de viagem para um nefita. E assim, a terra de Néfi e a terra de Zaraemla estavam quase que rodeadas por água, havendo uma pequena faixa de terra entre a terra do norte e a terra do sul. (Alma 22:32)

Esse tipo de descrição interna é o que pesquisadores usam para tentar montar um “mapa” do Livro de Mórmon sem recorrer a lugares reais, e é também a base sobre a qual as diferentes teorias geográficas tentam se encaixar em locais do mundo atual.

Quais são as principais teorias sobre a geografia do Livro de Mórmon?

Ao longo de quase dois séculos, surgiram diversas teorias. As mais discutidas, historicamente e atualmente, são:

Modelo hemisférico: propõe que os eventos do Livro de Mórmon se espalharam por toda a América do Norte e do Sul, com a “terra do norte” correspondendo à América do Norte, a “terra do sul” à América do Sul, e a “faixa estreita de terra” sendo o istmo do Panamá. Foi o modelo mais popular entre os primeiros líderes da Igreja, como Orson Pratt, mas hoje é criticado por não bater com as distâncias de viagem descritas no próprio livro.

Modelo mesoamericano: posiciona os eventos no sul do México e na Guatemala, aproximando o “istmo estreito” da região de Tehuantepec. É o modelo mais aceito entre estudiosos atualmente, por se alinhar bem com evidências arqueológicas de civilizações avançadas na região, embora exija reposicionar os pontos cardeais do texto e entre em tensão com a localização tradicional da Colina Cumora, em Nova York.

Modelo do “heartland”: centraliza os eventos no leste dos Estados Unidos, especialmente nos vales dos rios Mississippi e Ohio. Costuma se apoiar em declarações pessoais de Joseph Smith, mas é criticado por depender, em alguns casos, de artefatos arqueológicos hoje reconhecidos como falsificações.

Modelo sul-americano: propõe que os eventos aconteceram em áreas como Chile, Peru e Bolívia, citando evidências arqueológicas e culturais dessas regiões, além de declarações de líderes do século 19 associando o desembarque de Leí ao Chile.

Nenhum desses modelos tem endosso oficial da Igreja.

Outros líderes da Igreja já comentaram sobre o assunto?

Sim, diversas vezes, desde o século 19. Em geral, essas declarações seguem o mesmo padrão: reconhecem o interesse dos membros pelo tema, mas evitam validar qualquer teoria específica.

O presidente Spencer W. Kimball disse:

“Sião era toda a América do Norte e do Sul, como as asas abertas de uma grande águia, sendo uma o Norte e a outra o Sul da América”

Em 1º de janeiro de 1890, o presidente George Q. Cannon, então na Primeira Presidência, escreveu, em um editorial na revista oficial Juvenile Instructor, que os líderes que davam palestras sobre a geografia do Livro de Mórmon “não estão de acordo em suas conclusões” e que, em muitos casos, “as variações chegam a dezenas de milhares de quilômetros”.

Segundo ele, a Primeira Presidência já havia sido solicitada várias vezes a preparar um mapa da geografia nefita, mas nunca concordou em fazê-lo, “porque, sem mais informações, não estamos preparados nem para sugerir” um (George Q. Cannon, Juvenile Instructor 25, 1º de janeiro de 1890).

Décadas depois, em uma carta pessoal datada de 23 de fevereiro de 1923, o élder James E. Talmage relatou que um comitê do Quórum dos Doze havia passado dias ouvindo apresentações sobre o tema e concluído que “as opiniões diferiam tanto quanto o continente”. Por isso, disse ele, “a Igreja não poderia autorizar ou aprovar a publicação de nenhum mapa, gráfico ou texto que pretendesse apresentar fatos demonstrados relativos às terras do Livro de Mórmon” (James E. Talmage, carta a Jean R. Driggs, 23 de fevereiro de 1923).

Já em 24 de agosto de 1954, em um discurso a educadores religiosos, o élder Mark E. Petersen foi direto: “Se uma Autoridade Geral especulou sobre a geografia do Livro de Mórmon, ela não representou o ponto de vista da Igreja ao fazer isso.”

No mesmo tipo de encontro, alguns anos antes, em 8 de julho de 1966, o presidente Harold B. Lee havia feito uma pergunta na mesma linha: “Se o Senhor quisesse que soubéssemos onde ela fica, ou onde ficava Zaraemla, Ele teria nos dado latitude e longitude, não acha?” Ambos os discursos foram publicados no livro interno da Igreja Charge to Religious Educators (2ª ed., 1982), sem versão disponível on-line.

Joseph Smith comentou sobre a geografia do Livro de Mórmon?

Sim, em diversas ocasiões, mas de forma genérica, sem nunca produzir um modelo geográfico definitivo. O próprio texto oficial da Igreja reconhece isso:

O próprio profeta Joseph Smith aceitou o que sentiu ser evidência sobre as civilizações do Livro de Mórmon tanto na América do Norte quanto na América Central. Quando Joseph estava viajando com o Acampamento de Sião em 1834, ele escreveu para sua esposa Emma que estavam “vagando pelas planícies dos nefitas, ( … ) vagando pelos montes daquele outrora amado povo do Senhor, recolhendo seus crânios e ossos, como prova de sua divina autenticidade”. Em 1842, o jornal da Igreja Times and Seasons publicou artigos sob a direção de Joseph Smith que identificavam as ruínas de antigas civilizações nativas no México e na América Central como mais uma evidência da autenticidade histórica do Livro de Mórmon.

Ou seja: Joseph Smith parece ter considerado tanto a América do Norte quanto a América Central como cenários possíveis, mas nunca declarou, como revelação, uma localização exata. Também não há registro de que ele tenha recebido alguma revelação especificamente sobre esse tema.

O que foi o caso de Zelph, o lamanita?

Em 1834, durante a marcha do Acampamento de Sião pelo estado de Illinois, um grupo de homens abriu um monte de terra e encontrou ossos humanos.

Segundo relatos de várias pessoas próximas a Joseph Smith na época, ele identificou aqueles restos como sendo de um guerreiro lamanita chamado Zelph.

Os diferentes relatos do episódio, registrados por companheiros como Wilford Woodruff e Heber C. Kimball, não coincidem exatamente nos detalhes, e o alcance real do que Joseph Smith disse e o que isso significaria para a geografia do Livro de Mórmon, seguem sendo discutidos por historiadores até hoje.

O Monte Cumora, em Nova York, é o mesmo lugar da batalha final descrita no Livro de Mórmon?

Talvez sim, talvez não. A identificação tradicional do monte perto de Palmira, Nova York, como o “Cumora” do Livro de Mórmon remonta a pelo menos meados da década de 1830, mas não há evidência de que essa identificação tenha partido do próprio Joseph Smith.

Ele é registrado se referindo ao monte uma vez, em 1842, em uma passagem posteriormente canonizada como Doutrina e Convênios 128. Algumas teorias, como o modelo mesoamericano, propõem que a Cumora original do livro ficaria em outro lugar, possivelmente no sul do México, com o nome tendo sido reaproveitado depois para a colina de Nova York.

Doutrina e Convênios 125 diz que Zaraenla fica em Iowa?

Não. Essa seção fala sobre planos para construir uma cidade em Iowa e dar a ela o nome de Zaraenla, mas não há nenhuma indicação de que essa revelação pretendesse identificar a localização da antiga cidade de Zaraenla mencionada no Livro de Mórmon. O nome foi escolhido pelos santos da época, não revelado como uma correspondência geográfica.

Existe um altar nefita em Missouri?

Provavelmente não, apesar do que se costuma repetir. A obra History of the Church atribui a Joseph Smith a identificação de um “altar ou torre nefita” perto de Adam-ondi-Ahman, no Missouri.

Mas, segundo o historiador Alexander L. Baugh, o registro original no diário de Joseph Smith, feito por seu escrivão George W. Robinson em 19 de maio de 1838, descreve a estrutura apenas como um “velho altar e torre nefítico [Nephitish]”, não “nefita”.

A palavra “nefita” só entrou no texto quando a History of the Church foi editada e publicada, décadas depois. Segundo Baugh, o termo original “nefítico” provavelmente indicava apenas que se tratava de uma estrutura antiga, construída por povos nativos americanos, sem nenhuma conexão explícita com os nefitas do Livro de Mórmon

O Livro de Mórmon identifica os Estados Unidos como a “terra prometida”?

Não especificamente. O texto do livro identifica o continente americano, de forma ampla, como uma “terra de promissão” sobre a qual a Sião dos últimos dias seria edificada, não uma nação específica.

Diversos líderes da Igreja ao longo da história, de Joseph Smith a Ezra Taft Benson, se referiram a essa “terra prometida” como toda a extensão da América do Norte e do Sul, não apenas os Estados Unidos.

A Igreja já financiou pesquisas ligando o Livro de Mórmon à Mesoamérica?

Sim. Na década de 1970, a Igreja, por meio da Universidade Brigham Young (BYU), apoiou pesquisas e produziu um filme explorando o modelo mesoamericano da geografia do Livro de Mórmon, mas sem fazer nenhum endosso oficial ou definitivo ao modelo.

A Fundação Arqueológica do Novo Mundo (NWAF), também ligada à BYU, conduz pesquisas arqueológicas profissionais na Mesoamérica desde a década de 1950, mas sem se posicionar sobre a questão da geografia do Livro de Mórmon.

A existência de tantas teorias diferentes é um problema para a autenticidade do livro?

Não necessariamente. A diversidade de teorias reflete o desafio de interpretar as descrições internas do texto e tentar encaixá-las em locais reais, não uma fragilidade da autenticidade do registro em si.

A própria introdução do Livro de Mórmon já passou por um ajuste nesse sentido: a edição de 1981 dizia que os lamanitas eram “os principais antepassados dos índios americanos”; a revisão de 2006 mudou a frase para “entre os antepassados”, evitando afirmar mais do que o texto realmente diz.

chance

O foco deve ser em Cristo

Depois de reconhecer que membros e líderes debatem essas teorias há quase dois séculos, o texto da Igreja cita o presidente Russell M. Nelson, que declarou:

“Por mais interessantes que sejam tais assuntos, o estudo do Livro de Mórmon é mais recompensador quando enfocamos seu principal propósito: Prestar testemunho de Jesus Cristo. Comparados a isso, todos os demais são superficiais.”

Ou seja: estudar mapas, distâncias e possíveis localizações pode ser interessante e até enriquecedor, mas não é o propósito central do livro e, segundo a própria Igreja, não é algo sobre o qual haja uma resposta definitiva a ser encontrada.

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