Quando Israel pediu um rei, não estava apenas mudando de forma de governo, estava trocando de Senhor. Em 1 Samuel 8, os anciãos vão até o profeta Samuel e exigem “um rei que nos julgue, como têm todas as nações”. A resposta do Senhor é uma das mais reveladoras das escrituras: “Não te têm rejeitado a ti, antes a mim me têm rejeitado, para eu não reinar sobre eles” (1 Samuel 8:7).

Deus já era o Rei de Israel. O pedido por um homem que ocupasse esse lugar foi, no fundo, uma rejeição do governo direto de Deus em favor de serem “como todas as nações”. O povo queria depositar sua confiança no braço da carne em vez de no Senhor.

Se Ele não queria reis, por que permitiu?

Aqui entra um princípio central do evangelho: Deus respeita o arbítrio mesmo quando a escolha não é a melhor. Ele instruiu Samuel a advertir o povo, descrevendo como o rei tomaria seus filhos, suas filhas, suas terras e seus rebanhos (1 Samuel 8:11–18), mas, depois da advertência, mandou: “Ouve a sua voz e constitui-lhes rei.” Deus não força a obediência.

O Élder D. Todd Christofferson ensinou que “somos seres morais e agentes de nós mesmos, livres para escolher, mas também responsáveis por nossas escolhas”. Israel teve essa liberdade, e Deus, fiel ao Seu próprio plano, honrou a escolha do povo, ainda que ela trouxesse consequências.

Que exemplo Saul e Davi deixaram?

Os dois primeiros reis ilustram caminhos opostos diante do mesmo dom do arbítrio. Saul começou humilde, mas, ao pecar, preocupou-se em justificar-se e em preservar sua imagem diante do povo. Davi, embora tenha cometido pecados graves, respondeu de modo diferente quando confrontado pelo profeta Natã: admitiu sua culpa sem desculpas. O Salmo 51 é o registro desse coração quebrantado, “Cria em mim, ó Deus, um coração puro”.

A revista Liahona destaca que esse salmo nos ensina que o arrependimento verdadeiro nasce de um “coração quebrantado e de um espírito reto”. O contraste é a lição: não é a ausência de erro que distingue os dois, mas a disposição de voltar-se a Deus.

Em um discurso na Universidade Brigham Young, o professor David McPherson lembra que Saul, ungido por Samuel, desobedeceu ao poupar os despojos que o Senhor mandara destruir, e ouviu do profeta: “Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar” (1 Samuel 15:22). McPherson observa que a justificativa de Saul, “temi o povo e dei ouvidos à sua voz” (1 Samuel 15:24), revela o cerne da questão: “as desculpas podem nos dar uma falsa sensação de retidão, mas não mudam o resultado”. A responsabilidade individual, ensina ele, é fator-chave de nossa capacidade de retornar à presença do Pai.

vinda de cristo

Davi: o paradoxo do “homem segundo o coração de Deus”

Nenhum personagem do Antigo Testamento condensa tantas tensões quanto Davi. Pastor que derrubou Golias, salmista, rei que unificou Israel, ele é chamado nas escrituras de “varão conforme o meu coração, que executará toda a minha vontade” (Atos 13:22).

O título não significa que Davi fosse perfeito, mas que, em seu melhor, dependia inteiramente de Deus, deixava-se corrigir pelos profetas e voltava-se ao Senhor de coração contrito. É por isso que seu arrependimento no Salmo 51 continua sendo, séculos depois, o modelo de como uma alma se reconcilia com Deus.

Mas a história de Davi também guarda a advertência mais séria das escrituras sobre o uso do arbítrio. Seu pecado com Bate-Seba e o assassínio premeditado de Urias não foram um tropeço qualquer. A revelação moderna ensina que, apesar de todo o seu arrependimento, Davi “caiu de sua exaltação” por causa desse ato (Doutrina e Convênios 132:39). O manual de estudo do Antigo Testamento detalha as consequências que recaíram sobre sua casa a partir de 2 Samuel 12.

Eis a lição mais delicada do arbítrio: o arrependimento de Davi era sincero e foi aceito o perdão, restaurou sua comunhão com Deus. Mas certas escolhas trazem perdas que o perdão não desfaz nesta vida. Davi ensina, assim, as duas faces do dom de escolher: a esperança de que sempre podemos retornar ao Senhor, e a gravidade de que nossas decisões têm peso eterno.

Como ensinou o professor David McPherson em discurso na BYU, “o Senhor não exige que entendamos, nem talvez que de início concordemos: o Senhor exige que obedeçamos”.

Onde o arbítrio entra nessa história? O arbítrio é o eixo de tudo. Deus permitiu reis porque o arbítrio é inegociável no Seu plano. Ele prefere um povo que aprenda pelas consequências de suas escolhas a um povo coagido à obediência.

Élder Christofferson explicou que o arbítrio moral é o que nos torna agentes capazes de agir, e não apenas objetos sobre os quais se age. Saul e Davi receberam o mesmo dom; o que diferiu foi o que fizeram com ele. A monarquia, portanto, não anulou o plano de Deus, tornou-se o palco onde o arbítrio humano foi posto à prova.

Ainda escolhemos reis no lugar de Deus?

Sim, e com frequência. Sempre que confiamos mais na aprovação social, no sucesso, na opinião pública ou em nossa própria vontade do que na vontade do Senhor, repetimos o pedido de Israel: queremos ser “como todas as nações”. O “rei” moderno pode ser a carreira, a imagem, o medo do julgamento alheio, qualquer coisa a quem entregamos o trono que pertence a Deus.

O que está em jogo em 1 Samuel 8 continua nos nossos dias. Quando o Senhor disse a Samuel “a mim me têm rejeitado, para eu não reinar sobre eles”, Ele expôs o coração e a real intenção do povo: não se tratava apenas de qual governo Israel teria, mas de quem reinaria sobre eles.

Essa mesma constatação se converte, para nós, em uma pergunta de aplicação pessoal: deixaremos que Deus reine sobre nós ou coroaremos substitutos no lugar que é Dele? O arbítrio que permitiu a Israel escolher um rei é o mesmo que nos permite, todos os dias, escolher a Deus e, como Davi, voltar a Ele de coração quebrantado quando erramos.

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