Em 24 de julho de 1849, dois anos depois de a primeira companhia de pioneiros Santos dos Últimos Dias chegar ao Vale do Lago Salgado, os colonos de Utah se reuniram para celebrar o primeiro Dia dos Pioneiros da história. Entre os discursos daquele dia, o próprio pioneiro Thomas Bullock leu, depois da Declaração de Independência e da Constituição dos Estados Unidos, um poema de Parley P. Pratt chamado “The Mountain Standard”:
“Vede, entre estas montanhas rochosas, o estandarte de Sião, largamente desfraldado, muito acima da nascente do Missouri, eis que ele acena para o mundo inteiro.
Liberdade, paz e salvação plena são as bênçãos garantidas; liberdade para toda nação, toda língua e todo credo.“
O poema descrevia Deseret como um lugar de liberdade religiosa aberto a todos, não haveria “estrangeiro” em Deseret, apenas “um amigo, um irmão”. Mas a mensagem de Pratt também tinha um propósito bem prático: a imigração era essencial para o futuro de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias no Oeste americano. Sião precisava dos santos; os santos precisavam de Sião.

O fundo que resgatou milhares de Santos dos Últimos Dias
Dois meses depois daquele discurso, a ideia de Pratt ganhou forma institucional: em 6 de outubro de 1849, a Igreja organizou a Perpetual Emigrating Fund Company (PEF), um fundo rotativo de empréstimos que pagava antecipadamente a viagem de Santos dos Últimos Dias até Utah. O próprio Bullock atuou como escrivão do fundo, organizando minuciosamente a passagem de milhares de membros vindos de várias partes do mundo.
A Assembleia Geral do Estado de Deseret formalizou o PEF em setembro de 1850, com um propósito declarado tanto econômico quanto religioso: o novo estado precisava de trabalhadores, e os Santos dos Últimos Dias precisavam de liberdade. Um dia antes da aprovação da lei, o élder George A. Smith, do Quórum dos Doze Apóstolos, discursou em defesa do fundo e relembrou o que a Igreja havia vivido pouco antes, em Illinois:
“Fomos cercados por multidões violentas, e nossas 150 casas iluminavam os céus com suas chamas avermelhadas, à meia-noite, enquanto o saque, o roubo e a violência reinavam soberanos em Illinois. Naquele momento, este povo estava indefeso; toda liberdade lhe havia sido tirada.”
O fundo cumpriu seu duplo propósito. Entre 1854 e sua dissolução forçada pelo governo federal em 1887, cerca de 30% de todos os imigrantes Santos dos Últimos Dias, algo em torno de 30 mil pessoas, usaram empréstimos do PEF para chegar a Utah. O Congresso americano extinguiu o fundo com a aprovação da Lei Edmunds-Tucker, de 1887, numa tentativa deliberada de enfraquecer a Igreja cortando sua principal fonte de crescimento.
Um herdeiro espiritual quase um século depois
Quase cem anos após o fim do PEF, o Congresso americano aprovou, com apoio bipartidário, a Lei de Refugiados de 1980, que criou o Programa de Admissão de Refugiados dos Estados Unidos.
É por meio dele que pessoas perseguidas no exterior, muitas por motivos religiosos, podem buscar reassentamento nos EUA a partir de fora do território americano (diferente do processo de asilo, reservado a quem já está em solo americano ou na fronteira).
Estruturalmente, os dois programas são bem diferentes: o PEF era um projeto religioso, organizado pela própria liderança da Igreja para reunir um grupo relativamente homogêneo em uma comunidade específica; o programa de refugiados de hoje é secular, administrado pelo governo federal e aberto a pessoas de qualquer origem ou crença. Ainda assim, os paralelos morais e até funcionais entre os dois são notáveis.
Do ponto de vista econômico, por exemplo, muitos refugiados financiam sua viagem aos Estados Unidos por meio de um empréstimo de viagem administrado pela Organização Internacional para as Migrações, e começam a pagá-lo assim que se tornam financeiramente independentes, num sistema de fundo rotativo bem parecido com o do PEF.
Um levantamento do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, de 2024, mostrou que refugiados e asilados contribuem mais para a economia americana do que custam para serem reassentados: ao longo de 15 anos, o benefício fiscal líquido, vindo principalmente de renda e impostos, foi estimado em mais de 123 bilhões de dólares.
Só em Utah, os cerca de 14.400 refugiados geram mais de 572 milhões de dólares em renda familiar, têm um poder de compra superior a 425 milhões de dólares e pagam mais de 50 milhões de dólares em impostos estaduais e locais todos os anos. Uma refugiada afegã chamada Hanifa, por exemplo, hoje comanda um negócio de costura que emprega outras 26 mulheres em Utah, algo que jamais poderia ter feito em seu país de origem.

Uma perseguição religiosa que ainda existe
O paralelo entre os dois programas não é só econômico, também é espiritual. Por lei, todo refugiado fugiu de algum tipo de perseguição, e muitos, especificamente, de perseguição religiosa. O chamado Programa Lautenberg, reservado a quem foge de perseguição religiosa, já reassentou dezenas de milhares de pessoas nos Estados Unidos; cristãos representaram ao menos metade de todos os refugiados reassentados no país na última década.
A perseguição religiosa que ameaçava a vida dos Santos dos Últimos Dias já não é mais uma realidade para a maioria dos membros da Igreja hoje, mas continua sendo a realidade de irmãos e irmãs de fé em várias partes do mundo.
Em 1853, o presidente Brigham Young pediu aos Santos dos Últimos Dias que deixassem seu próprio passado guiar o olhar sobre o futuro:
“Poderíamos pedir que vocês reflitam sobre os dias que passaram naquela terra distante, onde raramente conseguiam caminhar pelas ruas ou entrar em uma loja, como qualquer outro cidadão, sem que o dedo do desprezo apontasse para vocês, sem sofrer os escárnios e zombarias cruéis dos ímpios, por causa de sua ‘religião’.”
Segundo dados compilados pela organização Global Christian Relief, 4.849 cristãos foram mortos por causa da fé no último período monitorado, e outros 67.843 sofreram abuso físico ou psicológico por motivos religiosos ao redor do mundo, de membros de igrejas clandestinas na Coreia do Norte a pessoas fugindo de regimes hostis no Irã e no Afeganistão.
O programa de refugiados está em risco
Assim como o governo federal, no passado, dissolveu à força o PEF para conter a imigração de Santos dos Últimos Dias, o governo federal atual tem tomado medidas para desmontar o Programa de Admissão de Refugiados.
Em janeiro de 2025, as admissões de refugiados foram suspensas, com o congelamento de financiamento para infraestrutura e serviços essenciais. Elas foram retomadas em outubro de 2025, mas com uma meta de admissões historicamente baixa para o ano fiscal de 2026 e critérios muito mais restritivos.
Até 31 de maio de 2026, apenas 6.668 refugiados haviam sido admitidos nos Estados Unidos naquele ano fiscal, sendo 6.665 vindos da África do Sul, e apenas três, do Afeganistão, país com pedidos de refúgio amplamente reconhecidos como legítimos. Antes de 2016, os Estados Unidos admitiam, em média, 95 mil refugiados por ano.
Com o financiamento historicamente baixo, várias agências locais de reassentamento têm sido forçadas a fechar as portas, entre elas, duas das mais antigas dos Estados Unidos, ligadas às igrejas Católica e Episcopal, que se retiraram do programa na primavera de 2025.
Em Utah, que normalmente recebe mais de mil refugiados por ano, apenas 70 foram acolhidos neste ano, todos vindos da África do Sul. A Catholic Community Services of Utah chegou a anunciar o fim do próprio programa de reassentamento, revertendo a decisão depois de uma onda de doações privadas, mas muitas famílias refugiadas no estado seguem em situação incerta, sem conseguir o green card e sob risco de perder o status de refugiado.

O que os Santos dos Últimos Dias podem fazer agora
A história dos Santos dos Últimos Dias não resolve sozinha todos os debates de política pública sobre refugiados. Mas ela pode inspirar os membros da Igreja a honrar a própria herança pioneira, defendendo que os Estados Unidos continuem sendo um lugar de refúgio para quem foge de perseguição.
Uma das propostas em discussão é a criação de um piso legal mínimo de admissões, uma sugestão que ajudaria comunidades a se planejar com um fluxo mais previsível de refugiados.
Os Santos dos Últimos Dias podem contribuir escrevendo a vereadores, prefeitos, deputados estaduais e ao governador de seu estado, pedindo apoio a esse tipo de piso mínimo de admissões. Debates sobre imigração costumam ser polarizados, mas apoiar o programa de refugiados não precisa ser.
Assim como o PEF nasceu em um ambiente igualmente polarizado dentro da própria Igreja, mas foi tratado pelos líderes como “um assunto digno de consideração e incentivo, carregado, como é, dos melhores interesses da sociedade.”
Como o próprio presidente Brigham Young pediu aos Santos dos Últimos Dias, é dever de cada geração lembrar os pioneiros da própria fé e o caminho que percorreram rumo à liberdade, e trabalhar para que esse caminho continue disponível para quem ainda precisa dele.
Fonte: Public Square
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