Escondida num capítulo quase esquecido do Antigo Testamento está um dos retratos mais claros de Jesus Cristo já escritos, e é o retrato de uma mulher. Seu nome é Abigail. Ela viveu nos dias em que Davi era um fugitivo, ainda longe do trono, casada com um homem rico e durão chamado Nabal, tão tolo quanto era rico.
Os homens de Davi haviam protegido os rebanhos de Nabal durante toda a temporada e, quando pediram uma pequena gentileza em troca, Nabal respondeu com uma ofensa. Essa ofensa trouxe sobre toda a casa um Davi armado e furioso. Só Abigail enxergou o que estava por vir. O que ela fez na hora seguinte faz dessa mulher desconhecida de Carmelo um dos retratos mais fiéis de Cristo em todo o Antigo Testamento: Defensora, Intercessora, Pacificadora, Mediadora.
Uma coluna de quatrocentos homens armados descia pela região montanhosa ao sul de Hebrom, e cada espada entre eles havia sido prometida àquela casa até o amanhecer. Indo ao encontro deles desceu uma mulher num jumento, carregada de pão, vinho e carne preparada, indo direto em direção às espadas. Ela nada havia dito ao marido. O homem cuja vida ela arriscava a própria para salvar estava naquele momento bêbado à sua própria mesa. É uma das ironias mais antigas do pecado: o homem mais perto da morte é quase sempre o mais tranquilo.
Sabemos como ler uma cena dessas. Nos enxergamos como a mulher de bom senso, ou, no pior de nós mesmos, como o jovem capitão ressentido, carregando uma mágoa que qualquer um de nós sentiria. O único papel que nunca nos oferecemos para fazer é o do tolo adormecido no banquete.
Queremos sempre ser o santo no vale ou o herói com a espada. Temos muita relutância em ser o idiota no jantar. No entanto, é esse o papel que as Escrituras escreveram mais perto de nós. A revelação nunca é tão direta quanto quando insiste em nos mostrar o papel que estamos realmente vivendo.
A história está em 1 Samuel 25, e seus três personagens se encaixam rapidamente. Davi foi ofendido. Havia protegido os rebanhos de Nabal durante toda a temporada, e sua recompensa foi um escárnio e a pergunta: “Quem é Davi?” (1 Samuel 25:10). Nabal é o culpado, e seu nome o diz. Significa “tolo” (1 Samuel 25:25). Entre o homem ofendido com uma espada e o tolo que mereceu o desastre cavalga Abigail, desarmada, pelo único caminho na direção contrária.
Guarde esses três na cabeça: o homem ofendido, o tolo culpado e a mulher que se coloca no meio. Faça isso, e o capítulo se abre em algo muito maior do que uma história de diplomacia inteligente. Abigail ocupa, uma a uma, as quatro funções que as Escrituras atribuem a Jesus Cristo. Ela as ocupa nessa ordem, e a ordem não é por acaso: a misericórdia começa falando e termina ficando. O Céu nunca é mais organizado do que quando a misericórdia se coloca entre dois insensatos.
A advogada
Um advogado é o defensor da causa. Ele se levanta diante do tribunal e defende uma causa que o acusado não pode defender por si mesmo. O Senhor assume esse título exatamente nesse sentido: “Ouvi aquele que é o advogado perante o Pai, que está defendendo a vossa causa diante dele” (D&C 45:3).
Durante séculos, muito do ensino cristão imaginou a advocacia principalmente em termos jurídicos. Imaginamos Cristo nosso Advogado como um hábil advogado de defesa diante de um Juiz distante e punitivo, encontrando uma brecha técnica para nos manter fora do banco dos réus. Mas uma brecha é apenas um buraco, e nenhum homem jamais foi salvo ao cair por um.
Abigail não quer nada disso. Ela não finge que Nabal tem razão, porque não tem. Ela não diz que Davi não foi insultado, porque foi. Ela não inventa mérito no homem que está tentando salvar. Em vez disso, apela ao próprio caráter de Davi e ao tipo de rei que ele está prestes a se tornar, implorando-lhe que se poupe de um ato de sangue que carregaria pelo resto de seu reinado (1 Samuel 25:30–31). Ela não salvou apenas Nabal de Davi. Ela veio salvar a vida de um tolo. Ela salvou a alma de um rei.
Aqui está a lógica estranha da advocacia divina. O argumento nunca é o nosso mérito. O argumento é o caráter do Rei. O evangelho não diz que o homem é impressionante o suficiente para merecer o resgate. Diz que Deus é magnífico o suficiente para salvar. A coisa mais profunda não é um livro de contas equilibrado, mas um Pai que abre a porta e chama o filho pelo nome.
Quando Cristo defende nossa causa, Ele não realiza nenhuma manobra fria, e não é uma abstração. O Presidente Russell M. Nelson disse com clareza: “Não existe um ser sem forma chamado ‘a Expiação'”
Há uma Pessoa, e a Pessoa é a nossa cura (ver Alma 7:11-13; Mateus 4:23-24). Nosso Advogado olha além do fracasso do dia, nos chama pelo que éramos antes do fracasso e apela ao vínculo de um Pai amoroso. Nós nos apresentamos diante de Deus sem nenhum argumento que possa nos salvar. A maravilha do evangelho não é que nossa defesa seja inteligente, mas que nosso Advogado é perfeito.

A intercessora
A advocacia defende. A intercessão cura. A palavra soa como termo jurídico, mas sua raiz mais profunda está no quarto de doente, onde interceder é se colocar entre alguém e aquilo que o está matando. É o segundo ofício, e o mais difícil dos dois. Abigail diz as palavras que deveriam parar qualquer leitor que sabe para onde a história está indo: “Sobre mim, meu senhor, sobre mim seja esta iniquidade” (1 Samuel 25:24).
Em seu próprio tempo, a frase era uma cortesia da corte, a maneira de um peticionário de reunir a culpa sobre si mesmo. No entanto, as palavras alcançam mais longe do que ela sabe, como as melhores palavras das Escrituras frequentemente fazem.
Muito do ensinamento cristão ouviu essas palavras através da lente da retribuição. Um crime requer um peso igual de sofrimento. Uma penalidade deve ser extraída. Alguém deve ser cortado para que outro possa ficar livre. Nessa leitura, a tarefa de Abigail seria receber a lâmina de Davi no lugar de Nabal.
O Evangelho Restaurado convida a outra compreensão. O Livro de Mórmon retrata repetidamente nossa crise mais profunda como culpa e ferida juntas. O pecado é menos um delito esperando seu executor do que uma praga esperando seu Médico. A justiça nomeia o que está quebrado. Só o amor o cura. Quando Alma raciocina sobre a justiça, ele a chama de “lei da restauração”, não de um apetite divino por punição. A misericórdia não mente para a ferida. Ela a fecha.
Assim, Abigail oferece a substituição mais cara. Ela não está comprando a punição de Nabal por um preço fixo, um corpo por outro. Ela simplesmente se coloca na porta que a tolice dele escancarou e recebe a tempestade destinada a toda a casa.
Aqui o tipo se rompe, e a ruptura é a lição. Abigail se oferece, e a espada nunca cai sobre ela. Ela é poupada. Quando o Salvador se ajoelhou em Seu próprio jardim e pediu que o cálice passasse, o cálice não passou (Mateus 26:39).
Abigail podia dizer “sobre mim” e voltar para casa ilesa. Cristo disse e suportou. Ele entrou na brecha para carregar toda a ruína sangrenta da mortalidade, a dor e o pecado. Ele ergueu nossas iniquidades não como uma multa paga sobre um balcão, mas como o ato de um Médico, restauração carregada no corpo. A sombra mostra a forma. Somente a substância sangrou. A sombra pode esboçar a cruz. Somente Cristo pode carregá-la.
A pacificadora
Repare no que ela está montada. Não um cavalo de guerra. Um jumento, o animal que o profeta mais tarde colocaria sob o rei que vem em paz e não em conquista (Zacarias 9:9). Séculos depois, outro Cavaleiro escolheria o mesmo animal humilde para Seu caminho a Jerusalém antes da Paixão (Mateus 21:5). Em seu próprio capítulo, o jumento é apenas o que todos montavam. Lido à luz de Zacarias, torna-se um sermão debaixo dela. O Senhor tem um jeito de colocar Suas mais grandiosas repreensões à violência nas costas do animal mais pouco militar da aldeia.
Nicholas Wolterstorff observa que parecemos condicionados, pelo sangue e pelo costume, a ansiar por retribuição, e que nossas histórias mais antigas se deleitam na punição do ímpio. Davi, sedento de vingança, já cavalgava dentro desse antigo apetite. Os ensinamentos de Jesus vão atrás do próprio apetite. Abigail é uma pacificadora porque quebra a roda da retaliação onde ela gira.
Uma trégua encerra uma briga. A paz conserta um laço. Uma apenas impede o golpe. A outra cura a mão que desejou ferir. Quando Davi a abençoou, ele nomeou exatamente o que ela havia feito. Seu conselho, ele disse, “me impediu hoje de derramar sangue e de vingar-me com minha própria mão” (1 Samuel 25:33). Ela deteve uma chacina e devolveu a um homem o seu melhor eu. Essa é a estranha misericórdia do pacificador: o pacificador salva o ferido ao salvar primeiro o culpado.
O trabalho vai mais fundo do que a diplomacia, chegando ao que salvação significa. A palavra do Novo Testamento frequentemente traduzida como “salvar”, sōzō, carrega em seus próprios ossos o sentido de curar e tornar inteiro. Com frequência demais, a salvação foi ouvida apenas em termos jurídicos, como se a alma fosse resgatada apenas de um veredicto.
Mas a palavra antiga pertence também à sala de doentes. Abigail faz uma obra de sōzō. Ela é uma médica de almas, tratando uma febre de ira antes que ela possa matar os inocentes. É o ofício que Isaías previu quando saudou o Senhor vindouro como “Príncipe da Paz” (Isaías 9:6), e a obra que Paulo viu concluída quando Cristo, “havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz”, reuniu todas as coisas a Si mesmo (Colossenses 1:20).
A mediadora
Os três primeiros são atos. A mediação não é meramente uma ação. É uma relação que uma pessoa entra e sustenta. Este é o quarto ofício e o mais profundo, porque não termina quando a crise termina.
Observe como o capítulo se fecha. A ira foi desviada, a casa está segura e Nabal em breve morre. Então Davi manda buscar Abigail, ela vem, lava os pés dos seus servos e se torna sua esposa (1 Samuel 25:41–42). Ela não é mais uma estranha na disputa. Ela é reunida à casa do rei em direção ao qual outrora cavalhou como forasteira.
O padrão é o do próprio Senhor. Na noite antes de morrer, Ele lavou os pés de Seus apóstolos, e Ele está agora como “o mediador da nova aliança” (D&C 76:69; Hebreus 9:15). Há “um mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus” (1 Timóteo 2:5).
Na teologia Restaurada, a mediação não é mero recado vertical entre uma alma solitária e um céu distante. Ela tem um alcance lateral, uma ligação de vizinho a vizinho. A Expiação (em Inglês Atonement) é a-to-na-mento: o trabalho lento de emendar uma comunidade rasgada em um único tecido.
Um mediador não visita a brecha uma vez e vai para casa. Um mediador se torna a ponte, fixada em ambas as margens, pertencendo agora a cada uma. É por isso que a mediação é o ofício mais custoso dos quatro. Uma ponte existe para que outros a atravessem, e prova seu valor suportando peso. Abigail é reunida à casa do rei. Cristo está unido ao Pai e a nós ao mesmo tempo, e não será desunido.

O homem no banquete
Quatro funções, então, e uma única figura ocupando cada uma. O retrato está completo. O que sobra não é mais uma função, mas um espelho, e o rosto nele é aquele que evitamos olhar durante toda a história.
A história se recusa a ter um final feliz, e deveríamos ser gratos por isso. Abigail salvou a casa. Ela não salvou Nabal. Enquanto ela se ajoelhava no pó e gastava toda a sua coragem e inteligência por ele, ele festejava “como um banquete de rei”, e quando a manhã chegou e ele soube o que a misericórdia havia custado, “o seu coração ficou como pedra”. Dez dias depois, o Senhor o feriu (1 Samuel 25:36–38).
A mediação foi real, oferecida de graça, oferecida com risco. E o único homem que mais precisava dela dormiu durante tudo, acordou e endureceu o coração. Não há tolo mais trágico do que aquele que confunde ter sido poupado com estar seguro.
Quem pensa apenas em termos de punição pode ler a morte de Nabal como um raio certeiro, um juiz despachando um criminoso. A Restauração nos ensina a ler o julgamento de forma mais profunda. O último dia, ensinam os profetas modernos, é antes de tudo um dia de revelação de si mesmo.
Deus respeita nossas escolhas deixando o caminho que escolhemos chegar aonde sempre estava indo. O coração de pedra de Nabal não é o de um homem fulminado por capricho de um Deus irado. É o de um homem que foi se tornando pedra num ambiente de graça. A cura estava disponível, de graça, e foi oferecida a ele. Ele escolheu a pedra.
Por isso o retrato se sustenta, e se sustenta com uma precisão que preferiríamos que não tivesse. O Mediador intercede por todos, mas é recebido só por aqueles que estão dispostos a mudar. O homem natural não é um vilão de teatro nem uma maldição que recebemos de herança.
É o homem à mesa, alimentado por mãos que ele não alimentaria, sem nunca imaginar que a misericórdia de uma estranha é o único motivo pelo qual ele viu o dia amanhecer. É aquele que se tornou inimigo de Deus ao ceder a todo desejo, exceto ao do Espírito Santo (Mosias 3:19). É o rosto no espelho. É o que qualquer um de nós se torna quando confunde conforto com inocência e ser poupado com ser curado.
Nabal não morreu de fome por falta de pão. Ele morreu de fome à mesa cheia. O pão estava ali. O espanto diante da graça, não.¹⁰ Alguém desceu ao vale por aquele homem. Ele acordou, e não quis ser curado.
O jumento ainda está no caminho. Muito antes de carregar seu Cavaleiro subindo até Jerusalém, ele a havia carregado descendo em direção às espadas.
Fonte: Meridian Magazine
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