Era de manhã cedo quando Pedro e os outros discípulos voltavam para a margem do Mar da Galileia depois de uma noite inteira sem pescar nada. Um homem estava em pé na praia e lhes disse para jogarem a rede para o outro lado do barco. A rede ficou tão cheia que mal conseguiam puxá-la. Foi nesse momento que João reconheceu o Senhor ressuscitado, e Pedro, sem esperar o barco atracar, se jogou na água.
Depois que jantaram juntos, Jesus olhou para Pedro e fez uma pergunta que, dois mil anos depois, ainda nos alcança: “Simão, filho de Jonas, amas-me mais do que estes?” (João 21:15). É uma pergunta simples na forma, mas impossível de responder sem antes examinar com honestidade o que ocupa o centro da nossa vida.
O que Jesus realmente estava perguntando
Não é difícil imaginar o peso daquele momento para Pedro. Ele havia negado o Senhor três vezes antes da crucificação, havia voltado a pescar depois da morte de Jesus, e agora estava diante do Cristo ressuscitado sendo chamado a uma espécie de prestação de contas, não punitiva, mas reveladora. A pergunta não era sobre o passado. Era sobre o que Pedro escolheria dali em diante.
Quando trazemos essa pergunta para hoje, ela ganha novos contornos. O “estes” que Jesus mencionava podia ser os outros discípulos, o barco, as redes, a vida familiar que Pedro havia deixado para trás. Para nós, esse “estes” pode ser a carreira que consome nossos melhores anos, a opinião das pessoas que amamos, o conforto que não queremos abrir mão, ou simplesmente a versão de nós mesmos que o mundo aprova. O Senhor pode estar perguntando sobre as muitas influências, positivas e negativas, que competem por nossa atenção e nosso tempo.
Moisés entendeu esse conflito antes de qualquer um. Quando conduzia Israel pelo deserto, seu objetivo maior não era apenas chegar à Terra Prometida, mas fazer com que um povo aprendesse, no meio da escassez, a colocar Deus em primeiro lugar: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder.” (Deuteronômio 6:5). Quatro décadas no deserto para compreender uma verdade: nenhuma conquista nessa vida é maior do que termos demonstrado amor ao Senhor enquanto aqui estamos.

O que amamos mais do que admitimos
Há períodos da vida em que, se Cristo nos fizesse essa pergunta, não saberíamos responder com convicção. Não necessariamente porque não acreditamos Nele, mas porque há coisas que priorizamos de forma consistente sem perceber, a agenda, a imagem que projetamos, a zona de conforto que defendemos com mais energia do que deveríamos. Muitas vezes não são coisas ruins. São coisas boas que foram ocupando, aos poucos, um lugar que não lhes pertence.
Esse talvez seja o aspecto mais traiçoeiro da pergunta de Cristo. Raramente deixamos de amá-Lo de uma vez. Perdemos esse amor gradualmente, substituição por substituição, até que um dia percebemos que O amamos, mas de longe. Alma, no Livro de Mórmon, fez uma pergunta que aponta exatamente para isso:
“Tendes-vos conservado inocentes diante de Deus? Poderíeis dizer, dentro de vós mesmos, se fôsseis chamados pela morte neste momento, que haveis sido suficientemente humildes?” (Alma 5:27).
Não é uma pergunta sobre comportamento religioso externo. É uma pergunta sobre o interior, sobre o que realmente governa nossas escolhas quando ninguém está olhando.
O apóstolo João escreveu que se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele (1 João 2:15). Isso não é uma condenação das bênçãos materiais, mas um alerta sobre hierarquia, sobre o que vem antes do quê.
O Élder M. Russell Ballard nos faz refletir que os funerais revelam essa hierarquia com uma honestidade que a vida cotidiana raramente permite. Ninguém fala do tamanho da casa ou das conquistas profissionais. O que as pessoas lembram com lágrimas nos olhos são os momentos de presença, de serviço, de amor. O que fica é o que foi construído para ficar.
O custo e a promessa de uma resposta honesta
Responder “sim” à pergunta de Cristo não é simples, e seria desonesto fingir que é. Amar o Senhor acima de tudo significa, em algum momento, escolher Seus mandamentos quando são inconvenientes, perdoar quando a mágoa é legítima, honrar compromissos quando ninguém perceberia se você não os fizesse, e abrir mão de versões de si mesmo que o mundo valoriza, mas que não cabem no discípulo que você está tentando ser. O próprio Salvador foi direto sobre isso:
“Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me” (Mateus 16:24).
Quando Pedro reconheceu o Senhor na margem, não ficou parado no barco calculando o que fazer. Simplesmente foi. E essa disposição, de mover-se na direção de Cristo sem esperar que tudo esteja resolvido primeiro, é o que transforma a pergunta do Senhor de uma exigência em um convite. A promessa é que quando genuinamente O colocamos em primeiro lugar, as outras coisas não desaparecem da nossa vida, mas encontram seu lugar correto dentro dela.
Depois que Pedro declarou seu amor, Jesus não o parabenizou. Disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas” (João 21:16).
Amar ao Senhor se traduz em serviço às pessoas ao nosso redor, no cotidiano mais ordinário. Como ensinou o rei Benjamim, quando estamos a serviço de nossos semelhantes, estamos a serviço de Deus (Mosias 2:17). O amor que declaramos tem que ter algum lugar para ir.
Então, o que você responderia se o Salvador te fizesse essa pergunta hoje, não a resposta que você acha que deveria dar, mas a resposta honesta, a que leva em conta o que de fato ocupou seu tempo e sua energia na última semana?
Pedro respondeu que sim e então foi viver essa resposta pelo resto da vida, com imperfeições, recuos e avanços. Talvez seja isso que o Senhor espera de nós também: não a perfeição da resposta, mas a sinceridade dela, e a disposição de continuar tentando.
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