Minha lembrança mais antiga é de pular em uma piscina e perceber, ainda no ar, que meu pai não estava na água para me segurar. No segundo seguinte, eu via bolhas cintilantes subindo em direção à superfície ensolarada da piscina. Lembro-me de resmungar enquanto afundava: “Mas eu só sei nadar cachorrinho!”
Minha indignação infantil mostra o quanto eu não compreendia a gravidade da situação. Eu realmente poderia ter morrido naquele dia. Felizmente, meu pai, que estava muito mais atento a mim do que eu a ele, percebeu que eu havia sumido e pulou na piscina para me resgatar. Pouco depois, eu estava fora da água, em segurança (embora ainda assustado), cuspindo a água que tinha engolido sobre um espectador inocente. Anos depois, aprendi uma palavra hebraica que descreve perfeitamente o que aconteceu comigo naquele dia, uma palavra que também transformou minha compreensão sobre Jesus Cristo, o Deus do Antigo Testamento.
Uma palavra hebraica que mudou tudo
Aprendi sobre a palavra hebraica go’el com a Dra. Gaye Strathearn, uma de minhas professoras. No mundo antigo, go’el era um termo técnico usado para designar alguém responsável por proteger a família ampliada. Por exemplo, se um membro da família fosse capturado na guerra e se tornasse escravo, o go’el o libertaria. Se alguém contraísse dívidas e perdesse suas terras, o go’el ajudaria a pagar o preço para que ele as recuperasse.
Como o go’el podia ser pai, tio, avô ou primo, a versão King James da Bíblia às vezes traduz essa palavra como “parente”. Mas um go’el não é apenas qualquer membro da família. Assim como meu pai na história da piscina, o go’el é aquele que tem a responsabilidade de resgatar os seus. Em português, a palavra que melhor expressa esse papel é “Redentor”. Essa conexão ampliou minha visão sobre a abrangência do papel de Jeová como Redentor do mundo de duas maneiras distintas.

1. Jeová é a solução para o caos mortal, não a causa
Em todas as épocas, Deus chamou profetas com o propósito complementar de testificar “de Jesus Cristo, testemunhando Dele como nosso Salvador e Redentor, … [e ajudando-nos] a discernir a verdade do erro”. Ele chamou profetas do Antigo Testamento para revelar Seu caráter, Seus atributos e Suas perfeições ao povo de sua época, corrigindo percepções culturais equivocadas por meio da revelação.
Para muitos dos vizinhos antigos de Israel, os deuses eram vistos como tiranos imprevisíveis e perigosos, que precisavam ser apaziguados para evitar calamidades. Acreditava-se que eles eram a origem das doenças, dos desastres naturais e de todos os males terrenos. Não havia senso de relacionamento ou amor; o culto significava, muitas vezes, manter a cabeça baixa e torcer para que as ofertas queimadas fossem suficientes para manter os deuses satisfeitos.
À luz disso, a revelação de um Deus Go’el é impressionante. Em um mundo decaído, Jeová é o Resgatador, a solução para o caos mortal, não sua causa. Quando somos feridos pelo mau uso do arbítrio de outras pessoas, Jeová é quem vem nos libertar desse trauma. E quando nos vendemos (muitas vezes repetidamente) ao pecado, Jeová paga o preço para que possamos voltar.
Go’el redefine a redenção como a obra familiar de Deus: Jeová nos resgata por quem Ele é, o Redentor de Israel do convênio, e Seu amor nos convida a permitir que Ele nos cure e transforme. O Presidente Nelson descreveu o compromisso de Cristo com essa família do convênio ao ensinar: “Ele nunca Se cansará de procurar nos ajudar, e nunca esgotaremos Sua paciência misericordiosa para conosco. … Ele continuará a trabalhar com eles e a lhes oferecer oportunidades de mudar.”
2. Redentores humanos simbolizam nosso Redentor eterno
Por causa de seu contexto antigo, cada história do Antigo Testamento que apresenta um go’el mortal pode nos ajudar a compreender melhor o papel de um redentor. Ao aprendermos sobre esses redentores (com “r” minúsculo) e suas famílias, podemos entender melhor o Redentor (com “R” maiúsculo) de toda a família humana.
Considere, por exemplo, uma história menos conhecida do bloco de escrituras desta semana no Vem, e Segue-Me: a história de Abraão e Ló.
Contexto. Em Gênesis 12 (e Abraão 1–2), Abraão e seu sobrinho Ló levam suas famílias e servos para começar uma nova vida em Canaã. Embora leitores modernos possam não perceber, o fato de Abraão ser o tio indica seu papel como go’el das duas partes da família ampliada.
Separação. Quando surgem conflitos entre os servos de Abraão e os de Ló (Gênesis 13:5–7), Abraão, como pacificador, oferece a Ló a primeira escolha da terra. Eles se separam, e Ló acaba se estabelecendo em uma cidade chamada Sodoma (14:12) — uma decisão que muitos leitores reconhecem como problemática.
Más notícias. A calamidade chega. O rei de Sodoma entra em guerra com um rei inimigo, mas quando foge, o inimigo saqueia a cidade, levando seus bens e capturando seus habitantes, incluindo Ló e sua família.
Redenção. Embora tenha sido Ló quem se afastou, Abraão reúne seus homens, persegue o exército inimigo, derrota-o e traz de volta Ló, seus bens e sua família.
Desfecho. Ló foi resgatado, mas como reage à sua redenção? Tragicamente, em vez de permanecer com Abraão, ele retorna a Sodoma. Em Gênesis 18–19, encontramos Ló sentado às portas da cidade enquanto Abraão faz tudo o que pode para interceder, tentando salvar sua vida novamente.
Há inúmeras lições que poderíamos extrair sobre nosso Redentor Eterno ao estudar essa história, mas três se destacaram para mim:
O Senhor nos conhece. Mesmo depois que Ló deixou Abraão, Abraão continuou atento a ele e às suas necessidades. Da mesma forma, mesmo quando nós ou aqueles que amamos viramos as costas para o Senhor, Ele, como nosso Redentor, permanece consciente de nós e de nossas necessidades.
Nossa redenção não é conquistada. Abraão não redimiu Ló porque ele mereceu. Ele o redimiu porque eram família. Do mesmo modo, Jesus não nos livra porque pagamos um preço com boas obras ou penitência. Ele nos redime porque somos família, e sempre seremos.
Podemos escolher permanecer. A escolha de Ló não era se seria redimido; era se permaneceria com Abraão ou retornaria a Sodoma. Da mesma forma, Cristo redimirá todos nós da morte física e nos trará de volta à presença de Deus. Porém, individualmente, recebemos a escolha de permanecer em Sua presença por meio da fé, do arrependimento e de fazer e guardar convênios. Nesse sentido, a redenção não é tanto nossa escolha de voltar a Ele, mas nossa oportunidade de mudar por meio de Seu poder expiatório e permanecer com Ele (ver 2 Néfi 2:26–27).

A redenção é um começo
Como em muitas histórias de redenção, minha retirada nada elegante da piscina não foi o fim da história, mas o começo. Naquele mesmo verão, meu pai me matriculou em aulas de natação. Ele já havia salvado minha vida, mas aquilo era uma oportunidade para eu crescer.
Com seu apoio constante, aprendi a nadar, perdi o medo da água e, com o tempo, nadar se tornou uma alegria. E, embora eu não percebesse na época, nesse processo, tornei-me um pouco mais parecido com aquele que me redimiu.
Da mesma forma, a redenção em Cristo é um novo começo para todos nós, um convite a uma nova vida na qual podemos tentar novamente (e novamente) tornar-nos semelhantes Àquele que nos redimiu.
Ao ler o Antigo Testamento este ano, espero que você consiga ver Jeová intercedendo repetidamente em favor de Seu povo, tanto como o Senhor que estende a mão a pessoas que aparentemente não “merecem” ou “ganham” a redenção quanto por meio dos papéis de redentores mortais, como Jeremias, Oseias, Ester, Rute e Boaz. Que reconhecer como Ele atua como Go’el fortaleça sua confiança em Sua graça infinita, em Seu poder e em Seu amor.
Fonte: LDS Living
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