Em Jeremias 4:4, Jeremias declara:

“Circuncidai-vos ao Senhor, e tirai o prepúcio do vosso coração, ó homens de Judá e habitantes de Jerusalém, para que a minha indignação não venha a sair como fogo, e arda, e não haja quem a apague, por causa da maldade das vossas obras.”

Usar o termo circuncisão, ou a remoção do prepúcio, em referência ao coração pode parecer confuso. No entanto, quando compreendemos a história e o propósito da circuncisão de bebês do sexo masculino entre o povo do convênio, essa expressão se torna mais clara.

A origem da circuncisão como sinal do convênio

Em Gênesis 17, Deus faz um convênio com Abrão e introduz algo novo relacionado a ele: os bebês do sexo masculino deveriam receber o sinal da circuncisão (não há evidências nas escrituras de que a circuncisão fizesse parte da realização de convênios desde Adão até Noé).

Gênesis 17:10–12 declara:

“Este é o meu convênio, que guardareis entre mim e vós, e a tua semente depois de ti: Que todo filho homem será circuncidado. E circuncidareis a carne do vosso prepúcio; e isso será por sinal do convênio entre mim e vós. O filho de oito dias, pois, será circuncidado, todo filho homem nas vossas gerações: o nascido na casa, e o comprado por dinheiro a qualquer estrangeiro, que não for da tua semente.”

A circuncisão era uma prática conhecida em certas partes do antigo Oriente Próximo. No entanto, alguns estudiosos presumiam que os homens eram circuncidados mais tarde na vida, como parte dos rituais da puberdade ou da purificação sacerdotal, e que a circuncisão infantil era uma prática judaica incomum que começou após o exílio.

No entanto, a circuncisão de bebês também aparece em fontes do antigo Oriente Próximo que remontam à época de Abraão.

Imagem: egypt-museum.com

A circuncisão no Egito antigo

Fora de Israel, algumas das melhores evidências da circuncisão na antiguidade vêm do Egito, onde registros foram preservados tanto na arte quanto na literatura. Existem algumas representações artísticas do Egito antigo mostrando homens e meninos sendo circuncidados durante o período do Antigo Império, já no século 24 a.C.

No entanto, na época do Médio Império (século 19 a.C.), que coincide com os dias de Abraão, parece que os bebês também eram circuncidados. Uma inscrição da tumba número 3, em Beni Hasan, declara: “Ele governou sua cidade quando ainda era um bebê, na época de sua circuncisão”.

O termo egípcio utilizado, sedjet, refere-se claramente a um bebê, e não a uma criança mais velha.

A maneira como o termo é utilizado nesse texto sugere que a circuncisão infantil era suficientemente comum para ser usada como uma referência cronológica que o autor presumiu que seus leitores compreenderiam.

Outros exemplos de circuncisão infantil também existem desse mesmo período. Cenas nas paredes dos templos de Deir el-Bahri, Luxor e Karnak associam a circuncisão aos rituais de nascimento, indicando claramente que o procedimento acontecia pouco depois do nascimento.

Não é improvável que uma tradição existente no Egito também fosse praticada em Israel, especialmente quando relacionada a Jeremias e Abraão, que, segundo a Bíblia, passaram algum tempo no Egito.

Por que os egípcios circuncidavam bebês?

Se a circuncisão era utilizada para marcar a transição para a vida adulta (puberdade) ou fazia parte dos rituais de pureza para a iniciação no sacerdócio, por que os egípcios começaram a circuncidar bebês?

Um menino nascido em uma família sacerdotal tinha praticamente garantido seu serviço no templo ao atingir a idade adulta, pois o sacerdócio era um ofício hereditário.

A realização de um ritual na infância para indicar sua condição de pureza herdada, como parte de uma linhagem sacerdotal, preparava-o permanentemente para suas inevitáveis responsabilidades hereditárias.

Em outras palavras, o bebê não recebia o ritual porque entraria no templo naquele dia, mas porque fazia parte de um povo que pertencia ao templo.

O significado da circuncisão no convênio de Abraão

Quando essa prática foi aplicada ao convênio abraâmico em Gênesis 17:6–13, ela desempenhou uma função semelhante, identificando o bebê como alguém que já era puro e herdeiro de uma linhagem do convênio que possuiria um sacerdócio real (“reis sairão de ti”).

É interessante observar que a Tradução de Joseph Smith de Gênesis 17 esclarece que Deus instituiu a circuncisão nos dias de Abraão como um sinal corretivo para combater rituais não autorizados que estavam sendo praticados para tornar as crianças puras, como lavá-las e aspergir sangue sobre elas, de maneira semelhante aos rituais sacerdotais descritos em Êxodo 29.

Em resposta a essa apostasia, Deus introduziu a circuncisão como um lembrete à família de Abraão de que seus filhos eram considerados puros e herdeiros do convênio e do sacerdócio desde o nascimento.

Eles só precisariam ser purificados do pecado por meio do “sepultamento, ou batismo” quando atingissem a idade de responsabilidade, aos oito anos, e precisassem se arrepender (Tradução de Joseph Smith, Gênesis 17:4–6, 10–11).

Esse sinal de pureza inerente e do direito ao sacerdócio por linhagem explica a “ordenação” angelical de João Batista ao sacerdócio quando tinha oito dias de vida — a idade em que teria sido circuncidado (ver Doutrina e Convênios 84:28).

Um equivalente feminino da circuncisão não seria necessário devido à natureza da herança em uma ordem patriarcal.

Apesar da compreensão moderna da fisiologia, os povos antigos parecem ter entendido o excesso de pele que envolve a glande da anatomia masculina como algo que cobria ou bloqueava o pleno funcionamento ou a sensibilidade.

Assim, isso se tornou uma metáfora para estar encoberto ou ser insensível às coisas espirituais de maneira geral (ver, por exemplo, Jeremias 6:10; Êxodo 6:12, 30).

O que significa circuncidar o coração?

Como Jeremias destaca posteriormente, os israelitas de sua época talvez possuíssem essa marca física de pureza e de pertencimento a uma classe sacerdotal, mas já não tinham a receptividade espiritual correspondente.

O mandamento de Jeremias para circuncidar o coração pode ser compreendido em vários níveis.

Primeiro, circuncidar o coração sugere a ideia geral de remover qualquer barreira entre nós e Deus, abrindo o coração à influência divina.

Segundo, como sinal do convênio, circuncidar o próprio coração sugere que todas as pessoas devem permitir que o convênio de Deus entre em seu coração e interiorizar em sua vida o amor de Deus e Sua lei, que é concedida como parte desse convênio.

Imagem: IA e Equipe Mais Fé

Um convite para voltar à pureza

Por fim, compreender a circuncisão como algo relacionado aos bebês sugere outro significado para o conceito de circuncidar o coração.

Isso pode ser um chamado para que as pessoas se humilhem e retornem à pureza que possuíam quando nasceram.

Assim, circuncidar o coração é um convite para que todas as pessoas abram o coração a Deus, aceitem Seu convênio e se humilhem e se purifiquem como uma criancinha.

Fonte: Scripture Central

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