“Quem te disse que estavas nu?” A pergunta que o Senhor faz a Adão logo depois da Queda (Gênesis 3:11) não é uma acusação. É um convite para examinar de onde veio a história que você está vivendo.

Porque, cedo ou tarde, alguém te contou uma história sobre o seu corpo, sobre o que ele significa, se é digno de confiança, se é motivo de vergonha ou de orgulho, e você provavelmente vem vivendo dentro dessa história há tanto tempo que nem percebe mais que ela é só uma entre várias possíveis. Hoje, basicamente três dessas histórias disputam espaço.

Cubra-se: a história de que você nasceu mau

A primeira história é a mais antiga e também a mais difícil de sobrepujar: “você nasceu mau”. Todo apetite do corpo é uma ameaça; todo desejo, uma batalha a ser vencida. Nessa visão, o mundo físico, incluindo o próprio corpo, é apenas uma sombra da realidade verdadeira, que só existe depois da morte. O corpo, então, vira um peso que te atrasa, algo que precisa ser dominado pela mente, nunca confiado.

O problema é que essa história cria uma barreira entre você e seu próprio corpo. Você aprende a desconfiar dele, a desejar que fosse diferente, ou simplesmente a rejeitá-lo. E, como o corpo naturalmente busca conexão com outros corpos, essa desconfiança se espalha também para as pessoas ao seu redor.

É comum, dentro dessa história, ouvir frases como “ela é a grande tentação” ou “ele não passa de um animal”, frases que soam normais justamente porque a história já justificou todas elas.

A passagem das escrituras mais citada para sustentar essa ideia, “o homem natural é inimigo de Deus” (Mosias 3:19), não é, lida por inteiro, uma condenação do corpo. O próprio versículo termina convidando a pessoa a se tornar “como uma criança, submissa, mansa, humilde”, não a odiar a própria carne.

O evangelho restaurado ensina exatamente o oposto dessa primeira história: o corpo não é inimigo da alma, ele é parte essencial dela. Como já ensinou o Élder Jeffrey R. Holland, citando a revelação de que “o espírito e o corpo são a alma do homem”, o corpo não deveria ser tratado como algo a ser superado, mas como algo a ser honrado.

Essa primeira história, quando levada ao extremo, gera vítimas, pessoas que aprenderam a odiar o próprio corpo e chegam a Deus já se sentindo culpadas por existir. E é justamente por causar tanto sofrimento que surge, em reação a ela, uma segunda história, que para muita gente é a primeira vez em que se sente verdadeiramente livre.

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Nada a esconder: a história de que você nasceu bom

A segunda história inverte completamente a primeira: você nasceu bom, e não pode ser outra coisa além de bom. Para quem cresceu com vergonha do próprio corpo, essa ideia soa como um alívio enorme, finalmente alguém diz “o problema nunca foi você”. Qualquer culpa que você sentiu foi imposta de fora: pela sociedade, por uma instituição, por alguém que queria te controlar. Já que você nasceu bom, tudo o que você escolhe fazer com o próprio corpo também é, por definição, bom, desde que seja verdadeiramente seu.

Essa ideia tem raízes filosóficas conhecidas: Jean-Jacques Rousseau argumentava que é a sociedade que corrompe as pessoas; Karl Marx, que a posição de classe determina quem você é; Herbert Marcuse chegou a dizer que até os próprios desejos são fabricados por um sistema. Em comum, os três concluem que tudo o que há de errado em você vem de fora, nunca de dentro.

É uma espécie de Éden secular, em que a serpente é o mundo, não a própria pessoa. Só que, ao contrário do que promete, essa história não liberta: ela isola. Se a bondade é um direito de nascença e a corrupção sempre vem de fora, o autoexame deixa de fazer sentido, e o eu passa a girar indefinidamente em torno de si mesmo.

O presidente Russell M. Nelson tratou diretamente dessa ideia no devocional mundial “Escolhas para a Eternidade”, de 2022: ensinou que a identidade de uma pessoa não é simplesmente aquilo que ela escolhe ser, e apontou três designações permanentes, filho ou filha de Deus, filho ou filha do convênio, discípulo de Jesus Cristo, que não deveriam ser substituídas nem ter sua prioridade disputada por nenhum outro rótulo.

Ainda assim, é fácil encontrar por aí frases como “ninguém tem o direito de me dizer quem eu sou” ou “você já é suficiente do jeito que é”. Não são só frases soltas, são expressões populares de uma tradição filosófica séria, e por isso merecem ser respondidas com seriedade, não descartadas de raiz.

O problema dessa segunda história é simples de perceber: ela é solitária. Ao tentar se libertar de tudo, a pessoa acaba se libertando de todo mundo. E, no fim, quem odeia o próprio corpo e quem cultua a autoexpressão a qualquer custo podem chegar ao mesmo lugar: sozinhos, com uma identidade que nunca parece encaixar direito.

Vestido por Outro: a história de que você nasceu inocente

Repare que as duas primeiras histórias começam com um veredito. A terceira começa antes de qualquer veredito. O evangelho restaurado de Jesus Cristo ensina que você nasceu inocente, nem condenado como mau, nem fixado como bom, mas aberto, com potencial para as duas coisas. É justamente nessa abertura que mora o arbítrio.

Mórmon declarou com todas as letras que “as criancinhas são sãs, por serem incapazes de cometer pecado” (Morôni 8:8), rejeitando de forma explícita a ideia de que alguém nasce sob condenação. Doutrina e Convênios reforça: “todo espírito de homem era inocente no princípio” (D&C 93:38). Você chega a este mundo sem nenhuma sentença contra si, apenas pronto para entrar em relacionamento, com Deus, com outras pessoas, com sua própria capacidade de escolher.

Isso não significa que o bem e o mal sejam relativos ou que dependam só de você descobrir sozinho o que é certo. Mórmon também ensinou que “o Espírito de Cristo é concedido a todos os homens, para que eles possam distinguir o bem do mal”, tudo o que convida a fazer o bem e a crer em Cristo vem de Deus; tudo o que persuade a fazer o mal e a negá-lo vem do adversário (Morôni 7:16–17). Essa Luz não serve só para ajudar você a escolher entre o bem e o mal, ela também aponta para os relacionamentos por meio dos quais essas escolhas te ajudam a se tornar plenamente quem você é.

Aleksandr Soljenítsin, que passou anos em um campo de trabalhos forçados soviético, descreveu isso de um jeito que poucos conseguiram igualar: escreveu que a linha que separa o bem do mal não passa entre nações, nem entre classes, nem entre partidos, mas atravessa o coração de cada ser humano, inclusive o seu. É uma linha que se desloca, e mesmo dentro dos corações mais dominados pelo mal resta um pequeno espaço de bondade preservado, assim como mesmo o melhor coração guarda um cantinho de mal ainda não arrancado.

É por causa dessa linha que nenhum relacionamento humano, por mais profundo que seja, consegue te mostrar tudo o que você é. Cada pessoa próxima de você revela uma parte de quem você é, mas só uma parte. Pense em um bom amigo: se ele desaparecesse da sua vida, você não perderia só a companhia dele, perderia também uma versão de você mesmo que só aparecia na presença dele. Ser conhecido por completo, em todas as suas partes, inclusive as que você mesmo ainda não descobriu, exige um relacionamento com Alguém de conhecimento completo.

O Élder D. Todd Christofferson ensinou algo parecido em outubro de 2022: que “É ao guardarmos esses convênios que obteremos o mais alto e profundo sentimento de inclusão.”. Ou seja, você não se encontra olhando só para dentro de si mesmo, mas sendo atraído para fora, para dentro de um relacionamento de convênio.

E é aí que a pergunta original ganha seu verdadeiro sentido. As folhas de figueira de Adão e Eva nunca foram só sobre nudez, eram sobre controle, sobre decidir o que Deus e os outros podiam ou não ver. Para receber a cobertura que Ele oferece, é preciso abrir mão desse controle: sair de trás da identidade que você mesmo construiu e ficar onde Adão e Eva ficaram, visto, vulnerável, esperando. O propósito de Deus nunca foi expor ou condenar, mas, como Ele mesmo declarou a Moisés, “levar a efeito a imortalidade e a vida eterna do homem” (Moisés 1:39).

Por isso a pergunta ainda ecoa, não como acusação nem como teste, mas como convite: quem te disse que estavas nu? De qual das três histórias você tem vivido, a que diz que você é quebrado, ou a que diz que você não precisa de ninguém? Nenhuma das duas é a história de Deus. A história dele é outra. Ela começa com inocência. Passa pelo convênio. E termina com você, vestido por Ele.

Fonte: Public Square

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