No discurso dos Santos dos Últimos Dias, poucas frases são tão familiares, ou tão poderosas, quanto a declaração de Joseph Smith de que o Livro de Mórmon é “o livro mais correto da Terra” e “a pedra angular de nossa religião”.
A frase é tão repetida que, sem percebermos, ela pode acabar perdendo a força. A gente concorda com a cabeça, mas nem sempre para pra pensar: o que essa frase realmente exige de mim?
Uma pedra angular, como o Presidente Ezra Taft Benson lembrou à Igreja, não é decorativa. Ela é estrutural. Remova-a, e o arco desaba. Mantenha-a, e toda a estrutura permanece firme, silenciosa e invisível, cumprindo seu papel precisamente porque todo o resto depende dela. Embora a metáfora da pedra angular seja arquitetônica, suas implicações são existenciais.
A maioria dos Santos dos Últimos Dias afirma que o Livro de Mórmon é a pedra angular de nossa religião. Claramente, o Livro de Mórmon sustenta o testemunho, esclarece a doutrina e centraliza a vida e a missão de Jesus Cristo.
Mas e se seu papel for ainda maior? E se a pedra angular não for apenas espiritual, mas também intelectual? E se o Livro de Mórmon não apenas sustentar a vida religiosa, mas também desafiar, reorientar e até mesmo derrubar muitas das suposições que tomamos como certas em nossa vida diária?
Como professor de psicologia (Edwin), que tem trabalhado nessa área por quase quarenta anos, sempre me vejo confrontando esse tipo de questão, tanto em nível pessoal quanto profissional.
Raramente passa um dia sem que eu considere a possibilidade muito real de que o Livro de Mórmon também possa ser uma pedra angular para nossa forma de pensar, para a maneira como compreendemos a pessoa humana, o sofrimento, a responsabilidade, a cura e o significado da vida moral.
Além disso, frequentemente me pergunto o que significa participar de uma disciplina acadêmica construída sobre pressupostos que o Livro de Mórmon contradiz de maneira silenciosa, persistente e fundamental.
Virando tudo de cabeça para baixo
Desde o início, a Restauração trouxe uma proposta ousada: a revelação não serve só para completar o que já sabemos, ela pode também desafiar e reorganizar o que pensamos saber. O próprio Livro de Mórmon fala sobre a “inversão que fazeis das coisas”, como se dissesse: cuidado, aquilo que você tem certeza que é verdade pode estar exatamente do jeito errado.
Na psicologia moderna, certas suposições tornaram-se tão difundidas que raramente são questionadas. Elas formam o pano de fundo sobre o qual teorias são construídas e práticas são justificadas. Entre elas, três se destacam: naturalismo, a ideia de que só existe o que é natural (nada de Deus na jogada), determinismo, que é a ideia de que tudo já está determinado de antemão, e o relativismo moral, que é a ideia de que o certo e o errado dependem só do ponto de vista de cada um.
Quase nenhum livro de psicologia discute essas três ideias abertamente, mas elas moldam tudo: como os psicólogos entendem o comportamento, o sofrimento e a cura. E quando colocamos essas ideias ao lado do Livro de Mórmon, elas começam a fazer bem menos sentido.
Levar o Livro de Mórmon a sério como uma pedra angular para nossa forma de pensar, portanto, não significa apenas acrescentar uma camada religiosa às estruturas acadêmicas ou profissionais já existentes. Significa perguntar se os próprios fundamentos dessas estruturas são sólidos.

Deus está fora da jogada?
No coração da psicologia moderna está um compromisso, frequentemente implícito, com o naturalismo. Simplificando, o naturalismo sustenta que todos os acontecimentos, incluindo pensamentos e comportamentos humanos, podem ser explicados em termos de processos naturais governados por leis naturais.
Muitos psicólogos acham que isso os torna mais neutros e objetivos. Mas essa neutralidade tem um problema escondido: um Deus que nunca age, nunca interfere e nunca muda nada na nossa vida é, na prática, um Deus que dá no mesmo se existir ou não.
Ao evitar compromissos teológicos, muitos psicólogos acreditam que conseguem permanecer objetivos, apoiando-se apenas em dados empíricos e universalmente acessíveis. Essa posição costuma ser defendida sob a bandeira do chamado naturalismo metodológico.
Muitos acreditam que essa abordagem permite “deixar Deus de lado”, suspendendo a questão de Sua existência e de Seu envolvimento no mundo para manter a neutralidade em suas pesquisas.
Mas essa neutralidade não é tão inocente quanto parece. Afinal, mesmo que Ele exista, um Deus que nunca age, nunca intervém e nunca influencia nossa compreensão do mundo ou de nós mesmos é um Deus supérfluo, alguém que poderia muito bem não existir.
Foi nesse espírito que o matemático Pierre-Simon Laplace disse ao imperador Napoleão que não tinha “necessidade dessa hipótese” quando lhe perguntaram onde Deus se encaixava em sua física. Grande parte da psicologia moderna faz o mesmo movimento, de forma educada, silenciosa e com grande confiança.
E tem uma ironia aí: tentar explicar o ser humano sem mencionar Deus já é, sim, uma afirmação sobre Deus. É dizer, na prática, que Ele, se existir, não é necessário para entender o mundo. Deus vira, no máximo, um detalhe decorativo. Na pior das hipóteses, vira irrelevante.
O Deus transformador do Livro de Mórmon
O Livro de Mórmon, por outro lado, nada sabe de uma divindade passiva. Na verdade, ele apresenta uma visão radicalmente diferente. Deus não está ausente, mas ativo; não está distante, mas intimamente envolvido. Ele fala, dirige, intervém e sustenta.
Não é apenas a origem do mundo, mas Aquele que sustenta, ilumina e santifica sua existência contínua. Como Alma ensina, “todas as coisas mostram que existe um Deus”, e não um Deus passivo. A própria criação é uma expressão contínua da vontade divina.
Essa diferença muda tudo. Se Deus está realmente envolvido na vida das pessoas, qualquer explicação sobre o comportamento humano que ignore isso fica, no mínimo, incompleta, e, na pior das hipóteses, totalmente errada.
Mais do que isso: o Livro de Mórmon mostra um Deus que desce até nós. Em Cristo, Ele sente dor, tentação e tristeza, justamente para poder ajudar as pessoas “de acordo com suas enfermidades“. Não é um Deus que se possa colocar de lado. É um Deus cuja presença é essencial para entender o sofrimento e a cura.
O Deus que encontramos no Livro de Mórmon não é uma hipótese de fundo nem um complemento metafísico opcional. Ele é a fonte ativa da vida, da luz, da ordem e do significado. Ele ordena que a Terra se mova, e ela se move. Ele entra na história. Ele fala. Ele julga. Ele redime. Ele sofre.
Essa visão de Deus não se harmoniza facilmente com uma psicologia que trata a ação divina como, na melhor das hipóteses, irrelevante. Se Deus é como o Livro de Mórmon O descreve, então qualquer explicação da vida humana que sistematicamente O exclua não é neutra, é falsa.

Determinismo e o desaparecimento do ser humano
A psicologia, moldada segundo as ciências naturais, adotou uma estrutura conceitual na qual ser “científico” significa presumir que o comportamento humano, assim como o movimento dos planetas ou as reações químicas, é governado por leis universais que podemos descobrir, compreender e estudar. Apelar para a ação divina, para a agência moral ou para causas espirituais não é apenas algo fora de moda, é intelectualmente desqualificante.
O filho psicológico mais consequente do naturalismo é o determinismo: a crença de que o comportamento humano é o resultado necessário de causas anteriores. A escolha torna-se uma ilusão. A liberdade torna-se um sentimento. A responsabilidade moral torna-se uma convenção social.
Muitos psicólogos defendem que, sem o determinismo, a ciência simplesmente não funcionaria. Afinal, se a gente não consegue explicar por que alguém está deprimido, ansioso ou se autodestruindo, como ajudar essa pessoa? Pensar assim dá uma sensação de controle e previsibilidade.
O psicólogo Gary Heiman chega a dizer que, se as pessoas fossem realmente livres, o comportamento seria puro caos, porque a única explicação possível seria “porque ela quis”. Por isso, ele conclui, “rejeitamos a ideia de que o livre-arbítrio tenha qualquer papel” no que fazemos. Outro psicólogo, John Baer, vai na mesma linha: para ele, o determinismo é o que “torna a psicologia possível”. Sem causa e efeito, a psicologia “não faria sentido”.
O receio aqui parece ser que uma psicologia não fundamentada no determinismo não poderia ser científica, porque não teria como explicar o comportamento humano. Na ausência do determinismo, argumenta-se, todas as ações humanas seriam apenas eventos aleatórios e imprevisíveis surgindo do exercício arbitrário da vontade. Como escreveu o psicólogo John Baer, o determinismo é o que “torna a psicologia possível. Se os eventos psicológicos não fossem determinados, causados, por eventos anteriores, a psicologia não faria sentido”.
Só que essa lógica esconde uma armadilha: ou a ação humana é totalmente mecânica, ou é só barulho aleatório. Ou somos marionetes, ou somos acidentes. O que desaparece no meio disso é a possibilidade mais óbvia: que somos pessoas que agem com propósito dentro de um contexto, sem sermos reduzidas a esse contexto.
O Livro de Mórmon rejeita essa armadilha em cada página. A famosa frase de Leí sobre “coisas que agem” e “coisas que recebem a ação” não é só poesia, é uma forma de entender o ser humano: nós não só reagimos a forças externas, também iniciamos ações e escolhemos entre alternativas reais, com peso moral de verdade. Isso não é aleatoriedade. É responsabilidade.
No Livro de Mórmon, a liberdade de escolha é a peça central sobre a qual giram a salvação, o pecado, o arrependimento e a redenção. Sem ela, a linguagem moral perde sentido e o julgamento de Deus pareceria injusto. Uma psicologia que não consegue explicar a liberdade de escolha não consegue explicar o ser humano que o Livro de Mórmon descreve.
Se tudo já está decidido, o que ainda importa?
Quando o determinismo entra em cena, o sentido da vida costuma sair pela porta dos fundos. Se cada pensamento e ação é resultado inevitável de forças fora do nosso controle, será que alguma coisa que fazemos importa de verdade?
Para que nossas escolhas tenham sentido, precisa ser realmente possível que elas tivessem sido diferentes. Só porque podemos escolher perdoar é que guardar rancor se torna um erro, e não apenas um reflexo automático. Da mesma forma, o envolvimento de Deus com a gente só tem valor porque Ele poderia agir diferente, mas escolhe continuar perto.
Quando o determinismo entra de fato no nosso jeito de pensar, essas possibilidades deixam de existir. As coisas “acontecem”, e ponto. O elogio e a culpa se tornam peças de museu de uma forma antiga de ver o mundo. É por isso que o determinismo costuma andar de mãos dadas com a ideia de que o certo e o errado dependem só do ponto de vista de cada um: se o comportamento é produzido, e não escolhido, julgar moralmente alguém parece injusto.
Nesse cenário, a psicologia não apenas explica o comportamento, ela, silenciosamente, retira dele qualquer peso moral. A linguagem moral é trocada pela linguagem terapêutica: os problemas passam a ser “disfunção”, não erro; “falta de adaptação”, não algo a se arrepender. Com isso, boa parte da psicoterapia passa a ter um único objetivo, aliviar o sofrimento da forma mais rápida possível, em vez de ajudar a pessoa a discernir o que é verdadeiro.
O Livro de Mórmon, mais uma vez, sustenta o julgamento moral.
O Livro de Mórmon vai na direção contrária. Suas páginas estão cheias de advertências, convites, repreensões e promessas. O pecado não é “um mecanismo de defesa malsucedido”. O bem e o mal não são invenções culturais, são reais, têm peso e têm consequência. Ao mesmo tempo, o livro não ignora a complexidade da vida nem o sofrimento que não vem do pecado. Ainda assim, insiste: a liberdade de escolha é real, e as diferenças morais importam.
Leí ensina que somos “atraídos por um ou por outro”, como se vivêssemos num mundo onde o bem e o mal são alternativas de verdade. E Morôni completa: “o Espírito de Cristo é concedido a todos os homens, para que eles possam distinguir o bem do mal”. A consciência não é só um produto da sociedade, é um dom de Deus.

Terapia sem Cristo: o que fica faltando
Se o conhecimento moral vem, ao menos em parte, de Deus, explicações puramente naturais sobre o certo e o errado não são apenas insuficientes — distorcem a realidade. E se nossas escolhas têm consequências reais, aqui e na eternidade, uma terapia que ignora a dimensão moral deixa passar algo essencial.
Hoje, a cultura terapêutica costuma tratar a linguagem moral como algo perigoso ou julgador. A cura é buscada pela adaptação, como se o sofrimento fosse apenas um problema técnico.
O Livro de Mórmon propõe outra gramática para a cura. Ele não nega a dor, o trauma, a aflição. Não diz que todo sofrimento vem do pecado. Mas afirma, sem rodeios, que a vida, a morte e a ressurreição de Cristo são relevantes para qualquer sofrimento humano. Isso não quer dizer que a presença de Deus seja a única coisa que importa, quer dizer que nossa compreensão sobre o que importa fica incompleta se essa participação for ignorada.
Uma psicologia que deixa Cristo de lado pode aliviar sintomas e até reduzir o sofrimento. Mas, pela perspectiva do Livro de Mórmon, ela corre o risco de tratar a ferida sem chegar à fonte mais profunda da cura. Isso não significa que toda terapia precisa falar abertamente de Cristo, muita gente que busca terapia não crê Nele. O ponto é nunca reduzir a verdade e a realidade moral a “valores” relativos. Quando trazemos a verdade e a moralidade como guias para a terapia, trazemos Cristo para a sala, mesmo sem dizer o nome Dele em voz alta.
Repensando o “homem natural”
Algumas pessoas tentam um meio-termo: dizem que a psicologia secular estuda só o “homem natural” (Mosias 3:19), o lado caído e ainda não redimido do ser humano, enquanto o evangelho cuida da fé e da espiritualidade. Nessa visão, a psicologia não estaria errada, só incompleta.
O problema é que essa leitura interpreta mal o que o rei Benjamim quis dizer. O “homem natural” de Mosias 3 não é uma criatura biologicamente programada, reagindo sem escolha ao ambiente. Como o rei Benjamim explica, ele é “inimigo de Deus” não porque nasceu pecador por natureza, mas por causa das escolhas que faz, porque decide não se submeter ao Espírito, porque escolhe não abandonar desejos pecaminosos. São verbos de escolha, não de destino fixo.
Por isso, quando a psicologia secular nega que a liberdade de escolha seja parte fundamental do ser humano, ela já erra até na descrição do “homem natural”. Ao entender mal a natureza humana, acaba defendendo exatamente a visão que reduz pessoas a objetos e escurece sua dimensão moral e espiritual, dando munição, sem querer, para a mesma rebelião contra Deus que o livro denuncia.
No fim, talvez a primeira escolha do “homem natural” seja negar que ele é capaz de fazer escolhas morais de verdade. E, a partir dessa negação, ele constrói teorias inteiras só para confirmar essa ideia.

Como seria uma psicologia construída sobre essa pedra angular?
Primeiro, ela levaria a sério que Deus pode agir de fato na vida das pessoas. A terapia não ficaria limitada à conversa entre duas pessoas, abriria espaço para a participação de Deus na cura, por meio da oração e de práticas espirituais, para quem quisesse explorar isso.
Segundo, ela afirmaria a liberdade de escolha. As pessoas não seriam vistas só como vítimas das circunstâncias, mas como agentes capazes de escolhas que fazem diferença, mesmo em situações difíceis, sem ignorar o peso do trauma ou do ambiente.
Terceiro, ela traria de volta a linguagem moral, sem julgamento fácil, reconhecendo que parte do sofrimento está ligado a escolhas, e que curar pode envolver arrependimento, perdão e reconciliação.
Por fim, ela colocaria Cristo no centro. O Livro de Mórmon ensina que a Expiação alcança todo tipo de sofrimento, Ele não só redime do pecado, também acolhe na dor. Um terapeuta que leva isso a sério busca, o tempo todo, entender como o sacrifício do Salvador se conecta com a vida de quem está ali na sua frente, e qual a melhor forma de falar sobre isso.
Nada disso significa jogar a psicologia no lixo. O conhecimento empírico e as técnicas terapêuticas têm valor, só precisam ser examinados, e não simplesmente engolidos sem questionar.
Se o Livro de Mórmon é mesmo a pedra angular, sua importância não pode ficar trancada dentro da capela. Precisa chegar à sala de aula, ao consultório, ao laboratório de pesquisa. Precisa moldar não só a forma como adoramos, mas a forma como pensamos.
No fim, a pergunta não é se o Livro de Mórmon tem algo a ver com a psicologia. A pergunta é: estamos dispostos a deixar que ele tenha? Aceitar isso é arriscar ver nossas certezas caírem por terra. Mas é também abrir a porta para ver com mais clareza, e nos aproximarmos não só de Deus, como Joseph Smith prometeu, mas também de nós mesmos.
Fonte: Public Square Magazine
Veja também
- O Livro de Mórmon pode me ajudar a entender o que acontece no templo?
- O Livro de Mórmon, verdade ou ficção: a visão de uma escritora experiente
- Você sabe tudo sobre o Livro de Mórmon?



