Um homem chamado Leí sai de casa, em Jerusalém, para viver “em uma tenda” no deserto (1 Néfi 2:15). É uma das primeiras cenas do Livro de Mórmon, e a maioria dos leitores passa direto por ela sem se fazer uma pergunta simples: por que um descendente de Manassés, uma tribo do Reino do Norte, Israel, estava morando na capital do Reino do Sul, Judá, um lugar que não era, a rigor, o território da sua própria tribo?
A resposta não está em Néfi. Está escondida três séculos antes da família de Leí deixar Jerusalém em 2 Crônicas 14–20.
Duas nações que já foram uma só
Depois da morte de Salomão, o reino unido de Israel se rachou em dois (1 Reis 12). No norte, ficaram dez tribos, incluindo Efraim e Manassés, os dois filhos de José, abençoados por Jacó em Gênesis 48 e 49 para “crescerem em multidão no meio da terra”. No sul, restaram principalmente Judá e Benjamim, com Jerusalém como capital.
Por quase dois séculos, essas duas nações irmãs viveram separadas, às vezes em guerra entre si. E é exatamente nesse pano de fundo político que 2 Crônicas 14–20 se passa: os reinados de Asa e de seu filho Josafá, reis de Judá que tentaram, cada um a seu modo, reconduzir o povo de volta à aliança com o Senhor.
É no meio do reinado de Asa que aparece o versículo-chave. Depois que o profeta Azarias exorta o rei a se firmar no Senhor, Asa remove os ídolos do reino e reúne o povo em Jerusalém para renovar a aliança. E então o texto registra algo que parece um detalhe administrativo, mas não é:
“E ajuntou a todo o Judá e Benjamim, e com eles os estrangeiros de Efraim, e de Manassés, e de Simeão; porque a ele se passaram muitos de Israel, vendo que o Senhor seu Deus era com ele” (2 Crônicas 15:9).
Em outras palavras: quando as pessoas do Reino do Norte viram que Deus estava abençoando Judá sob Asa, elas começaram a migrar para o sul. Um segundo movimento migratório, ainda maior, aconteceria décadas mais tarde, quando a Assíria destruiu o Reino do Norte por completo, em 722 a.C., espalhando ou absorvendo as chamadas “dez tribos perdidas”, mas empurrando também um contingente significativo de refugiados para dentro das fronteiras de Judá.
Os manuais de apoio ao estudo das escrituras publicados pela Igreja tratam esse detalhe como algo mais do que curiosidade histórica. Segundo o Auxílios de Estudo: Velho Testamento,
“(…) durante o reinado do rei Asa, muitas pessoas das tribos do norte se mudaram para Judá quando viram que o Senhor estava com Asa e seu povo. Outra migração em grande escala ocorreu depois que a Assíria conquistou o reino do norte em 722 a.C. Como resultado, uma grande população de pessoas das tribos do norte residia no reino do sul. O profeta Leí, do Livro de Mórmon, membro da tribo de Manassés, tinha antepassados das tribos do norte que em algum momento se mudaram para o reino do sul.”.

Leí, um “manassita” na cidade errada, ou não?
É aqui que a peça se encaixa. O Livro de Mórmon afirma explicitamente que Leí era descendente de Manassés (Alma 10:3) e que sua família “habitara em Jerusalém em todos os seus dias” (1 Néfi 1:4). À primeira vista, isso soa estranho: por que um manassita nasceria e cresceria fora do território histórico da sua própria tribo?
A resposta que os manuais oficiais da Igreja apontam é justamente essa onda de migração descrita em 2 Crônicas 15, e reforçada mais tarde, em 2 Crônicas 30, quando o rei Ezequias convida os remanescentes das tribos do norte a subirem a Jerusalém para celebrar a Páscoa. Gerações antes de Leí nascer, seus antepassados manassitas deixaram o Reino do Norte e se estabeleceram em Judá, tornando-se, na prática, cidadãos de Jerusalém, sem deixar de carregar sua identidade tribal original.
Isso também explica outro detalhe do início do Livro de Mórmon que costuma passar despercebido: Ismael, cuja família se junta à de Leí no deserto, era da tribo de Efraim, a tribo “irmã” de Manassés, já que ambas descendem de José. O Livro de Mórmon — Manual do Aluno registra um ensinamento do élder Erastus Snow, do Quórum dos Doze Apóstolos, sobre esse ponto:
“(…) quando estudou os registros de seus antepassados escritos nas placas de latão, Leí ficou sabendo que era da linhagem de Manassés (…) mas que Ismael era da linhagem de Efraim e que seus filhos se casaram com as filhas de Leí, e os filhos de Leí casaram-se com as filhas de Ismael, cumprindo assim as palavras ditas por Jacó com referência a Efraim e Manassés no capítulo 48 de Gênesis.”
Ou seja: dois descendentes de José, Efraim e Manassés, separados havia séculos das terras do norte, se reencontram no deserto da Arábia e seguem juntos para o continente americano, onde “crescem em multidão”, exatamente como Jacó havia profetizado. É a mesma bênção patriarcal do livro de Gênesis se cumprindo, em duas famílias que ninguém em Jerusalém, em 600 a.C., associaria a uma promessa feita mil anos antes.
Por que isso importa além da curiosidade histórica
Esse fio de continuidade entre 2 Crônicas e o Livro de Mórmon não é um detalhe genealógico qualquer. Ele mostra algo que as escrituras repetem sob formas diferentes: Deus preserva, através de movimentos históricos que parecem puramente políticos, guerras, invasões, migrações forçadas, as linhas de uma promessa que só faz sentido gerações depois.
Ninguém em Judá, vendo refugiados manassitas chegando após a queda do Reino do Norte, imaginaria que dentro daquela leva estava a futura família de um profeta que levaria as escrituras para outro continente.
Essa mesma ideia é o centro do que o presidente Russell M. Nelson tem ensinado sobre a coligação de Israel nos dias de hoje. Em um discurso dirigido à juventude da Igreja, ele declarou:
“O Senhor está apressando Sua obra para coligar Israel. Essa coligação é a coisa mais importante que está acontecendo na Terra hoje em dia. Nada se compara em grandeza, em importância e em majestade. E se vocês escolherem, se desejarem, podem ser parte essencial dela. Vocês podem fazer parte de algo grande, importante e majestoso!”.
O padrão de 2 Crônicas 15 e 30, pessoas espalhadas sendo reunidas, tribos separadas se reencontrando, uma promessa antiga sendo cumprida através de eventos que pareciam apenas história política, é o mesmo padrão que a Igreja ensina estar em curso hoje, por meio do trabalho missionário, da história familiar e das ordenanças do templo.

O que isso pode significar para você
Quando você lê sua própria bênção patriarcal, ou pesquisa sua genealogia, está participando do mesmo tipo de história que começou, com os decendentes de Manassés cruzando a fronteira para Judá porque “viram que o Senhor era com Asa”.
Você provavelmente não vai ver o resultado completo dessa continuidade na sua própria vida, assim como ninguém em Jerusalém, no tempo de Asa, poderia prever que aquele movimento migratório desembocaria, séculos depois, num profeta chamado Leí. Mas o padrão das escrituras sugere que os detalhes que parecem irrelevantes hoje, uma mudança de cidade, uma decisão de fé, um nome de tribo quase esquecido, costumam ser exatamente onde Deus está trabalhando.
Da próxima vez que ler 2 Crônicas 15:9 ou o começo de 1 Néfi, vale a pena lembrar desse detalhe. Ele é um lembrete de que a mão do Senhor frequentemente se move por trás de eventos que, no momento em que acontecem, parecem apenas notícias de política regional, e não o início de uma das histórias mais importantes já contadas.
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