No Livro de Mórmon, a expressão encontrada em Morôni 7:31, “(…) o ofício de seu ministério (…)”, oferece uma visão rica e pouco explorada sobre como os anjos atuam na obra de Deus. Proferida pelo profeta Mórmon e registrada por seu filho Morôni, essa expressão convida a uma reflexão cuidadosa sobre a natureza dos anjos, a autoridade do sacerdócio e a continuidade do serviço divino além da mortalidade.

À primeira vista, a formulação sugere estrutura e ordem. O termo “ofício” na teologia dos Santos dos Últimos Dias está intimamente associado à organização do sacerdócio. Ofícios como diácono, mestre, sacerdote, élder e sumo sacerdote indicam não apenas responsabilidade, mas autoridade, papéis específicos dentro da estrutura do reino de Deus.

Ao unir “ofício” com “ministério”, Mórmon parece descrever os anjos como atuando dentro de um sistema organizado e divinamente designado, em vez de agirem como mensageiros ocasionais e independentes.

Isso levanta uma pergunta importante: ser um anjo é, em si, um ofício do sacerdócio?

Embora a doutrina dos Santos dos Últimos Dias não defina explicitamente “anjo” como um ofício formal do sacerdócio como aqueles exercidos na mortalidade, ela apoia fortemente a ideia de que os anjos atuam sob a autoridade do sacerdócio. Doutrina e Convênios 129 e 130 ensinam que os anjos são seres ressuscitados ou espíritos dos justos aperfeiçoados, indivíduos que viveram (ou viverão) na Terra e fazem parte da família eterna de Deus.

Sua capacidade de ministrar não é aleatória; é autorizada. Nesse sentido, seu “ofício” pode não ser um ofício separado do sacerdócio, mas sim uma extensão ou função da autoridade do sacerdócio já obtida.

O Élder Dallin H. Oaks ensinou que o poder do sacerdócio é o poder de Deus delegado ao homem e que seus propósitos se estendem além da mortalidade. Se a autoridade do sacerdócio continua após a morte, e os Santos dos Últimos Dias acreditam que sim, então segue-se que indivíduos justos podem continuar a agir dentro dessa autoridade como anjos ministradores.

A expressão de Mórmon pode refletir essa continuidade: os anjos ministram porque são servos autorizados de Deus, operando dentro da mesma ordem divina que governa o sacerdócio na Terra.

Outra possibilidade é que “o ofício de seu ministério” se refira menos a um ofício específico do sacerdócio e mais a um papel ou encargo designado divinamente. Nessa visão, ser um anjo não está relacionado a possuir um título, mas a cumprir um chamado.

Assim como missionários são designados para pregar o evangelho na Terra, os anjos podem ser comissionados para ensinar, proteger, advertir ou consolar de acordo com a vontade de Deus. Seu “ofício” é sua designação, a esfera na qual trabalham.

Essa interpretação está alinhada com inúmeros relatos das escrituras. Anjos apareceram a Alma, o Filho, a Néfi, a Joseph Smith e a muitos outros, sempre com propósito e direção. Eles não agem por iniciativa própria, mas são enviados. O próprio Mórmon esclarece em Morôni 7:29 que os anjos falam pelo poder do Espírito Santo e declaram a palavra de Cristo. Seu ministério é consistente, intencional e governado por autoridade divina.

Uma mulher exercendo o ofício dos anjos.

Nossas irmãs, mães e esposas participariam da obra do Senhor como anjos?

A teologia dos Santos dos Últimos Dias oferece uma resposta esperançosa e inclusiva. Embora os ofícios do sacerdócio na mortalidade sejam exercidos por homens, as mulheres são participantes plenas na obra da salvação e recebem poder e autoridade por meio dos convênios do templo. O presidente Russell M. Nelson enfatizou que mulheres que recebem a investidura no templo recebem poder do sacerdócio e são parceiras essenciais na obra de Deus.

Não há base doutrinária para sugerir que as mulheres estejam excluídas de ministrar como anjos. De fato, muitos Santos dos Últimos Dias acreditam, e alguns relatam experiências, que entes queridos falecidos, incluindo mulheres, continuam a velar e ajudar familiares.

Embora essas experiências sejam frequentemente pessoais e não formalmente codificadas como doutrina, elas são consistentes com o entendimento mais amplo de que a obra de Deus envolve todos os Seus filhos.

Se os anjos são espíritos dos justos agindo sob direção divina, então mulheres fiéis naturalmente estariam incluídas entre eles. Seu ministério pode não ser rotulado com um ofício do sacerdócio como definido na mortalidade, mas ainda assim seria real, poderoso e essencial.

Sob essa perspectiva, “o ofício de seu ministério” abrange todos os que são chamados e autorizados por Deus a servir, independentemente do gênero.

Em última análise, a escolha de palavras de Mórmon enfatiza ordem, autoridade e propósito. Os anjos não são meramente simbólicos ou visitantes ocasionais; são participantes ativos na obra contínua de Deus. Seu ministério é estruturado, autorizado e constante.

Seja visto como uma extensão da autoridade do sacerdócio, uma designação divina ou ambos, seu “ofício” reflete o padrão de serviço organizado de Deus.

Para os Santos dos Últimos Dias, esse entendimento traz implicações reconfortantes. Ele sugere que a morte não encerra nossa capacidade de servir. Aqueles que são fiéis na mortalidade podem continuar seus trabalhos no mundo espiritual, participando da grande obra de redenção.

Também reforça a ideia de que o céu não é um lugar de descanso passivo, mas de envolvimento ativo e significativo nos propósitos de Deus.

Então, por que Mórmon escolheu essas palavras específicas?

Provavelmente porque ele entendia que os anjos não são seres aleatórios ou indefinidos. Eles pertencem a uma ordem divina. Têm papéis, responsabilidades e autoridade. Ao chamá-lo de “o ofício de seu ministério”, ele nos aponta para uma verdade mais profunda: a obra de Deus é organizada, eterna e inclusiva, e aqueles que estão dispostos a servi-Lo podem descobrir que suas oportunidades de fazê-lo se estendem muito além desta vida.

Fonte: Ask Gramps

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