Todo mundo concorda que a tolerância é importante. Ela é um princípio valorizado no debate político moderno. Mas ninguém acredita que devemos tolerar absolutamente tudo. A maioria das pessoas reconhece que é preciso estabelecer alguns limites razoáveis. Se isso é verdade, onde esses limites deveriam estar?

Alguns pensadores têm uma resposta que merece atenção. Os escritores Jonathan Haidt e Greg Lukianoff destacam que certos teóricos defendem que quem “detém o poder” na sociedade tem menos direito à tolerância do que quem “não detém o poder”. Eles citam o ensaio de 1965 do filósofo e sociólogo marxista Herbert Marcuse, chamado “Tolerância Repressiva” (um título que soa orwelliano, se é que já houve um).

A lógica é simples: se um lado é visto como poderoso e opressor, e o outro como fraco e oprimido, então tolerar os dois igualmente seria injusto. No lugar disso, Marcuse propunha a “tolerância libertadora”, que, nas palavras dele, “significaria intolerância contra movimentos da direita e tolerância em relação aos movimentos da esquerda”.

Marcuse reconhecia que sua ideia “parecia violar tanto o espírito da democracia quanto a tradição liberal de não discriminação”. Mesmo assim, ele argumentava que, quando uma grande parte da sociedade está sendo reprimida, seria justificável usar “repressão e doutrinação” para que a “maioria subversiva” chegasse ao poder que merece.

Haidt e Lukianoff chamam uma passagem do ensaio de “assustadora”, e dizem que ela antecipa o que acontece hoje em alguns campi universitários. Nela, Marcuse sugere que a verdadeira democracia poderia exigir negar a liberdade de expressão e de reunião a grupos com ideias que ele considerava agressivas ou discriminatórias, e até impor novas restrições ao que se ensina nas escolas e universidades.

Em resumo, o objetivo final dessa proposta não é a igualdade, mas uma inversão de poder. O próprio Marcuse deixou isso claro:

“A esta altura, deveria estar evidente que o exercício dos direitos civis por aqueles que não os possuem pressupõe a retirada dos direitos civis daqueles que impedem seu exercício, e que a libertação dos Condenados da Terra pressupõe a supressão não apenas de seus antigos senhores, mas também de seus novos senhores.”

Por isso, um apelo à tolerância nem sempre é inocente. Antes de julgar se ele é sincero ou legítimo, precisamos entender como ele funcionaria na prática.

E alguém poderia perguntar: quem tem o direito de decidir quando o equilíbrio de poder mudou, a ponto de os antigos opressores passarem a ser os oprimidos? Se a história nos ensina alguma coisa, é que quem passa a controlar o que pode ser dito e feito dificilmente é um governante benevolente.

Mas isso não significa que a tolerância deva ser aplicada a tudo. É aqui que entra a diferença entre tolerância e permissividade.

Tolerância versus permissividade

Embora os apelos a uma tolerância limitada, que proíba a expressão de determinadas ideias ou pessoas, possam ser problemáticos, isso não significa necessariamente que a tolerância deva ser estendida a todos os casos.

O presidente Boyd K. Packer, líder de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, escreveu bastante sobre a tolerância. Acredito que ele resume a questão de maneira brilhante e simples:

A palavra tolerância também é invocada como se estivesse acima de tudo o mais. A tolerância pode ser uma virtude, mas não é a virtude suprema. Existe uma diferença entre o que uma pessoa é e o que ela faz. O que uma pessoa é pode merecer tolerância ilimitada; o que ela faz, apenas uma quantidade moderada. Uma virtude, quando levada ao extremo, pode se transformar em um vício. A dedicação irracional a um ideal, sem considerar sua aplicação prática, pode arruinar o próprio ideal.

Na mesma linha, o presidente Russell M. Nelson advertiu:

“Pode-se fazer a suposição equivocada de que, se um pouco de alguma coisa é bom, muito deve ser melhor. Não é assim! Doses excessivas de um medicamento necessário podem ser tóxicas. A misericórdia ilimitada pode se opor à justiça. Da mesma forma, a tolerância sem limites pode levar a uma permissividade sem firmeza.”

Algumas pessoas acreditam que têm o direito de não ser ofendidas ou o direito de não ouvir coisas que não desejam ouvir. Isso simplesmente não funciona. Considere o que isso significaria na direção contrária: se fosse verdade, então eu teria o direito de não ouvir que as pessoas têm o direito de não ouvir coisas de que não gostam, porque eu não gosto dessa afirmação. Ela me ofende!

Ao contrário do que muitos acreditam, o “comportamento cristão” não significa nunca ofender ninguém ou causar qualquer desconforto. (Independentemente do que alguém pense sobre Jesus, é preciso reconhecer que Ele passou muito tempo com pessoas que se ofendiam com o que Ele dizia e fazia.)

O presidente Oaks observou que filhos que desejam cometer pecados graves, como morar juntos sem serem casados, levantam questões sérias para os pais:

Se um filho adulto estiver vivendo em união consensual, será que a gravidade das relações sexuais fora dos laços do matrimônio exige que esse filho sinta todo o peso da desaprovação da família, sendo excluído de qualquer contato familiar, ou será que o amor dos pais exige que o fato de ele estar vivendo em união consensual seja ignorado? Já vi esses dois extremos e acredito que ambos são inadequados.

Onde os pais devem estabelecer o limite? Essa é uma questão de sabedoria dos pais, guiada pela inspiração do Senhor.

Ele observa, entretanto, que nossa dedicação à verdade, que deve ser nossa maior lealdade, pode causar algumas dificuldades no relacionamento com a pessoa que se desviou:

Onde quer que se estabeleça o limite entre o poder do amor e a força da lei, a transgressão dos mandamentos certamente afetará os relacionamentos familiares amorosos. Jesus ensinou:

“Cuidais vós que vim dar paz à terra? Não, vos digo, mas antes dissensão;

Porque daqui em diante estarão cinco divididos numa casa: três contra dois, e dois contra três;

O pai estará dividido contra o filho, e o filho, contra o pai; a mãe, contra a filha, e a filha, contra a mãe; a sogra, contra sua nora, e a nora, contra sua sogra.” (Lucas 12:51–53).

Esse ensinamento solene nos lembra que, quando os membros da família não estão unidos no esforço de guardar os mandamentos de Deus, haverá divisões (talvez até inevitavelmente). Podemos e devemos agir de maneira proativa para evitar prejudicar os relacionamentos amorosos, mas às vezes isso acontece apesar de tudo o que podemos fazer.

Em meio a essas tensões, precisamos suportar a realidade de que o afastamento de nossos entes queridos diminuirá nossa felicidade, mas não deve diminuir nosso amor uns pelos outros nem nossos esforços pacientes para permanecermos unidos na compreensão do amor de Deus e das leis de Deus.

Assim, embora devamos ser bondosos e não procurar causar ofensas involuntárias ou desnecessárias, precisamos considerar que Jesus e os profetas não passavam, nem passam, muito tempo tentando garantir que ninguém fique incomodado com suas palavras.

Às vezes, se ninguém se sente minimamente desconfortável, isso significa que não estamos cumprindo adequadamente nosso papel de testemunhas de Deus e de Cristo “em todos os momentos e em todas as coisas e em todos os lugares em que vos encontreis, mesmo até a morte” (Mosias 18:9).

Como observou o presidente Packer:

Tive o privilégio de ensinar uma classe do instituto para os alunos da Universidade Harvard. Esses alunos finalmente descobriram que, quando tinham uma conversa sobre o evangelho e saíam dela tendo irritado, agitado ou causado desconforto a alguém, provavelmente haviam realizado muito mais do que se todos tivessem concordado com eles. E, considerando a maneira de pensar de muitas das pessoas com quem conversavam, se o santo dos últimos dias concordasse com tudo o que elas diziam, isso seria um indício de que ele estava errado.

Portanto, seguindo o espírito desse conselho, não diga: “Você está errado por viver em um relacionamento com alguém do mesmo sexo”. Isso é atacar a pessoa e, de qualquer forma, desvia do ponto central da discordância.

Em vez disso, diga, por exemplo: “O comportamento homossexual é proibido pelos profetas antigos e modernos. Sei que isso não trará felicidade duradoura, e seria errado da minha parte incentivá-lo. As pessoas podem escolher por si mesmas, mas não vou apoiar nem facilitar algo que acredito ser errado. Por que você me pediria para trair meus princípios e minhas promessas a Deus?”

Em última análise, acredito que nossa abordagem não deve se concentrar em criticar as pessoas, mas sim os princípios e as doutrinas. Se limitarmos os tipos de pessoas às quais estendemos nossa tolerância, o princípio perde seu significado. Mas, se tolerarmos todos os comportamentos, abriremos mão da capacidade de viver de acordo com nossa fé e de promover melhorias significativas em nossas comunidades.

Fonte: Public Square

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