O jejum, ou seja, abster-se voluntariamente de comida e bebida por um período de tempo, é uma prática comum em A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Os santos são ensinados a combinar o jejum com oração para aprofundar a sensibilidade espiritual, favorecer a revelação pessoal e incentivar o serviço significativo.
Ainda assim, muitos se perguntam: jejuar por várias preocupações ao mesmo tempo diminui a eficácia ou o poder espiritual do jejum? É melhor focar em um único propósito ou é possível buscar bênçãos para várias situações ao mesmo tempo sem “diluir” a ajuda prometida?
Para responder à questão central, é importante primeiro desfazer um equívoco comum: o jejum não é um ato transacional, no qual alguém “ganha” um certo número de bênçãos ao suportar desconforto ou abstinência.
O jejum não é um ritual mágico que invoca uma quantidade específica de bênçãos sobre o objeto do jejum, de modo que essas bênçãos poderiam ser diluídas se fossem divididas entre várias coisas. Não estamos tentando subornar Deus nem garantir Seu favor divino apelando para o fato de que estamos jejuando.
O propósito espiritual do jejum
O jejum está ligado à humildade e ao desejo de alinhar nossa vontade com a vontade de Deus. Em vez de tentar influenciar Deus ou “marcar pontos”, o jejum é projetado principalmente para beneficiar a pessoa que jejua.
Por meio do jejum, as pessoas podem desenvolver maior sensibilidade espiritual, comunicação mais profunda com Deus, melhor compreensão da vontade divina e maior entendimento de seu papel diante dos desafios da vida.
As escrituras também destacam esse papel do jejum no crescimento espiritual. O Livro de Mórmon relata que os filhos do rei Mosias receberam o espírito de profecia e o espírito de revelação porque se dedicaram muito à oração e ao jejum (ver Alma 17:3), o que lhes permitiu ensinar com poder e autoridade de Deus.
Assim, o jejum tem menos a ver com exercer influência sobre Deus e mais com cultivar um ambiente espiritual interior receptivo à revelação.

Por que às vezes se aconselha jejuar por um único motivo?
Se o jejum não é transacional, por que às vezes há o conselho de focar em apenas uma preocupação durante o jejum? Não é por causa de alguma restrição vinda do Senhor.
A vida nem sempre se apresenta de forma organizada, permitindo que lidemos com apenas um problema de cada vez. Ainda assim, quando possível, pode ser útil focar em apenas uma coisa, não por causa de limites impostos por Deus, mas por causa das limitações humanas de concentração e reflexão.
Esse princípio ajuda a entender a sugestão prática de focar em um propósito durante o jejum.
Clareza mental e espiritual
Nossa mente e nosso espírito conseguem ponderar melhor sobre desafios específicos quando nos concentramos em um assunto. Se tentamos jejuar por tudo ao mesmo tempo, podemos nos sentir sobrecarregados, não porque o poder do jejum diminua, mas porque nossa capacidade de focar na oração pode ficar dispersa.
Priorização das experiências
Na prática, a vida frequentemente apresenta vários desafios ao mesmo tempo. Por isso, existe flexibilidade: não somos limitados quanto ao número de propósitos pelos quais podem orar ou jejuar.
Intencionalidade
O jejum convida à autoavaliação, à oração focada e a um relacionamento mais intencional com Deus. Quanto mais deliberadamente conectamos nosso jejum a preocupações ou perguntas específicas, mais preparados estaremos para perceber respostas ou receber forças para perseverar.
Ainda assim, a mensagem principal permanece: a eficácia do jejum não é limitada pelo número de preocupações, mas pela nossa capacidade de nos envolver sinceramente com Deus em relação aos desafios que enfrentamos.
Se você consegue concentrar-se em mais de um assunto sem se sentir dispersa ou superficial, você é livre para fazê-lo.
O sacrifício envolvido no jejum
Também é importante lembrar que o jejum envolve sacrifício. A irmão Kristin M. Yee ensinou o seguinte sobre isso:
“O jejum está ligado ao sacrifício, e o sacrifício simboliza nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, e Sua Expiação. Temos a oportunidade de ponderar com reverência Seu sacrifício enquanto buscamos inspiração para saber pelo que devemos jejuar e do que nos abster.”
Embora o desconforto seja uma experiência comum no início, muitas pessoas descobrem que o corpo se adapta com o tempo. Mais importante ainda, o sacrifício físico do jejum abre espaço para maior receptividade espiritual, refletindo o padrão das escrituras em que a privação física é acompanhada por abundância espiritual (ver Alma 17:3).
Propósitos do jejum na Igreja
O jejum também está associado a vários propósitos importantes:
Domínio próprio
Abster-se de alimento, uma necessidade diária, ensina disciplina e autocontrole, habilidades que fortalecem espiritualmente.
Empatia pelos necessitados
O desconforto da fome ajuda a nos conectarmos à realidade daqueles que não têm alimento suficiente, incentivando maior compaixão e caridade. Por isso, o jejum normalmente é acompanhado por uma oferta de jejum, destinada a ajudar pessoas necessitadas na congregação local e na comunidade.
Benefícios para a saúde
Para a grande maioria das pessoas, evitar comida por um dia pode até trazer benefícios à saúde. Se jejuássemos uma vez por mês, provavelmente veríamos benefícios reais para a saúde, embora sejam consideradas as situações de quem possui necessidades médicas reais.
Discernimento espiritual
Talvez a maior bênção do jejum seja o discernimento espiritual. As bênçãos do jejum são reais, poderosas e numerosas. Mas elas vêm àqueles que realmente jejuam. A capacidade de receber revelação pessoal, especialmente quando enfrentamos desafios complexos. É um dos dons mais especiais disponíveis por meio do jejum e da oração.
Quando alguém não pode jejuar
Nem todos conseguem jejuar no sentido tradicional, e a Igreja sempre ensinou compaixão e flexibilidade quando a saúde está em risco. A irmã Kristin M. Yee também nos lembrou de um conselho do presidente Nelson:
“Se a saúde não permitir o jejum habitual, o presidente Nelson nos aconselhou a “[decidir] o que constitui um sacrifício para vocês ao se lembrarem do supremo sacrifício que o Salvador fez por vocês”.”
Aqueles que realmente não podem jejuar não são condenados por isso, embora deixem de receber algumas das bênçãos associadas ao jejum. Ao mesmo tempo, somos convidados a examinar cuidadosamente nossas próprias limitações antes de concluir que não podemos jejuar.
Aqui vemos o equilíbrio entre ensinar o princípio e reconhecer limitações individuais.

A conexão com os céus é o que importa
Em última análise, o jejum tem o propósito de nos conectar com o céu e uns com os outros. As regras sobre quantas coisas alguém pode incluir em um jejum são melhor entendidas não como mandamentos restritivos, mas como sugestões baseadas na experiência.
Alguns princípios ajudam a resumir essa ideia:
A intenção guia o poder: o efeito espiritual do jejum vem da sinceridade e do foco da pessoa, não de seguir uma fórmula específica.
Flexibilidade no propósito: é possível jejuar por várias preocupações se o coração e a mente tiverem capacidade de tratá-las de forma significativa.
Receptividade espiritual é o objetivo: a promessa principal do jejum é aumentar nossa capacidade de receber direção de Deus e responder aos desafios da vida com mais fé, sabedoria e compaixão.
Ao jejuar, tornamo-nos mais sensíveis às impressões e ideias que podem ajudar a nós e às pessoas que amamos. O jejum pode nos ajudar a entender como agir ou, às vezes, dar-nos forças para continuar mesmo em meio às dificuldades.
Quando as pressões da vida trouxerem vários desafios ao mesmo tempo, não deixe que o medo de “diluir” o poder do jejum impeça você de orar e se sacrificar sinceramente.
Concentre-se no que puder, peça honestamente pelo que precisa, escute a orientação que vier e aja com fé — sabendo que a capacidade de Deus de abençoar é infinita, e que as bênçãos do jejum fluem da humildade, da sinceridade e de um coração voltado para o céu.
Fonte: Ask Gramps
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