Este artigo foi escrito por Joaquim Almeida Marelo.
No mês em que chegamos à China, uma conselheira da Sociedade de Socorro e seu marido viajaram mais de 300 quilômetros para passar um dia conosco. Aproveitaram a viagem para conhecer outros membros que vivem relativamente perto daqui.
Quando conto isso, normalmente preciso voltar um pouco na explicação. Sim, existem membros da Igreja na China. Há congregações chinesas e internacionais, reuniões presenciais em algumas cidades, chamados, organizações e pessoas procurando maneiras de cuidar umas das outras em um país ainda maior que o Brasil em território.
Eu moro em Wenzhou, onde estou trabalhando como professor convidado para ensinar engenharia e negócios internacionais. Minha esposa e nossas duas filhas vieram comigo. Aos domingos, participamos de um ramo online, em inglês, com membros estrangeiros espalhados por diferentes regiões do país.
Conhecer essa comunidade tem sido uma das experiências mais interessantes desta temporada. Há profissionais em funções importantes em suas empresas, muitos professores universitários e pessoas de diferentes nacionalidades, com trajetórias que sempre rendem boas conversas. Gente acostumada a lidar com problemas complexos no trabalho e que, no chamado da Igreja, precisa descobrir como ajudar uma criança, um jovem ou um adulto a acompanhar uma aula pelo computador.
Uma Primária por tela
Eu sou líder de música da Primária. Temos o desafio de cantar, envolver e ensinar crianças que, além de estarem longe umas das outras, nem sempre compreendem o que estamos dizendo.
Minha filha chegou falando muito pouco inglês. Agora já consegue fazer uma oração e se comunicar de maneira simples com as outras crianças e líderes. Ela vai aprendendo enquanto participa, assim como outras crianças do grupo.
Quem já participou de uma Primária presencial consegue imaginar o trabalho. Agora acrescente uma tela e diferentes idiomas.

Congregações separadas e respeito às leis
Na China continental, os membros chineses e os estrangeiros participam de congregações separadas. Existem restrições importantes à atividade religiosa, e seguimos orientações específicas para respeitá-las. Não fazemos proselitismo entre os cidadãos chineses nem os convidamos para nossas reuniões internacionais.
Os membros chineses têm suas próprias congregações e lideranças locais. Na comunidade internacional, há reuniões presenciais onde existem estrangeiros suficientes para isso. Os demais participam online, como nós.
Às vezes nos perguntamos se estamos em um dos maiores ramos do mundo em extensão territorial. Não tenho como confirmar isso, mas a pergunta dá uma ideia da distância entre as famílias.
Há necessidades a acompanhar e pessoas que os líderes precisam conhecer sem poder encontrá-las no domingo seguinte, no corredor da capela. Durante a semana, acontecem outras chamadas de vídeo. Aos poucos, começamos a reconhecer as famílias, conversar e entender um pouco da vida de cada uma.
O cuidado dos brasileiros
Entre os brasileiros do distrito, encontramos também um cuidado muito espontâneo. Pessoas que ainda não nos conheciam entraram em contato para perguntar se tínhamos encontrado um arroz parecido com o do Brasil, explicar como fazer compras ou ensinar a pedir comida sem pimenta.
Pode parecer pouco até você se sentir um completo analfabeto, sem conseguir ler a embalagem de qualquer produto do mercado.
Essas pessoas já haviam passado por dificuldades parecidas. Foi muito bom aprender com elas por perto, ainda que esse “perto” muitas vezes fosse pelo WeChat, que é o nosso WhatsApp aqui.
Como chegamos até a Igreja
Encontrar essa comunidade, porém, deu trabalho.
Esta é minha segunda passagem pela China. Na primeira, fiquei apenas quinze dias e não consegui encontrar as reuniões. Tinha consultado informações no mapa, mas não havia salvado tudo de que precisava. Os serviços que eu costumava usar não funcionavam como esperava, e acabei sem chegar.
Desta vez, ficaríamos muito mais tempo, com toda a família. A possibilidade de passar meses sem participar do sacramento me preocupava.
Procurei ajuda no Brasil, recebi contatos e fiz novas tentativas. Houve dúvidas sobre como organizar nossa participação e sobre a transferência dos nossos registros. Com o apoio do meu presidente da estaca, consegui chegar ao presidente do distrito na China, que é brasileiro.
Ele nos encaminhou ao ramo e continuou acompanhando para saber se estávamos bem. Nossos registros foram transferidos, e o presidente do ramo passou a nos orientar sobre as reuniões e o sacramento em casa.
Até encontrar esse caminho, eu não fazia ideia de quanto já estava organizado para receber famílias como a nossa.
Em um fim de semana, visitamos o ramo internacional de Xangai. As reuniões acontecem em um centro de conferências, num prédio moderno. Na entrada, apresentamos nossos passaportes para confirmar que somos estrangeiros.
Lá dentro, encontramos o mesmo cuidado com nossas filhas. Encontramos brasileiros também. Foi bom conversar em português e conhecer outras pessoas construindo sua vida aqui.
O presidente do ramo nos contou sobre duas visitas do presidente Russell M. Nelson e uma do presidente Dallin H. Oaks àquela congregação. Também compartilhou lembranças do carinho do presidente Nelson ao cumprimentá-lo quando trabalhava como intérprete nas conferências gerais.

Um evangelho centralizado no lar
Viver isso tem dado outro significado à orientação sobre um evangelho centralizado no lar e apoiado pela Igreja.
Quando essa ênfase foi anunciada, nossa família procurou entender o que ela pedia de nós. O Vem, e Segue-Me e as mensagens da conferência geral foram entrando nas conversas sobre a criação das meninas, o trabalho e decisões bastante pessoais.
Há vezes em que um assunto previsto com antecedência para toda a Igreja parece conversar diretamente com algo que estamos tentando resolver naquela semana. A gente estuda, conversa e procura entender como aplicar. Algumas respostas são reconfortantes; outras exigem rever escolhas.
Não sabíamos que estaríamos vivendo na China quando começamos a levar essas orientações para o lado pessoal. Hoje, participando de uma unidade à distância, percebemos melhor a importância do que já vinha sendo construído em casa. Ainda estamos aprendendo.
O que a China nos ensina
Outra coisa que chama minha atenção é o respeito com que os líderes tratam as condições do país. Vejo paciência, consideração pelas autoridades e cuidado para seguir as orientações recebidas. Nossa crença em obedecer, honrar e apoiar a lei está presente em decisões muito práticas sobre como nos reunimos e participamos da Igreja.
Ao mesmo tempo, o convívio com os chineses tem nos levado a pensar sobre a maneira como falamos deles.
Temos encontrado pessoas generosas, pacientes com nossa dificuldade de comunicação e carinhosas com nossas filhas. Observamos expressões de cuidado com a comunidade e de respeito pelos mais velhos e pelos antepassados, que merecem nossa atenção. Há muito aqui para aprender sobre valores que também procuramos viver como discípulos de Jesus Cristo.
Ainda temos bastante coisa para viver aqui. Mas já sabemos que vamos voltar ao Brasil com outra compreensão desta comunidade e do país que nos recebeu.
Quero lembrar daquele casal que viajou para nos visitar, da paciência de quem ajuda minha filha a participar da Primária e dos brasileiros que cuidaram de nós antes mesmo de nos conhecer, principalmente quando estiver novamente numa capela perto de casa, com pessoas que falam meu idioma e moram a poucos minutos de distância.
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