“E logo ao amanhecer os principais dos sacerdotes, com os anciãos, e os escribas, e todo o Sinédrio, tiveram conselho; e amarrando Jesus, o levaram e entregaram a Pilatos.” (Marcos 15:1)

O conhecimento

Após Jesus sofrer pelos pecados do mundo no Getsêmani, “Judas, um dos doze, e com ele uma grande multidão com espadas e varapaus, enviada pelos principais dos sacerdotes e pelos anciãos do povo” (Mateus 26:47).

Ao se submeter voluntariamente a essa multidão, Jesus passou por vários julgamentos apressados e tumultuados. Isso incluiu os interrogatórios perante o Sinédrio, Pilatos e Herodes.

Não está totalmente claro, a partir dos registros escriturísticos, qual foi a razão exata para esses procedimentos judiciais.

Como observou John W. Welch, “nos deparamos com vários problemas persistentes” ao tentar compreender as motivações por trás das ações dos principais sacerdotes e de outros participantes importantes nessas atividades.

Por exemplo, Mateus e Marcos afirmam que o Sinédrio entregou Jesus a Pilatos “por inveja” (veja Marcos 15:10; Mateus 27:18), o que Pilatos interpretou erroneamente como uma motivação insignificante.

Julgamento motivado pelo medo

No entanto, mesmo sentimentos de inveja não descrevem adequadamente as reações demonstradas pelo Sinédrio no julgamento de Jesus.

Dessa forma, Welch concluiu que o medo provavelmente foi um fator motivador maior,

“especialmente o medo dos poderes miraculosos de Jesus”.

Especificamente, o medo do ocultismo parece ter acompanhado de perto muitos dos milagres realizados por Jesus, uma vez que os fariseus compreendiam erroneamente a fonte dos poderes divinos de Jesus.

Isso ajuda a explicar por que, ao longo do ministério de Jesus, Seus milagres inspiradores de fé quase sempre seguiam-se por uma forte reação dos fariseus, que O acusavam de usar os poderes de Belzebu e repetidamente tentavam tirar Sua vida (veja Mateus 12:24–28).

Assim, como observou Welch,

“por trás de tudo isso, há uma forte correnteza de medo equivocado de que Jesus fosse um mágico maligno”.

Sinédrio em julgamento de Jesus Cristo
Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

Julgamento: motivos e acusações

É importante destacar que tanto a Bíblia quanto o Livro de Mórmon estabelecem uma ligação entre os milagres de Jesus e os julgamentos que Ele sofreu.

João escreveu que antes de decidir condenar Jesus à morte, os principais sacerdotes e fariseus perguntaram: “que faremos? porque este homem faz muitos sinais” (João 11:47–53).

Da mesma forma, tanto Jacó quanto o Rei Benjamim associaram os “poderosos milagres” realizados por Jesus com Sua morte pelas mãos de homens perversos (2 Néfi 10:4–5; Mosias 3:5, 9).

Como parte desses julgamentos por medo, várias acusações foram feitas contra Jesus na tentativa de obter punição romana. Essas acusações incluíam blasfêmia e muitas vezes se baseavam em falsos testemunhos ou interpretações distorcidas da lei.

Várias dessas acusações se referiam ao ensinamento e às atividades de Cristo relacionados ao templo (ver Mateus 26:59–66). No entanto, o tema predominante entre essas acusações eram os milagres de Jesus e não as doutrinas que Ele ensinava.

Como os líderes religiosos acusavam Cristo

Após os julgamentos,

“os principais dos sacerdotes, com os anciãos, e os escribas, e todo o Sinédrio, tiveram conselho; e amarrando Jesus, o levaram e entregaram a Pilatos” (Marcos 15:1)

Com a intenção de que

“ele pudesse encontrar Jesus igualmente culpado sob a lei romana de sedição (crimen maiestatis) através de práticas mágicas ilícitas (maleficium)”.

Como observado por Welch, a suposta prática de magia era “uma ofensa grave sob a lei romana na época de Jesus, especialmente quando ameaçava de alguma forma a segurança do imperador”.

É por essa razão que os principais sacerdotes afirmaram que Jesus “fala contra César”, além de outras acusações de traição (João 19:12; cf. Lucas 23:2).

Essas formas proibidas de profecia e realização de milagres “haviam se tornado passíveis de pena de morte” por um decreto de Augusto César em 11 d.C., que impedia qualquer pessoa de falar contra, profetizar contra ou realizar qualquer ação ritual contra o imperador.

Julgamento, Jesus Cristo, Herodes
Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

Por que tal pressa no julgamento e execução do Salvador?

Pilatos, é claro, não considerou que Jesus tivesse culpa de tal acusação, mas os principais sacerdotes ainda pressionaram pela execução de Jesus, pois a profecia falsa e a realização de milagres também eram proibidas pela lei judaica.

Claramente, o medo dos milagres de Jesus não terminou com Sua crucificação. Preocupados que Jesus “de alguma forma pudesse ressuscitar após três dias, como Ele havia profetizado”. Os fariseus colocaram guardas no túmulo de Jesus para garantir que nada desse tipo acontecesse.

Curiosamente, essas pessoas chamaram Jesus de “trapaceiro” ou “enganador”, utilizando a mesma palavra grega (planos) para descrever “aquele que engana por sedução por meio de poderes ou espíritos malignos”.

Usava-se essa mesma palavra na literatura judaica e cristã primitiva e nas escrituras para descrever Satanás, demônios e falsos profetas, especialmente aqueles que realizavam milagres como “levantar montanhas, agitar o mar e ressuscitar os mortos”.

Crucificação: um tipo de execução

Por fim, ao considerar o julgamento de Jesus no contexto do medo dos poderes demoníacos, também se explica “os enigmas legais da crucificação e a falta de formalidades legais”.

Afinal, como testemunha o Novo Testamento, “a forma normal de execução por blasfêmia na lei judaica era apedrejamento; e várias vezes as pessoas pegaram pedras pensando em apedrejar Jesus por blasfêmia”.

No entanto, graças à descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, “os estudiosos agora reconhecem que ser pendurado em uma árvore (ou crucifixão) poderia servir, nos dias de Jesus, como um modo de execução de acordo com a lei judaica vigente”.

Usou-se um método de execução semelhante apenas um século antes do tempo de Jesus. Naquele caso notório, “oitenta bruxas foram enforcadas ou crucificadas em Ascalão sem julgamentos adequados porque o tribunal considerou a questão como uma emergência”.

Embora os escritores posteriores do Talmude condenem esse julgamento como um ato ilegal de um tribunal perverso, esse caso é importante para mostrar que realizaram-se julgamentos em pressa (ou até inexistentes) por líderes judeus assustados, resultando na crucificação dos condenados. A pressa no julgamento e execução de Jesus reflete esse evento.

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Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

O porquê

Conforme os julgamentos de Jesus avançavam durante a noite, o medo parecia se instalar em todos os lados. Os próprios discípulos de Jesus fugiram do Getsêmani, e Pedro – talvez por medo – negou sua associação com Jesus enquanto era interrogado implacavelmente pelos servos do Sumo Sacerdote.

Até Pilatos e Herodes demonstraram medo em algum momento durante esse julgamento. Pilatos, já com medo de uma violenta agitação, recebeu alerta por sua esposa devido aos sonhos que ela teve sobre Jesus (ver Mateus 27:19, 24).

Herodes, da mesma forma, pode ter amedrontado-se inicialmente pelo poder miraculoso de Jesus, assim como ele temia João Batista e a multidão que o seguia (Mateus 14:5; Marcos 6:20).

É também triste e irônico que aquilo que claramente provou a divindade de Jesus – Suas boas obras e milagres – fora tão influente em Seu martírio.

Não reconheceram Seu Deus

Os medos multifacetados dos líderes judeus os cegaram para discernir a bondade e o poder de Deus manifestados por meio de Jesus Cristo. Eles eram orgulhosos demais, certos demais em suas próprias conclusões e temiam perder seu poder, influência e controle.

No entanto, esse não é o fim da história. Jesus não permitiu receber a crucificação em última instância por esses medos em equívoco, mas Ele se sacrificou voluntariamente por nós:

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Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

“Por isso o Pai me ama, porque dou a minha vida, para tornar a tomá-la. Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai.” (João 10:17-18).

O sacrifício infinito e eterno de Jesus sempre foi o plano de Deus, permitindo-nos vencer todos os nossos medos ao nos aproximarmos Dele.

“O amor lança fora o temor” escreveu o Apóstolo João, “porque o temor tem o castigo, e o que teme não está perfeito em amor.” (1 João 4:18).

O amor puro de Cristo se manifesta a todos os filhos de Deus e nos ajuda a superar nossos medos, preocupações e ansiedades.

Esses medos que nos impedem podem ser substituídos pela fé, permitindo que “cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia”, que está disponível para nós por meio do sofrimento, morte e ressurreição de Cristo (Hebreus 4:16).

Fonte: Scripture Central

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