Para quem pratica uma fé, a roupa sagrada costuma ser algo muito pessoal e profundo. Por isso, merece respeito, seja qual for a religião. Entender o que ela significa para quem a usa é um bom primeiro passo para conviver melhor com as diferenças.

Estudar a vestimenta sagrada do templo dos santos dos últimos dias pode despertar gratidão por essas roupas e também a vontade de conhecer as vestes sagradas de outras religiões. Quem faz esse exercício descobre muita coisa surpreendentemente familiar e bem diferente.

Zoroastrismo

Quem entra formalmente na fé zoroastrista passa por uma lavagem ritual, se arrepende dos pecados e, em um templo zoroastrista, recebe uma peça branca de roupa de baixo chamada sudra.

Essa camisa sagrada é considerada um escudo espiritual contra o mal e deve ser usada a vida inteira. O branco representa pureza.

Na frente, há um pequeno bolso que lembra quem a veste de encher a vida de bons pensamentos, boas palavras e boas ações, um dos princípios centrais do zoroastrismo. Os fiéis também recebem um cordão sagrado, o kushti, amarrado na cintura e enrolado três vezes, de novo representando bons pensamentos, palavras e ações.

Catolicismo

Quem serve na liturgia católica pode usar a alva, uma peça branca que representa a igualdade no batismo e a purificação por meio da Expiação de Jesus Cristo.

Padres e bispos usam ainda a estola, que representa a autoridade e o jugo de Cristo, e a casula, uma peça parecida com um poncho, que vem em muitos estilos e representa, entre outras coisas, a caridade.

Há ainda o pálio, que só o papa e os arcebispos podem usar. Feito de lã de cordeiro, ele lembra a imagem de Cristo, o Bom Pastor, com uma ovelha sobre os ombros, e representa o dever do papa de pastorear a Igreja Católica.

Siquismo

Existem cerca de 30 milhões de siques no mundo. Quem é iniciado formalmente na fé, na cerimônia chamada Amrit Sanchar, se compromete a observar por toda a vida os cinco Ks do siquismo: kesh, kangha, kara, kirpan e kachera.

O kesh é deixar o cabelo crescer naturalmente, sem cortá-lo, geralmente coberto por um turbante. É um marcador de identidade e demonstra respeito pelas criações de Deus. O kangha é um pequeno pente de madeira para cuidar do cabelo longo e simboliza limpeza e disciplina.

O kirpan é uma pequena espada ou adaga que simboliza coragem, justiça e a defesa dos indefesos. É considerado um instrumento de não violência, a ser usado só como último recurso para proteger outras pessoas, nunca como arma de agressão.

O kara é um bracelete redondo de ferro que significa a unicidade e a eternidade de Deus e o compromisso de usar as mãos em benefício da humanidade. O kachera é uma roupa de baixo parecida com uma boxer, com cordão na cintura, usada por toda a vida e que serve de lembrete para controlar os desejos sexuais.

Jainismo e xintoísmo

O jainismo tem cerca de seis milhões de seguidores, principalmente na Índia, e duas tradições principais: a digambara, dos monges “vestidos de céu”, e a svetambara, de monges e monjas “vestidos de branco”. Cada grupo tem sua própria veste sagrada, ou a ausência dela.

Os monges “vestidos de céu” não usam absolutamente nada, e a nudez representa a dedicação total ao desapego das coisas do mundo. Os monges e monjas svetambara usam vestes brancas, que funcionam como marcador de identidade, como a plaqueta dos missionários santos dos últimos dias, e também refletem o desapego pela simplicidade.

Os jainistas são muito dedicados à não violência, a ahimsa. Os ortodoxos são vegetarianos. Muitos monges e monjas varrem o chão à frente para não pisar em insetos, e muitos usam um pano na boca para não inalar insetos nem ferir organismos microscópicos com a respiração. Para muitos, o pano também lembra de cuidar das palavras, que igualmente podem machucar. Mesmo quem acha a prática dos insetos exagerada pode admirar o princípio que eles tentam viver.

No xintoísmo, a religião tradicional do Japão, sacerdotes e sacerdotisas usam vestes brancas nos rituais realizados nos santuários, e o branco representa pureza espiritual. Peças mais coloridas são usadas conforme a ocasião, o posto, a idade e até a estação do ano.

Os sacerdotes carregam um bastão chamado shaku, que antes guardava anotações para ajudá-los nos rituais e hoje faz parte do traje formal. Também usam tamancos cerimoniais e, dependendo do ritual, vários tipos de chapéu. Essas peças vêm de tradições antigas e indicam que o que acontece no ritual não é comum: o sacerdote faz a mediação entre os seres humanos e os kami, os espíritos associados ao santuário.

Os santuários são supervisionados pela Associação de Santuários Xintoístas do Japão, mas o xintoísmo não tem uma hierarquia central de autoridade doutrinária, como o papa no catolicismo ou o presidente da Igreja na fé dos santos dos últimos dias. Por isso, nunca há uma conferência geral no xintoísmo. A adoração é muito local, guiada pela liderança de cada santuário.

Judaísmo

No judaísmo, o solidéu se chama kipá e é usado pelos homens por toda a vida, como sinal de respeito e reverência a Deus durante as orações da manhã e em outras ocasiões. Também se vê o xale de oração sagrado, o tallit gadol.

Há ainda uma peça que os homens judeus costumam usar por baixo da roupa: o tallit katan, ou “tallit pequeno”. É uma camiseta branca com franjas chamadas tzitzit, que lembram quem a veste de guardar os mandamentos de Deus.

Nas orações da manhã durante a semana, os homens também usam os tefilin, duas caixinhas pretas com escrituras em hebraico, amarradas ao braço e à cabeça, uma forma de se ligarem simbolicamente a Deus. Em algumas tradições judaicas, as mulheres também usam essas peças, mas geralmente a expectativa é para os homens.

O que o estudo ensina

Ao conhecer essas outras fés, algumas lições se destacam. A primeira é que a roupa religiosa torna visível uma crença invisível, como uma parábola que a pessoa veste. Cristo ensinava por parábolas para que quem tinha ouvidos para ouvir e olhos para ver entendesse o significado e colhesse os benefícios. Quem não fazia o esforço de entender só ouvia Jesus contar histórias esquisitas.

É fácil olhar para uma veste sagrada e achá-la estranha ou “de seita”, sobretudo numa cultura em que a roupa religiosa do dia a dia é rara. Mas estudar essas tradições amplia a visão e mostra que o mundo é maior que a nossa bolha ocidental. Também aumenta a gratidão pela vestimenta sagrada dos santos dos últimos dias.

Os santos dos últimos dias que receberam a investidura no templo usam a veste do santo sacerdócio a vida inteira, como lembrete dos convênios e de que estão cobertos pela graça de Jesus Cristo. Nas cerimônias do templo, vestem as vestes do santo sacerdócio, que de muitas maneiras espelham o estilo e o simbolismo das vestes do sumo sacerdote no templo do antigo Israel.

Sempre haverá quem use apelidos pejorativos para a veste sagrada do templo, assim como as pessoas inventam termos depreciativos para a roupa religiosa dos outros. Mas vivemos num mundo plural. Mesmo sem concordar com muitas das crenças dessas religiões, não é difícil ver e valorizar o bem que vem delas: o foco dos zoroastristas em bons pensamentos, palavras e ações, a defesa dos indefesos pelos siques, o esforço dos líderes católicos de pastorear como Cristo faria.

Todas essas tradições têm suas polêmicas e capítulos difíceis na história. Ainda assim, Deus fala com as pessoas do mundo todo de acordo com a língua e o entendimento delas, e age na vida de todos. Tudo o que é bom vem Dele. Se a veste sagrada leva essas pessoas a fazer o bem e a ser boas, é de esperar que Deus aprove. E é assim que os santos dos últimos dias esperam que os outros olhem para a sua fé.

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