Nem sempre dá para ler tudo o que aparece como recurso nas aulas do Vem e Segue-Me. Muitas vezes, o tempo é curto e o estudo acaba ficando mais concentrado nas escrituras e no texto do próprio manual. Mas, naquele dia, enquanto estudava a primeira lição do ano 2026 (Introdução ao Velho Testamento), aconteceu algo diferente.

Havia outros discursos sugeridos na aula, mas uma impressão bem clara me direcionou para um em específico: o discurso do Presidente Russell M. Nelson, “O convênio eterno” (2022). A sensação foi de que o Senhor queria que esse tema fosse visto com mais atenção por mim, especialmente o significado de se unir a Ele por meio de convênios.

Provavelmente eu já tinha assistido a esse discurso na Conferência; talvez até existam anotações antigas, feitas na época. Mas parecia que meu Pai Celestial tinha separado esse momento especial da minha vida para compreender um pouco mais.

Hesed em hebraico

A palavra que não se deixa traduzir tão fácil

Em um trecho, o Presidente Nelson ensina que, ao fazermos convênios com o Senhor, passamos a ter acesso a um tipo especial de amor e misericórdia, um amor com nome em hebraico: hesed (חֶסֶד). Aquilo ficou ecoando na minha mente, como quando uma palavra se recusa a ser só uma palavra. E trabalhar com tradução tem esse efeito: quando alguém diz que um termo não tem equivalente adequado em outro idioma, a atenção muda de lugar na hora. Não é só curiosidade; é como perceber que aquela palavra carrega uma ideia grande demais para caber nas traduções comuns.

O Presidente Nelson descreve exatamente isso: hesed não encontra um equivalente perfeito em inglês. Tradutores tentam se aproximar com palavras como “bondade”, “misericórdia”, “benignidade”, mas o sentido completo parece escapar. E o mais marcante é que não se trata apenas de um sentimento bonito; trata-se do nosso relacionamento com o Pai.

Hesed: amor que nasce do convênio

Hesed aparece como um amor e uma misericórdia próprios de um convênio — um vínculo em que há lealdade e fidelidade entre as partes. Uma frase, em especial, me marcou: “Uma vez que tivermos feito um convênio com Deus, nosso relacionamento com Ele”. Isso muda a forma de enxergar o caminho do convênio, porque não fala apenas de promessas futuras, mas de uma proximidade real, presente, que altera a “distância” do coração.”

O Presidente Nelson também ensina que esse vínculo não é frágil. Por causa do convênio, Deus não abandona Seu relacionamento com aqueles que fizeram esse laço com Ele. Ele continua trabalhando, oferecendo oportunidades de mudança, perdoando quando há arrependimento e ajudando a reencontrar o caminho quando alguém se desvia. Em vez de um amor que oscila conforme o desempenho do dia, hesed aponta para um amor leal — um amor que sustenta o relacionamento. É incrível pensar que alguém nos ama tanto assim!

Uma pessoa ajudando outra.

Um amor que precisa ser compartilhado

Depois desse encontro com a palavra, a busca por entender melhor me levou a uma entrevista no canal do BYU Studies, com o professor Noel Reynolds. Ele explica que a língua inglesa (e boa parte do nosso jeito moderno de pensar) é moldada por uma visão mais individualista e baseada em contratos, o que torna difícil traduzir e captar tudo o que hesed carrega. No mundo bíblico, hesed pertence a sociedades organizadas por parentesco, por pertencimento, por família — e inclui não apenas quem nasce dentro, mas também quem entra por adoção, casamento, alianças. A ideia é de responsabilidades, direitos e deveres dentro de uma relação que faz alguém pertencer.

A explicação dele também traz um detalhe que dá vontade de voltar às escrituras com outros olhos: segundo o professor, o Livro de Mórmon é a escritura moderna que mais claramente ensina e reflete esse conceito de hesed — de forma até mais aberta e abrangente do que aquilo que está disponível na Bíblia.

Ele reconhece que existe um limite acadêmico, porque o Livro de Mórmon nos chegou em inglês, e sempre há uma “ponte” interpretativa quando se sai do hebraico para outra língua. Ainda assim, ele diz que muitos dos termos e ideias associados a hesed no Velho Testamento aparecem no Livro de Mórmon de um jeito que “salta aos olhos”, especialmente quando as passagens falam de convênios e das implicações desses convênios no relacionamento das pessoas entre si e com o Pai Celestial.

Foi importante ouvir ele mencionar que, se tivesse que indicar um lugar forte para começar, apontaria para o sermão do Rei Benjamim, justamente porque ali convênio não é tratado como algo distante, mas como algo que transforma o modo de viver, de enxergar o próximo e de assumir responsabilidade pelo bem-estar de irmãos e irmãs. Nesse sentido, hesed deixa de ser só uma palavra bonita e vira uma chave para entender por que o convênio sempre puxa o coração para fora do individualismo.

Essa visão iluminou o discurso do Presidente Nelson de um jeito especial. Se hesed está ligado a convênio e convênio está ligado a pertencimento, então o convênio não é apenas um compromisso “entre Deus e uma pessoa”. É também uma entrada em uma família, um povo, um relacionamento mais amplo. O próprio professor comenta que esse entendimento amplia as implicações: o convênio com o Pai Celestial também cria responsabilidade com os filhos e filhas Dele — cuidado, lealdade, compromisso real com o bem-estar de irmãos e irmãs.

Um padrão que pode ter passado despercebido

Vi que eu não fui a única a perceber que a mensagem do presidente Nelson carrega um significado mais amplo e que precisamos ter um olhar atento ao seu discurso para conseguir não só compreender o significado de uma palavra, mas de sentir o amor que o Senhor tem por nós.

A Emily Linder, com um tom leve e curioso, como alguém que percebe um padrão e começa a seguir as pistas, escreveu como o Presidente Nelson mencionou hesed em diferentes discursos e como a palavra, quanto mais estudada, mais parece fazer sentido. O que fica claro no texto é que hesed não é um detalhe de hebraico para colecionar; é uma verdade que muda o jeito de enxergar o relacionamento com Deus.

Ela reforça que hesed ajuda a entender por que o relacionamento se torna mais próximo por meio de convênios, porque Deus não desiste do Seu povo, e porque a coligação de Israel está tão ligada ao amor de convênio: Deus reúne porque ama com esse tipo de amor.

mulher partilhando do sacramento

O convite para continuar descobrindo

Aos poucos, hesed começou a soar menos como conceito e mais como uma lente. Uma lente para olhar para o arrependimento com mais esperança do que medo; para olhar para o sacramento como renovação de vínculo, e não só rotina; para olhar para o caminho do convênio como uma vida “unida”, na qual Deus insiste, guia, corrige com misericórdia e chama para mais perto. E também como lente para olhar para o próximo: se convênios têm cheiro de família, então a fidelidade ao Senhor inevitavelmente transborda em cuidado com as pessoas Dele.

Talvez hesed seja uma dessas palavras que não se entendem de uma vez só. Vai sendo reconhecida ao longo do caminho, em pequenos momentos: numa oração respondida com paciência, num recomeço possível, numa sensação de ser buscado em vez de descartado. E, no fundo, fica um convite simples, mas profundo: conhecer melhor esse amor que o Senhor oferece por convênio e desejar viver de um jeito que responda a ele com lealdade, fé e misericórdia.

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