“Pois trabalhamos diligentemente para escrever, a fim de persuadir nossos filhos e também nossos irmãos a acreditarem em Cristo e a reconciliarem-se com Deus; pois sabemos que é pela graça que somos salvos, depois de tudo o que pudermos fazer.” 2 Néfi 25:23

O conhecimento

Em 2 Néfi 25:23, a afirmação de Néfi “é pela graça que somos salvos, depois de tudo o que pudermos fazer” é uma grande fonte de discussão entre os Santos dos Últimos Dias.

O professor da BYU Stephen Robinson explicou, “Esta escritura à primeira vista, sugere o pensamento de que a graça é oferecida a nós cronologicamente somente depois que tivermos terminado tudo o que pudermos fazer, mas isto é comprovadamente falso.”

O estudioso bíblico e Santo dos Últimos Dias, Joseph Spencer sugeriu que para que possamos entender Néfi nesse versículo, é importante notar que Néfi parece estar pegando emprestado as ideias de seu irmão Jacó.

Logo antes da inclusão de um bloco de escrituras de Isaías, Néfi enxertou em seus registros um discurso que Jacó deu aos nefitas (2Néfi 6-10).

Jacó explicou que “depois de vos reconciliardes com Deus, de que é somente na graça e pela graça de Deus que sois salvos” (2 Néfi 10:24).

Esses ensinamentos sobre a graça de Jacó e Néfi são similares em palavras. Na comparação das frases vemos que ambas apresentam a palavra “depois”, e afirmam que é pela graça de Deus que as pessoas são salvas.

É notável que ambas as passagens também mencionam a ideia de estar “reconciliado com Deus”, No entanto, na afirmação de Jacó, ele enfatiza fortemente que é somente através da graça que somos salvos.

A similaridade entre essas passagens sugere que Néfi estava repetindo os ensinamentos de Jacó sobre a graça de Deus como uma conclusão do bloco de passagens de Isaías.

Além disso, Benjamin Spackman, um estudioso da Igreja, argumentou que comparar essas duas passagens implica que a oração de Néfi “depois de tudo o que pudermos fazer” é um paralelo a frase de Jacó “depois de vos reconciliardes com Deus.”

A comparação sugere que estar reconciliado com Deus é tudo o que podemos fazer. Esta conclusão é apoiada por outras passagens no Livro de Mórmon, que apresentam a frase “tudo o que pudermos fazer”.

Por exemplo, em Alma 24:11 o rei do povo Ânti-Néfi-Leís, depois de sua conversa, clamou :

“Isto foi tudo que pudemos fazer para arrependermo-nos o suficiente perante Deus, a fim de que ele nos tirasse nossa mancha” (Alma 24:11).

Uma parte essencial da reconciliação com Deus e a aceitação de Sua graça, de acordo com o profeta Morôni, é participar do convênio de Deus. Morôni ensinou como podemos nos tornar perfeitos através da graça de Deus:

“Sim, vinde a Cristo, sede aperfeiçoados nele e negai-vos a toda iniquidade; e se vos negardes a toda iniquidade e amardes a Deus com todo o vosso poder, mente e força, então sua graça vos será suficiente; e por sua graça podeis ser perfeitos em Cristo; e se pela graça de Deus fordes perfeitos em Cristo, não podereis, de modo algum, negar o poder de Deus.” (Morôni 10:32).

De modo significante, nos versículos logo após este, Morôni mencionou “o convênio(s) do… Pai”. Ele declarou que é “por meio do derramamento do sangue de Cristo, que está no convênio do Pai… a fim de que vos torneis santos, sem mácula” (Morôni 10:33)

A graça Dele é suficiente para aquele que “desperta e [levanta] do pó” (versículo 31), e é suficiente para deixar de lado a impiedade, amar a Deus e escolher participar de Seu convênio.

O porque

É claro que o foco do ensinamento de Néfi em 2 Néfi 25:23, assim como o de Jacó em 2 Néfi 10:24, é um lembrete de que somos salvos através da graça de Deus.

Como Joseph Spencer concluiu, “A despeito do que realmente foi feito, a graça é o que salva e que se mantém como verdade mesmo depois de tudo o que foi feito.”

Se “tudo o pudermos fazer” é “se reconciliar com Deus”, então, como Ben Spackman notou, nós “nos comprometemos a fazer a vontade de Deus e a tentar mudar quando falhamos em fazê-lo”.

Ele também observou que essa interpretação das palavras de Néfi pode ser similar ao convênio do batismo.

Nós prometemos obedecer aos mandamentos de Deus, mas é a fidelidade de Deus ao convênio que valida a ordenança do batismo.

Néfi não estava discutindo sobre aquilo por causa da graça de Deus, não precisamos fazer nada – ele enfatiza a importância de seu povo guardar a Lei de Moises no versículo seguinte (2 Néfi25:24) – mas a ênfase neste versículo é a graça de Deus.

Spencer sugere que “é demonstravelmente falso que a graça é dada somente depois que fizermos tudo que está em nosso poder porque… tudo o que fazemos é através da vida que Deus, em seu amor e graça, nos ofereceu”.

Passagens adicionais do Livro de Mórmon apoiam essa conclusão. Mosias 2:21, por exemplo, descreve o Rei Benjamin ensinando a seu povo que Deus “vos criou desde o princípio e vos está preservando dia a dia, dando-vos alento para que possais viver, mover-vos e agir segundo vossa própria vontade; e até vos apoiando de momento a momento”.

É na luz de passagens como essa que o Élder Bruce C. Hafen afirmou:

“O dom da graça do Salvador para nós, não é necessariamente limitado ao ‘depois’ de tudo o que pudermos fazer. Podemos receber Sua graça antes, durante e depois de nossos próprios esforços.”

Fonte: Book of Mormon Central

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