Imagine entrar no compartimento mais sagrado do templo de Jerusalém, o Lugar Santíssimo, onde apenas o sumo sacerdote podia pisar, uma vez por ano, no Dia da Expiação.

Durante séculos, ali dentro repousava a Arca da Aliança: a caixa dourada com os querubins, o lugar que as escrituras chamam de trono terreno de Deus. Agora imagine entrar nesse mesmo cômodo cerca de 500 anos depois, no templo onde Jesus Cristo ensinava, orava e expulsava os vendilhões, e ele estar vazio.

Não havia Arca, não havia querubins de ouro. O lugar mais sagrado de todo o templo de Jerusalém, no tempo do próprio Salvador, era um espaço vazio.

É um detalhe que chama a atenção sobre a reconstrução do templo em Esdras 1; 3–7 e dos muros de Jerusalém em Neemias 2; 4–6; 8, é que não menciona diretamente, mas que os manuais de apoio ao estudo das escrituras da Igreja confirmam.

E, uma vez que se entende por que a Arca desapareceu, um dos ensinamentos centrais do Novo Testamento fica ainda mais claro.

Uma caixa de ouro que sumiu da história

A Arca da Aliança foi construída no deserto, no tempo de Moisés, para guardar as tábuas da lei (ver Êxodo 25; 37). Ela acompanhou Israel por séculos, até ser instalada no Lugar Santíssimo do templo de Salomão.

Mas em 587 a.C. os babilônios destruíram Jerusalém e saquearam o templo, e, a partir desse ponto, a Arca simplesmente some dos registros históricos.

Quando o primeiro grupo de judeus retornou do cativeiro babilônico, décadas depois, e reconstruiu o templo sob a liderança de Zorobabel (o episódio central de Esdras 3), muitos dos vasos sagrados do templo de Salomão foram devolvidos e reaproveitados, mas a Arca, não.

Segundo o Auxílios de Estudo: Velho Testamento, “o Santo dos Santos ficou vazio” no templo reconstruído.

A lenda da caverna, e por que a Igreja diz que ela não é confiável

Existe uma tradição antiga, registrada no livro apócrifo de 2 Macabeus, segundo a qual o profeta Jeremias teria escondido a Arca numa caverna no Monte Nebo pouco antes da destruição de Jerusalém, para protegê-la, e que o local se perdeu porque seus seguidores não conseguiram marcá-lo depois.

É uma história bonita, e é provavelmente a versão que a maioria das pessoas já ouviu sobre o “destino” da Arca.

O Bible Dictionary da própria Igreja, no entanto, classifica essa tradição como não confiável, afirmando apenas que a Arca “certamente já havia desaparecido antes da construção do segundo templo”.

Em outras palavras: as escrituras e os registros históricos que a Igreja considera confiáveis simplesmente não sabem o que aconteceu com ela. Ela não foi substituída, não foi reconstruída, e sua ausência não é escondida, é reconhecida abertamente pelos próprios judeus que retornaram do exílio.

Por que ninguém tentou substituir a Arca

Eis o que mais chama atenção nessa história: em nenhum momento os líderes judeus que reconstruíram o templo tentaram fabricar uma nova Arca. Eles reconstruíram os pátios, o altar, as portas, mas deixaram o espaço mais sagrado do edifício vazio, e seguiram em frente.

Décadas mais tarde, quando Herodes o Grande reformou e ampliou o templo numa escala monumental, o mesmo templo onde Jesus ensinaria, o Lugar Santíssimo continuou vazio.

O historiador judeu Josefo, escrevendo no primeiro século, descreve o interior daquele cômodo como completamente despido de qualquer objeto. Era, literalmente, um quarto vazio no centro do edifício mais sagrado do judaísmo, e era ali que o sumo sacerdote entrava, uma vez por ano, para realizar a expiação em nome do povo.

O que a Arca representava, afinal

Para entender por que essa ausência importa, é preciso lembrar o que ficava exatamente em cima da Arca: uma cobertura de ouro maciço chamada de “propiciatório”, em inglês, mercy seat.

Segundo o Bible Dictionary, era ali que a glória de Deus se manifestava, o lugar de encontro entre o Senhor e Seu povo, tratado nas escrituras como o próprio trono de Deus na terra. Era também sobre o propiciatório que o sumo sacerdote aspergia o sangue do sacrifício no Dia da Expiação, num ato que apontava para uma expiação maior e futura.

É por isso que o apóstolo Paulo, escrevendo já depois da morte e ressurreição de Jesus Cristo, usa exatamente essa palavra, propiciação, para descrever o próprio Salvador: “a quem Deus propôs […] como propiciação, pela fé no seu sangue” (Romanos 3:25).

O termo grego usado por Paulo, hilasterion, é o mesmo termo usado na tradução grega do Velho Testamento para se referir ao propiciatório sobre a Arca.

Ou seja: o objeto físico que faltava no templo onde Jesus ensinava era, teologicamente, uma sombra Dele mesmo. O verdadeiro “lugar de propiciação” não estava mais escondido atrás de um véu, guardado num cômodo vazio, Ele estava ensinando nos pátios do lado de fora.

O véu que se rasgou

Esse contraste ajuda a explicar por que um dos momentos mais carregados de simbolismo em toda a crucificação é justamente o que acontece com o próprio edifício do templo: no instante da morte de Jesus, “o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo” (Mateus 27:51). O véu que separava o povo daquele cômodo, vazio havia séculos, mas ainda tratado como o lugar mais sagrado da terra, se abriu.

O élder Patrick Kearon, do Quórum dos Doze Apóstolos, ensinou sobre esse momento:

“O véu do templo foi rasgado em dois quando Jesus morreu na cruz, simbolizando que o acesso de volta à presença do Pai se tornou possível a todos que se voltarem a Ele, confiarem Nele, lançarem os fardos sobre Ele e tomarem Seu jugo sobre eles em um vínculo por convênio.”

O templo tinha ficado, por quinhentos anos, com um vazio no seu centro. E esse vazio não era um erro a ser corrigido, era um espaço aberto, esperando o cumprimento daquilo que ele sempre representou.

Cristo é o nosso acesso direto ao Pai

Você não precisa entrar num cômodo específico, uma vez por ano, através de um sacerdote intermediário, para se aproximar de Deus. Essa era exatamente a limitação que o Lugar Santíssimo vazio deixava evidente: o sistema antigo apontava para algo, ou Alguém, que ainda não havia chegado.

Quando Cristo veio, morreu e ressuscitou, Ele não apenas cumpriu o que a Arca e o propiciatório simbolizavam; Ele tornou obsoleta a necessidade de um objeto físico para mediar essa aproximação.

Da próxima vez que você entrar num templo, ou simplesmente ajoelhar-se para orar, vale lembrar que o acesso que você tem, direto, pessoal, sem véus nem intermediários rituais, é exatamente o que aquele cômodo vazio, no meio do templo onde Jesus ensinou, estava silenciosamente anunciando havia séculos.

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