Se Deus é amoroso e tem todo o poder, por que permite tanto sofrimento? Essa pergunta, conhecida como “o problema do mal”, é um dos principais argumentos usados por ateus para desacreditar a fé em Deus. Ela ganha força porque a existência de atos terríveis é inegável, e está documentada justamente nos livros que mais testificam de Deus: a Bíblia e o Livro de Mórmon.

Em um artigo publicado na revista Interpreter, os pesquisadores Val Larsen e Newell D. Wright examinam como diferentes correntes cristãs tentam responder a essa pergunta e defendem que a teologia restaurada por meio de Joseph Smith a resolve de forma mais satisfatória.

Vale lembrar que o texto é uma reflexão dos autores, publicada em uma revista acadêmica independente. Não é uma declaração oficial da Igreja.

doutrina oficial de Cristo
Imagem: churchofjesuschrist.org

Por que a pergunta é tão difícil para o cristianismo tradicional

Segundo Larsen e Wright, a diferença central está em como cada tradição enxerga a natureza de Deus e da humanidade. O cristianismo tradicional é “monista”: só Deus existe por si mesmo, e todas as outras coisas e pessoas foram criadas por Ele do nada.

Os santos dos últimos dias, por sua vez, são “pluralistas”: acreditam que Deus e os seres humanos são da mesma espécie, em estágios muito diferentes de desenvolvimento, e que há muitos seres que existem por si mesmos.

Essa diferença, dizem os autores, muda tudo. Se Deus criou cada pessoa do nada e sustenta sua existência a cada momento, então ninguém pode agir contra a vontade Dele sem que Ele tenha permitido. Isso significa que Ele poderia ter escolhido não criar quem sabia que cometeria atrocidades, ou deixar de sustentar sua existência.

Os autores citam o filósofo Antony Flew, que resumiu o raciocínio: não podemos dizer que Deus gostaria de ajudar mas não pode, porque Ele é todo-poderoso; nem que ajudaria se soubesse, porque Ele sabe tudo; nem que não é responsável pela maldade alheia, porque Ele criou todas as pessoas.

Os autores passam então por três respostas comuns e explicam por que, em sua avaliação, nenhuma funciona.

Calvinismo. Os calvinistas levam essa lógica até o fim. Citando João Calvino, afirmam que Deus “determinou consigo mesmo o que desejava que acontecesse com cada homem” e que alguns são preordenados à vida eterna e outros à condenação eterna. Para Larsen e Wright, a coerência lógica dessa visão é inegável, mas ela entra em choque com o Deus amoroso que bilhões de pessoas conhecem pela própria experiência. Seria preciso aceitar que o que seria monstruoso se um ser humano fizesse se torna bondade quando Deus o faz. Os autores sugerem que o peso emocional dessa doutrina pode ter contribuído até para a angústia espiritual que levou o jovem Joseph Smith ao Bosque Sagrado.

Arminianismo. Esta é a corrente dominante no cristianismo, presente entre metodistas, adventistas, muitos batistas e, em grande parte, também entre católicos e ortodoxos. Ela afirma que Deus deu livre-arbítrio às pessoas e que a Expiação é oferecida a todos. Os autores concordam com essas verdades, mas apontam duas dificuldades. A primeira, apoiada em um teólogo calvinista chamado Mark Hausam, é que, se as escolhas humanas são realmente livres e não vêm de Deus, então a essência de cada pessoa não foi criada por Ele, o que na prática enfraquece a ideia de criação do nada. A segunda é que, se Deus sabe o futuro, sabia o que cada pessoa faria antes de criá-la. Ele poderia ter criado só os que escolheriam o bem. Os autores dizem que Deus não foi surpreendido por Hitler, Stalin ou Mao, e que, nessa visão, continua sendo quem os trouxe à existência.

Teísmo aberto. Esse movimento, presente em várias denominações, resolve parte do problema ao afirmar que Deus não conhece o futuro por completo. Se Ele não sabe o que cada um escolherá, não pode criar só os que farão o bem. Mas os autores veem uma dificuldade que permanece. O livre-arbítrio “libertário”, sem nenhuma ligação com o caráter da pessoa, transforma as escolhas em algo quase aleatório. Nesse caso, não faria sentido premiar ou punir alguém por elas, muito menos por toda a eternidade, porque as ações não revelariam quem a pessoa realmente é.

doutrina oficial de Cristo

O que a doutrina restaurada acrescenta

Para Larsen e Wright, os santos dos últimos dias têm “uma vantagem colossal” sobre os demais cristãos: rejeitam a criação do nada. Eles lembram que o Senhor revelou a Joseph Smith que o homem “também estava no princípio com Deus” e que a inteligência “não foi criada nem feita, nem o pode ser” (Doutrina e Convênios 93:29). No discurso de King Follett, o Profeta ensinou que a mente do homem é “coeterna” com Deus.

Segundo os autores, isso traz consequências importantes.

Em primeiro lugar, existe uma lei natural que limita o próprio Deus. Se Ele não criou a essência de cada ser, ela tem propriedades que Ele não pode mudar. Em vez de violar essas leis, Ele age por meio delas, como a medicina moderna, só que em escala muito maior. Os autores observam que, se tentasse contrariá-las, Ele deixaria de ser Deus (veja Alma 42:13, 22, 25 e Mórmon 9:19).

Em segundo lugar, o poder de Deus é entendido de outra forma. Ele é todo-poderoso no sentido de poder fazer tudo o que pode ser feito, todo-sábio por reconhecer a realidade e adaptar-se a ela, e é por isso que nunca “luta contra os aguilhões”, como Satanás.

Em terceiro lugar, a responsabilidade pelas escolhas é de quem as faz. Como cada pessoa tem uma essência que existe desde sempre, não há ligação de causa entre as escolhas morais dos seres humanos e o ato criador de Deus. Os autores chamam essa visão de “autodeterminação”.

Nela, cada pessoa tem um caráter estável, que explica suas escolhas e justifica que ela receba as consequências delas. Os autores acrescentam que as pessoas não são responsáveis por comportamentos causados por doenças físicas do cérebro, e que esse é um dos motivos pelos quais fomos mandados a não julgar (Mateus 7:1), já que ninguém conhece todos os fatores que influenciam a vida do outro.

Por fim, o trabalho de Deus é ajudar cada um a alcançar sua plenitude. Ele oferece corpo espiritual e físico e coloca cada pessoa em circunstâncias em que pode se tornar como Ele. Se alguém não alcança isso, é porque, no fim, escolheu não alcançar.

Alma, o filho pensando por que existe o mal
Imagem: IA e equipe Mais Fé.

O caso de Alma

Para dar exemplos concretos, os autores analisam três episódios da vida de Alma, o filho. O primeiro é a experiência dele com o sofrimento depois de ser confrontado pelo anjo. Antes disso, Alma era um homem “muito iníquo e idólatra” (Mosias 27:8), que havia levado muitos filhos de Deus à destruição. Por três dias, passou por “as dores de um condenado” (Alma 36:16).

O que chama a atenção dos autores é que o tormento de Alma veio das próprias palavras, pensamentos e obras. Como Alma explicou depois, “nossas palavras nos condenarão, sim, todas as nossas obras nos condenarão” (Alma 12:14). Isso sugere, segundo Larsen e Wright, que pecadores graves sofrem não porque Deus não suporta ficar na presença deles, e sim porque eles não suportam ficar na presença de Deus. Foi ao reconhecer o mal em si mesmo e clamar pelo Salvador que Alma foi libertado.

Os outros dois episódios acontecem em Amoniá. Alma foi rejeitado pela primeira vez, ficou desanimado e deixou a cidade, mas o anjo o mandou voltar. Lá, ele e Amulek pregaram com poder, inclusive sobre o castigo que aguarda os iníquos, comparado a um “lago de fogo e enxofre” (Alma 12:17). O povo rejeitou a mensagem. Os líderes expulsaram quem acreditou e queimaram as mulheres e crianças dos crentes, junto com as escrituras, enquanto Alma e Amulek eram obrigados a assistir.

Amulek perguntou: “Como podemos testemunhar essa cena terrível? Estendamos, pois, as mãos e exerçamos o poder de Deus que há em nós, e salvemo-los das chamas”. Alma respondeu que o Espírito o constrangia a não estender a mão, pois o Senhor recebia aquelas pessoas “em glória” e permitia que o povo agisse conforme a dureza de seu coração, para que os julgamentos fossem justos (Alma 14:10–11).

Os autores destacam o peso que esse episódio teve. Citando a pesquisadora Kylie Nielson Turley, lembram que a expressão “lago de fogo e enxofre”, antes usada por muitos, desaparece do Livro de Mórmon depois do que aconteceu em Amoniá. Alma nunca mais a repete, e o trauma marcou oito gerações de seus descendentes.

por que existe o mal

As respostas que o episódio sugere

Segundo Larsen e Wright, o relato do Livro de Mórmon oferece dois motivos para Deus não ter impedido a tragédia: o sofrimento das vítimas foi breve diante da glória eterna, e os iníquos precisavam poder agir para que o julgamento fosse justo.

Mas os autores reconhecem que o segundo motivo agrava a pergunta, porque os líderes sofrerão uma dor eterna muito maior. A resposta, dizem, está na ideia de que os iníquos se transformam, por si mesmos, em quem são. Eles lembram que, quando os líderes zombaram, perguntando “como pareceremos quando formos condenados?” (Alma 14:21), a resposta seria, mais ou menos, “como parecem agora”.

Os autores propõem ainda que, na eternidade, quem causou o sofrimento passa a viver também a dor das vítimas. Relatos de experiências de quase morte, em que a pessoa revive a vida como agente e como alvo de seus atos, apontam nessa direção. Por isso, escrevem, as intervenções de Deus que interrompem a maldade podem ser, em última análise, um ato de graça para os próprios agressores.

Para explicar por que Deus interveio a favor de Alma e Amulek, e não das mulheres e crianças, os autores falam em “compensações”. Citando o economista Thomas Sowell, lembram que os realistas sabem que os grandes problemas têm trocas, não soluções perfeitas. Alma continuou vivendo, pregou entre os zoramitas, ensinou seus filhos e escreveu palavras que hoje chegam a centenas de idiomas.

Os autores veem nisso um benefício que provavelmente superou o de deixar os agressores continuarem. Eles também sugerem que, assim como pais costumam dedicar mais atenção ao filho mais necessitado, os Pais Celestiais podem priorizar, quando os interesses entram em conflito, os filhos que mais precisam de ajuda para encontrar o caminho de volta.

Eles reforçam que há motivos para confiar no julgamento de Deus. Ele entende todas as variáveis, sabe quem mais precisa de ajuda e que trocas produzem os melhores resultados.

por que existe o mal
Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

E o sofrimento causado pela natureza?

Terremotos, doenças e acidentes também fazem parte da pergunta. Nos casos descritos no Livro de Mórmon, como o terremoto que libertou Alma e Amulek e matou os líderes de Amoniá, os autores veem uma função: o mal natural limita o mal moral e lembra a todos de que a vida é frágil e de que prestaremos contas. O chamado “ciclo do orgulho” mostra isso. O povo prospera, esquece a Deus, passa por calamidades ou derrotas e volta a se humilhar.

Mas os autores admitem que nem todo sofrimento se encaixa nessa explicação. A morte de uma jovem mãe com cinco filhos pequenos dificilmente diminui o mal no mundo, e é difícil entender por que a doença de um filho é curada num caso e não em outro. Para eles, o que se pode dizer é que certa aleatoriedade é necessária para que existam agência e crescimento.

O Salvador ensinou que o Pai “faz nascer o Seu sol sobre maus e bons e vir chuva sobre justos e injustos” (Mateus 5:45). Assim como a vida biológica precisa de sol e de chuva, a vida espiritual precisa de uma mistura de bons e maus momentos.

Há outra razão. Se cada boa ação fosse recompensada na hora e cada erro punido na hora, como seria na presença de Deus, as pessoas agiriam como animais condicionados, e não como seres livres. Por isso, nesta vida existe um intervalo entre o ato e a consequência, o que Alma chama de “estado probatório” (Alma 12:24).

Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Um Deus que também chora

Os autores insistem em que, no ensino restaurado, Deus não observa o sofrimento de longe. Eles lembram a visão de Enoque, que viu o Senhor chorar por Seus filhos e perguntou como Ele podia chorar sendo santo (Moisés 7:28–29). O Senhor respondeu que os havia criado com agência e lhes mandara amar uns aos outros e escolher o Pai, mas que eles tinham se tornado “sem afeição” e odiavam o próprio sangue.

Para Larsen e Wright, isso mostra que a vida dos Pais Celestiais inclui tristeza, e não apenas felicidade, porque respeitar a agência e a justiça tem um custo. O Pai, a Mãe e o Salvador sofrem com as dores de seus filhos.

Eles citam a frase “nenhuma cadeira vazia”, usada por pais que esperam que todos os filhos estejam juntos na glória celestial, e lembram que foi Satanás quem prometeu que ninguém se perderia. Podemos orar e esperar pelo retorno de quem se desviou, mas também precisamos respeitar a escolha de cada um.

Os autores observam que Deus também convive com a realidade das leis naturais. Doença, envelhecimento e morte são propriedades do corpo mortal, e o respeito por essas leis, mesmo quando causa dor, faz parte de ser como Deus. Se um pai ou uma mãe pudesse eliminar todo o sofrimento do próprio filho, talvez o fizesse. Mas, se a regra fosse a mesma para todos os filhos, ninguém poderia escolher seu próprio destino, e a agência, que os autores consideram a maior perda possível, deixaria de existir.

Duas ressalvas dos autores

Larsen e Wright reconhecem que essa resposta depende de determinadas formas de entender a doutrina. Eles levantam duas.

A primeira é a visão sobre o livre-arbítrio. Segundo Hausam, a maioria dos santos dos últimos dias entende que, para uma escolha ser livre, a pessoa precisa poder escolher o contrário em condições idênticas. Os autores preferem a visão de que as escolhas refletem o caráter eterno de cada um, porque ela combina melhor com a fé em um Deus imutável, com o julgamento final e com a exaltação duradoura.

Se todos tivessem uma liberdade sem vínculo com o passado, nem Deus poderia ser considerado confiável amanhã, e Joseph Smith ensinou que, sem um Deus que não muda, não é possível exercer fé para a salvação. Os autores respondem a quem se queixaria de ter “caráter fixo” dizendo que quem deseja de fato ser justo só precisa agir de acordo com esse desejo, vindo a Cristo para ser purificado pela graça, como Alma foi.

A segunda ressalva é sobre a natureza das inteligências. Alguns pensadores santos dos últimos dias, como B. H. Roberts e Truman Madsen, as veem como seres individuais e eternos. Outros, como Joseph Fielding Smith e Bruce R. McConkie, falam em uma “substância” de inteligência que Deus organiza em indivíduos.

Para os autores, apenas a primeira visão isenta Deus de qualquer responsabilidade pelo caráter de cada um, e ela combina melhor com a ênfase das escrituras na identidade e na responsabilidade individuais. Eles citam “A Família: Proclamação ao Mundo”, segundo a qual o gênero é uma característica essencial da identidade pré-mortal, mortal e eterna.

Expiação
Arte de Yongsung Kim

Onde está a necessidade da Expiação

Na conclusão, Larsen e Wright resumem o argumento. Para quem aceita a visão clássica de Deus, a necessidade de uma expiação precisaria estar no próprio Deus, porque Ele seria o único ser que existe por si mesmo e o criador de tudo.

Nesse caso, o problema do mal não tem solução e Deus não pode ser isento de responsabilidade. O livre-arbítrio libertário até atenua o problema, mas só funciona se for abandonada a onisciência divina, e mesmo assim cria outro, ao romper a ligação entre passado e presente e fazer do mal algo aleatório, pelo qual ninguém poderia ser responsabilizado.

Esses problemas desaparecem, dizem os autores, se aceitamos a teologia dos santos dos últimos dias na sua forma mais convincente: a criação do nada é rejeitada, existem bilhões de seres que existem por si mesmos e a lei é, em grande parte, natural, e não apenas decretada.

Além disso, a necessidade da Expiação está nos próprios seres humanos, e não em Deus, mas é Deus quem, por Sua graça, a providencia por meio de Jesus Cristo e torna a exaltação possível. A ligação entre passado e presente é restaurada, junto com a responsabilidade moral. A culpa pelo mal pode ser atribuída aos seres humanos, e não a Deus.

Fica uma pergunta em aberto, que os próprios autores reconhecem: como seres que existem por si mesmos e não mudam podem ser salvos do mal pelo qual são responsáveis e do inferno que eles mesmos criam? Larsen e Wright prometem tratar do tema em um próximo artigo sobre a teoria da Expiação.

Enquanto isso, o texto deixa uma esperança para quem enfrenta a dor. Haverá perdas e tristezas, e os autores não as minimizam. Mas, como escreveu o apóstolo Paulo, nada poderá nos separar “do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Romanos 8:38–39). Para os fiéis que são redimidos e voltam a viver com os Pais Celestiais e com Cristo, a história termina bem. Os autores a chamam de uma comédia, no sentido clássico de ter um final feliz.

Veja também