Uma das mais consolidadas ideias no pensamento científico atual, é aquela de que todo o universo se originou de uma grande explosão, conhecida como o Big Bang. E a maioria dos membros da igreja, ao se deparar com essa visão, tende a tomá-la como falsa, ou pelo ou menos a dar as costas para o assunto, tomando-o como sem solução. As linhas abaixo não têm como função apresentar o problema como resolvido, mas como conciliável com as revelações – tanto modernas quanto antigas – do evangelho de Jesus Cristo.

1) A criação retratada nas escrituras se refere unicamente à criação desta terra.

Quando lemos sobre a criação nas escrituras¹, nenhum Big Bang é mencionado no ato criativo. Porém devemos lembrar que esse é um relato apenas dessa terra², como o Salvador Jesus Cristo (sob a presidência de Deus, O Pai) a preparou para nós. Os “céus” mencionados seriam provavelmente nossa atmosfera, e o modo como ela se desenvolveu para permitir a entrada de luz (1º dia da criação), a formação de nuvens de chuva (2ºdia da criação), e futuramente a maior transparência e visualização dos corpos celestes ao nosso redor (4ºdia da criação). O começo do universo como um todo e das diversas outras criações de Deus, portanto, foi um evento não-mencionado em detalhes nas escrituras. Ao entender que o universo como um todo não pode ter o começo representado no relato das escrituras, encerra-se também outro debate, acerca da idade do universo. As teorias cosmológicas mais recentes sugerem um universo com 13,7 bilhões de anos, enquanto a idade do planeta não está bem definida nas escrituras em si, e as interpretações feitas por algumas pessoas dos registros sagrados sugerem tempos inferiores a isso³. A Igreja não possui posição oficial sobre o assunto, entretanto, as interpretações mais aceitas em relação à idade do universo feitas por líderes da Igreja não entram em conflito com a idade do universo como um todo, tal como medida atualmente.

2) Matéria precisava ser produzida

Apesar de que o relato comumente lido em Português e em diversas línguas modernas seja o de que Deus CRIOU os céus e a terra, os estudos da bíblia em suas línguas originais feitos pelo profeta Joseph Smith, bem como sua visão inspirada a respeito do assunto, sugerem diferente. Do profeta, temos o seguinte:

“Se perguntardes aos cultos doutores que afirmam que o mundo foi feito do nada, responderão: ‘Acaso não diz a Bíblia que ele criou o mundo? ‘ Eles inferem do verbo criar que deve necessariamente ter sido feito do nada. Bem, a palavra criar provém do termo baurau, que não significa criar do nada; quer dizer organizar; a mesma coisa como se o homem organizasse materiais e construísse um navio. Dali, deduzimos que Deus dispunha de materiais para organizar o mundo dentre o caos – matéria caótica, que é elemento, e no qual habita toda a glória”.

Sabemos atualmente que os elementos pesados que constituem nosso planeta (tais como carbono, oxigênio, silício e enxofre) foram criados depois de reações extremamente energéticas no interior de estrelas que explodiram como supernovas. Esse foi um estágio de transformação, de organização da matéria que formaria a terra. Porém as partículas fundamentais que formam esses elementos, são imutáveis, caóticas até que sejam organizadas em estruturas mais complexas, como declarado pelo profeta.

O Big Bang nada mais nada menos diz que a matéria se originou em nosso universo a partir de um ponto extremamente denso, e daí em diante veio se expandindo e evoluindo em estruturas cada vez mais complexas (como estrelas e planetas). Tudo parece de acordo com a doutrina do evangelho, e nada parece indicar que esse não poderia ser o método do Senhor para geração dessa matéria caótica. Se esses elementos existiam antes de nosso universo5, é assunto para uma outra discussão, mas nosso entendimento atual parece sugerir que um possível estado anterior, não afetaria nosso universo.

3) Não há prova que algo foi feito do nada. 


Falando concretamente de fatos, a cosmologia foi capaz de avançar muito em nosso entendimento de como tudo começou. Porém por mais que os cosmólogos tenham progredido (chegando ao entendimento de frações de frações de segundo após a “explosão”), eles nunca chegaram concretamente a singularidade –  o ponto “onde tudo estaria no nada” (toda matéria concentrada em uma quantidade zero de espaço). A dificuldade e inconsistência em encontrar esse momento crucial, pode ser de fundamental importância –  um momento onde a presença de Seres espirituais dotados de poder criativo pode ser totalmente aceitável.

4) Ambos são testemunhas de um ato criativo e se complementam.

Apesar de sabemos e testificarmos da grandiosidade do poder divino em criar e organizar todas as coisas, não sabemos exatamente o processo real usado por Ele para fazer isso. Em contrapartida, a teoria do Big Bang explica exatamente como tudo que conhecemos em todo o universo evoluiu de um ponto extremamente pesado, quente e denso, até o modo que está hoje. Porém quando estendemos as duas teorias da física mais promissoras – a gravitação segundo a teoria geral da relatividade, e a mecânica quântica –  as equações apenas voam pelos ares. Se pensarmos um pouco compreenderemos que ambas doutrinas – do evangelho e da ciência – atestam o ato criador, porém enquanto uma responde ‘como’, a outra diz ‘quem’.

A ciência não está buscando provas para as doutrinas religiosa. Tampouco a religião precisa das provas da ciência para regularizar sua certeza na existência e domínio de Deus. Porém Seu amor por nós faz com que Ele nos dê a conhecer alguns de seus mistérios. Muitos mistérios vêm por meio de suas escrituras, mas se é por meio da ciência, por que devemos recusar? A verdade é a verdade, quer venha da boca do profeta ou de um laboratório de física[8]. A obra de Deus é perfeita, e Ele tem seus meios de nos fazer saber sobre ela. Apesar de não conhecermos, e sabermos que nem chegaremos a conhecer todos os mistérios de Deus nesta vida (ou nem ao menos uma boa fração deles), resta a nós, como mortais e imperfeitos, aceitar e tentar compreender aquilo que nos é apresentado com alegria.

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NOTAS

[1] os registros nas escrituras que contém um retrato cronológico da criação encontram-se em Gênesis 1, Moisés 2 e Abraão 4;

[2] O Senhor fez um relato somente desta terra, Moisés 1:35;

[3] Mais detalhes sobre as três possíveis teorias que explicam a idade de nosso planetas, pode-se consultar “Velho Testamento, manual do aluno”, página 26, tópico (2-3).

[4] SMITH, J. “Ensinamentos, pp.341-42.

[5] A citação de Joseph Smith continua da seguinte maneira: O elemento existe, desde que ele próprio (Deus) existe. Os puros princípios de elemento são indestrutíveis; podem ser organizados, reorganizados, mas nunca destruídos. Não tiveram início e não poderão ter fim.” Isso, dentre outras citações sugere uma natureza eterna da matéria física.

[6] HAWKING, S. W. “Uma breve história do tempo”, pp. 20;

[7] SMITH, J. F. “Doutrinas de Salvação”, Volume I, pp. 82;

[8] Elder Russel M. Nelson, “Deixe sua fé transparecer”, A Liahona Abril de 2014.

Por Lukas Montenegro