Em agosto, a Bloomberg publicou uma reportagem com um título direto: “influenciadores estão sendo pagos para espalhar o evangelho da Igreja Mórmon”. O leitor comum entende isso de um jeito bem específico, que A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias estaria pagando criadores de conteúdo populares para pregar aos seus seguidores, disfarçando isso de testemunho pessoal espontâneo.
É uma acusação séria. O problema é que, segundo uma análise publicada pela Public Square Magazine, os próprios fatos citados pela Bloomberg não sustentam essa conclusão. A reportagem não inventa informações, mas junta atividades bem diferentes entre si sob um título que sugere uma conspiração que os fatos não comprovam.
Qual é a relação real da Igreja com os influenciadores?
Há cerca de dez anos, a Igreja chegou a testar o pagamento de influenciadores para gravar depoimentos pessoais, como fazem outras marcas. Mas, em 2018, decidiu abandonar essa prática, a crença religiosa é algo mais pessoal do que a opinião sobre um produto de consumo. De lá para cá, ou seja, há oito anos, isso não acontece mais.
O que a Igreja faz hoje é diferente: ela usa suas próprias agências de publicidade para produzir o conteúdo das suas redes sociais oficiais, contratando profissionais com experiência em mídias sociais para escrever, filmar, atuar e editar esse material. Como muitos desses profissionais já têm seguidores próprios, afinal, segundo uma pesquisa da CNBC, mais da metade da Geração Z hoje sonha em ser criadora de conteúdo, é natural que quem tem experiência nessa área também tenha presença online.
Esses profissionais são, na maioria, pessoas de fé que acreditam sinceramente na própria religião, e por isso compartilham sua fé espontaneamente, sem receber nada por isso. Alguns também topam participar de vídeos produzidos oficialmente pela Igreja mediante pagamento, mas esse pagamento não tem valores significativos e o conteúdo vai para os canais oficiais da Igreja, não para os perfis pessoais do influenciador. Não há nenhum caso documentado de um texto publicitário sendo apresentado como convicção pessoal.

Os encontros da Igreja com criadores de conteúdo
Outro ponto levantado pela Bloomberg é que a Igreja mantém contato frequente com criadores de conteúdo que já falam sobre a fé entre santos dos últimos dias, incluindo convites para eventos informativos. Por exemplo, a Presidência Geral das Moças recentemente organizou uma recepção para criadores de conteúdo conversarem sobre as mudanças no horário das aulas de domingo que passam a valer em setembro.
Segundo a análise da Public Square, esse tipo de evento funciona como uma coletiva de imprensa voltada a criadores de conteúdo, e não como uma forma de controle editorial. A Igreja fornece informações; ela não dita o que será publicado, e não há remuneração vinculada ao conteúdo final. Manter uma lista de contatos de criadores relevantes é uma prática comum a qualquer instituição bem organizada, inclusive veículos de imprensa tradicionais mantêm listas parecidas de jornalistas, sem que isso signifique controle sobre o que é publicado.
Por que esse tipo de cobertura pede cuidado
O formato escolhido pela Bloomberg, de insinuar uma coordenação secreta entre uma instituição religiosa, agências de publicidade e criadores de conteúdo, sem provar de fato essa coordenação, é um padrão de cobertura que historicamente tem sido usado contra minorias religiosas, alimentando teorias de manipulação oculta em vez de fatos concretos.
A lição não é evitar reportagens sobre dinheiro ou instituições religiosas, mas evitar que essas reportagens sejam construídas por insinuação, já que grupos religiosos minoritários costumam ser especialmente vulneráveis a esse tipo de leitura maliciosa.

E a More Good Foundation, o que é?
Já que o assunto é conteúdo religioso online, vale explicar uma organização que às vezes é confundida com a própria Igreja: a More Good Foundation.
A More Good Foundation é uma organização sem fins lucrativos, independente da Igreja, fundada em 2005 para suprir a falta de informações precisas sobre a Igreja na internet. Ela mantém sites e canais em mais de 15 idiomas, produz vídeos, artigos e materiais gráficos, e oferece treinamento para que membros comuns aprendam a compartilhar sua fé online.
A organização tem tanto funcionários remunerados quanto voluntários, mas não é administrada, dirigida ou controlada pela Igreja. A própria fundação descreve sua relação com a Igreja como parecida com a de “qualquer membro que compartilha o evangelho com vizinhos ou amigos”.
E é justamente daí que vem o Mais Fé: o site que você está lendo agora é um dos canais oficiais da More Good Foundation, o time responsável pelo conteúdo em português.
Quanto ao dinheiro: segundo o próprio site da More Good Foundation, a organização é financiada principalmente por doações de membros individuais.
Além disso, pode receber recursos de fundos, empresas e outras fundações, incluindo a Deseret Trust Company (um fundo administrado por doadores) e a Foundation of The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints, que por sua vez é sustentada pela receita de empresas que pertencem integralmente à Igreja.
É esse conjunto de doações, pessoais e institucionais, que paga a estrutura, os funcionários e a produção de conteúdo da More Good Foundation, incluindo o time por trás do Mais Fé.
Fonte: Public Square
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