“Se eu perdoar, quem vai responsabilizá-los?”
Provavelmente todos nós já tivemos esse pensamento, em algum momento, especialmente quando fomos feridos de forma profunda.
É uma pergunta honesta. Se eu perdoar quem me ofendeu, essa pessoa simplesmente escapa de qualquer responsabilidade? Se eu parar de exigir justiça, será que a justiça foi de alguma forma abandonada? Se eu perdoar, quem vai garantir que cada erro será corrigido?
O evangelho restaurado responde a essas preocupações com uma de suas doutrinas mais reconfortantes, e, às vezes, mais mal compreendidas. Depois de nos ordenar a perdoar, o Senhor nos diz imediatamente onde colocar o julgamento:
“E deveis dizer em vosso coração: deixa que Deus julgue entre mim e ti, e te recompense de acordo com teus atos” (Doutrina e Convênios 64:11).
Da mesma forma, o profeta Morôni, do Livro de Mórmon, declarou que nem a ele cabe julgar; “pois o juízo é meu, diz o Senhor, e minha também é a vingança, e eu recompensarei.”
O Senhor nunca nos pede para fingir que o mal não aconteceu. Ele nunca nos pede para desculpar o pecado ou ignorar a injustiça. Em vez disso, Ele nos pede para confiarmos a Ele aquilo que só Ele pode fazer. Perdoar não é abandonar a justiça, é colocar a justiça nas mãos do único Ser qualificado para administrá-la com perfeição.

Por que podemos confiar plenamente no julgamento de Cristo
Embora Sua divindade, por si só, já estabeleça Sua autoridade, as escrituras revelam por que podemos depositar total confiança em Seu julgamento. A lista de motivos é longa. Entre eles estão Sua nomeação divina, Seus atributos divinos, Sua vida perfeita e Sua Expiação infinita.
Juntos, esses atributos garantem que Seus julgamentos sejam perfeitamente justos, perfeitamente misericordiosos e baseados em um entendimento completo. Como nosso Redentor, Ele equilibra perfeitamente a justiça com a misericórdia, tendo pago o preço por nossos pecados e conhecendo intimamente nossos corações.
Na verdade, deveríamos querer que Jesus Cristo seja nosso Juiz. Não existe, em toda a existência, nenhum ser mais perfeitamente adequado para esse papel.
Ele é santo
Um motivo se destaca acima de todos os outros: Ele é santo.
O Livro de Mórmon ensina que, no Juízo Final, estaremos diante d'”o Santo”, para sermos julgados “de acordo com a verdade e a santidade que há nele” (2 Néfi 2:10). Não é interessante que, de todos os nomes e títulos dados a Jesus Cristo nas escrituras, o que mais se associa ao Seu papel de Juiz seja justamente “o Santo”?
Sobre esse título sagrado, o Élder Jeffrey R. Holland observou que, talvez mais do que qualquer outra palavra no vocabulário religioso, esse termo fala da essência espiritual de uma pessoa, praticamente sem levar em conta qualidades externas ou características temporais, e que Cristo foi, verdadeiramente, santo.
Cristo é sem pecado, puro e perfeito em cada atributo divino, bondade, empatia, justiça, generosidade, obediência, misericórdia e amor. Se pudéssemos escolher um único atributo para o nosso Juiz, não seria a santidade?
Sua santidade garante o equilíbrio perfeito de cada atributo necessário para proferir um julgamento completamente justo e perfeitamente correto. O Rei Benjamim ensinou que a Expiação de Cristo garante “que um juízo justo possa vir sobre os filhos dos homens” (Mosias 3:10).
Ele possui inteligência infinita
Outro motivo pelo qual podemos confiar plenamente no julgamento de Cristo é que Ele possui a maior inteligência que existe, com uma onisciência que abrange todas as coisas.
Todo juiz terreno precisa tomar decisões com informações incompletas. As provas costumam ser limitadas. As testemunhas esquecem. As motivações permanecem escondidas. O julgamento humano é limitado por um entendimento imperfeito. Até nossas melhores conclusões se baseiam em apenas uma fração daquilo que é, de fato, verdade.
Se você acompanha as notícias, sabe que a humanidade está à beira de avanços tecnológicos extraordinários. A inteligência artificial hoje responde perguntas incrivelmente complexas em segundos, usando informações que, de outra forma, levariam semanas ou até meses para serem reunidas e organizadas. Nos maravilhamos com sua velocidade e capacidade, e, com razão.
No entanto, por mais impressionantes que sejam essas tecnologias, elas empalidecem diante da inteligência e do poder infinitos de Jesus Cristo, o Santo de Israel. A computação quântica, mesmo sendo surpreendentemente rápida, ainda está limitada pelas leis da física e depende da engenhosidade humana. Uma futura “inteligência artificial geral”, caso um dia surja, também continuará limitada pelas restrições físicas da criação.
Em contraste, a inteligência de Cristo é ilimitada, eterna e existe por si mesma. Ele declarou: “Sou mais inteligente do que todos eles”, compreendendo “todas as coisas” sem limitação (Abraão 3:19). Alguns interpretam essa passagem como significando que Ele é mais inteligente do que todas as inteligências que existem na criação, somadas.
Como Criador de “mundos sem número”, Ele não apenas entende as leis do universo — Ele as estabeleceu. Sua onisciência O capacita a julgar com conhecimento perfeito de cada detalhe, cada motivação, cada circunstância e cada consequência. Ele conhece cada ato de bondade, cada luta escondida, cada tentação resistida, cada ato sincero de arrependimento e cada ferida que foi causada ou suportada.

Ele possui empatia perfeita
Talvez a maior qualificação de Cristo para ser nosso Juiz seja o fato de que, por meio de Sua Expiação infinita, Ele possui empatia perfeita. O Salvador não apenas sabe sobre o nosso sofrimento, Ele o experimentou.
O Élder David A. Bednar ensinou:
“Assim, o Salvador sofreu não apenas por nossos pecados e por nossas iniquidades — mas também por nossas angústias e dores físicas, nossas fraquezas e nossos defeitos, temores, nossas frustrações, decepções e nossos desânimos, pesares e remorsos, nosso desespero e nossa aflição, pelas injustiças e desigualdades que vivenciamos, e pelas perturbações emocionais que nos acometem.(…) E por causa de Seu infinito e eterno sacrifício (ver Alma 34:14), Ele tem perfeita empatia e pode estender para nós o Seu braço de misericórdia. Ele pode nos auxiliar, tocar, socorrer, curar e fortalecer para que sejamos mais do que jamais poderíamos ser e nos ajudar a fazer o que jamais poderíamos fazer se dependêssemos somente de nossa própria força. De fato, Seu jugo é suave e Seu fardo é leve.”
Jesus Cristo conhece cada experiência que moldou sua vida. Ele entende cada decepção, cada injustiça, cada tentação, cada tristeza e cada fraqueza. Ele sabe não apenas o que você fez, mas o que você sentiu. Ele entende não apenas suas ações, mas suas intenções. Ele vê não apenas seus fracassos, mas seus desejos, suas lutas e seus esforços sinceros para se arrepender.
Nenhum juiz humano jamais teve esse tipo de entendimento.
Cada ofensa é, no fundo, uma ofensa contra Cristo
Há uma última verdade que torna possível perdoar os outros: qualquer ofensa cometida contra nós é, no fundo, uma ofensa contra Jesus Cristo.
Essa é uma doutrina profunda. Nossas ofensas não pertencem só a nós, elas também pertencem a Cristo. Fomos comprados por um preço. Por meio de Sua Expiação infinita, o Salvador já pagou o preço por cada erro e cada injustiça. É por isso que somente Ele pode, em última instância, perdoar o pecado.
O Salvador não é apenas nosso Juiz. Ele também é nosso Advogado e Mediador. Tendo já suportado as exigências da justiça, somente Ele tem o direito de estender misericórdia. Ele conhece cada injustiça cometida contra nós, cada tristeza que suportamos e cada consequência que se seguiu. Ele também conhece o coração de quem nos ofendeu, suas oportunidades, sua intenção, e se essa pessoa realmente se arrependeu.
Ninguém mais possui essa perspectiva completa.

“Alguém já pagou”
O Presidente Boyd K. Packer contou a experiência de uma mulher que havia sofrido um erro terrível. Consumida pela amargura, ela clamou em seu coração: “Alguém precisa pagar por esse erro terrível.” Imediatamente, veio a seu coração uma resposta: “Alguém já pagou.”
Essas quatro palavras capturam a essência da doutrina. O Salvador já pagou o preço infinito exigido para satisfazer a justiça, ao mesmo tempo em que estende misericórdia a toda alma arrependida. Por causa de Sua Expiação, nenhuma injustiça ficará sem resposta. Cada erro será tratado. Cada ato de arrependimento genuíno receberá misericórdia. Cada pecado não arrependido encontrará justiça perfeita.
Por isso podemos perdoar
É por isso que podemos perdoar. Não porque a justiça não importa, mas porque a justiça foi confiada ao único Ser capaz de administrá-la com perfeição. Podemos deixar de lado a amargura e o ressentimento com confiança, sabendo que Cristo, o Santo, vai administrar tanto a justiça perfeita quanto a misericórdia perfeita. Todos nós compareceremos diante de um Juiz perfeito, e devemos agradecer a Deus por isso.
Afinal, todos nós já não fizemos, em algum momento, o papel de quem erra? Quem, entre nós, pode dizer honestamente que nunca causou dor a outra pessoa? Quando nos pegamos buscando julgamento sobre alguém, seria bom lembrar que, em algum lugar, em algum momento, outra pessoa também pode estar buscando julgamento sobre nós.
Entender essa doutrina nos permite deixar ir. Podemos entregar nosso ressentimento e confiar que o Salvador vai administrar justiça perfeita, equilibrada com misericórdia perfeita, para realizar o maior bem eterno — e a maior bênção eterna possível, para cada um dos filhos de nosso Pai
Fonte: Meridian Magazine
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