Tirando as incríveis possibilidades da ficção cientifica, que geram um entretenimento divertido e empolgante, a questão já foi enfrentada por vários cientistas. Entretanto, neste artigo trataremos dos aspectos teologicos da questão.

O tempo é relativo

Várias escrituras falam sobre o tempo. Mas elas são claras em diferenciar o “tempo medido pelos homens” e o “tempo de Deus”. Lemos que

“Tudo tem o seu tempo determinado, e todo propósito debaixo do céu tem o seu tempo” (Eclesiastes 3:1)

Veja que a passagem fala sobre o tempo “debaixo do céu”. Para Deus a realidade temporal é bem diferente da nossa. Quando falava sobre a ordem em que se dará a ressurreição dos mortos, Alma acrescentou:

“tudo é como um dia para Deus e o tempo somente é medido pelos homens” (Alma 40:8)

Joseph Smith recebeu a seguinte pergunta: “Não é calculado o tempo de Deus, o tempo dos anjos, o tempo dos profetas e o tempo dos homens de acordo com o planeta em que habitam?” (D&C 130:4). E ele respondeu: “Sim”; e então acrescentou:

“Os anjos não habitam em um planeta como esta Terra; Mas habitam na presença de Deus, em um globo semelhante a um mar de vidro e fogo, onde todas as coisas passadas, presentes e futuras manifestam-se para sua glória; e estão continuamente diante do Senhor.” (D&C 130:6-7)

Então, os anjos – e o próprio Deus – não estão limitados a uma ordem temporal semelhante a nossa – pois não habitam em nosso planeta. Porém, há mais. Os seres celestes estão “libertos” de nosso tempo linear não apenas por não viverem nesta Terra – mas por sua intrínseca condição especial:

“[Deus] compreende todas as coisas e todas as coisas estão diante dele e todas as coisas estão ao seu redor; e ele está acima de todas as coisas e em todas as coisas e através de todas as coisas e ao redor de todas as coisas; e todas as coisas existem por ele e dele, sim, Deus, para todo o sempre.” (D&C 88:41)

Embora passado, presente e futuro estejam continuamente diante de Deus – e sejam “um eterno agora” (Moisés 1:6), as escrituras revelam que existe alguma realidade temporal superior – que permite a distinção entre eternidades (D&C 39:1) e eventos divinos (Abraão 5:1-3).

O Élder Neal A. Maxwell, um membro do Quórum dos Doze Apóstolos, explicou:

“Deus não vive na mesma dimensão de tempo em que vivemos. Não somos apenas limitados por nossa natureza finita (tanto experimental quanto intelectual), mas também por estarmos na dimensão do tempo. Além disso, como ‘todas as coisas estão presentes’ com Ele, Deus não prediz as coisas baseando-se apenas no passado. De um modo não muito claro para nós, Ele vê e não apenas prevê o futuro, porque todas as coisas estão presentes perante Ele”. (Things As They Really Are, 1978, p. 29; ver também Alma 40:8; D&C 130:4–7.)

Apesar de todos os mistérios que cercam o fenômeno do tempo, sabemos que Deus “deu uma lei para todas as coisas, pela qual se movem em seu tempo e em suas estações”. Sabemos que “seus cursos são fixos, sim, os cursos dos céus e da Terra, que abrangem a Terra e todos os planetas. E transmitem luz uns aos outros em seu tempo e em suas estações, em seus minutos, em suas horas, em seus dias, em suas semanas, em seus meses e em seus anos — e tudo isto é um ano para Deus, mas não para o homem” (D&C 88:42-44)

Existe outro apontamento a ser feito, quando falamos do tempo do Senhor. As escrituras afirmam que “um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (2 Pedro 3:8, Salmos 90:4). Joseph Smith aprendeu isso ao traduzir antigos papiros:

“Colobe, que significa a primeira criação, a mais próxima do celestial, ou seja, da morada de Deus. A primeira em governo, a última pertencente ao cálculo de tempo. O cálculo segundo o tempo celestial, tempo celestial esse que significa um dia por côvado. Um dia em Colobe é igual a mil anos, de acordo com o cálculo desta Terra, que é chamada pelos egípcios Ja-o-e.” (Fac-símile 2, Figura 1, Pérola de Grande Valor)

De fato, aprendemos com a teofania de Abraão:

“E o Senhor disse-me, pelo Urim e Tumim, que Colobe seguia, em suas revoluções, o padrão do Senhor quanto às suas épocas e estações; que uma revolução era um adia para o Senhor, segundo a sua maneira de calcular, sendo mil anos conforme o tempo designado para onde te encontras. Esse é o cálculo do tempo do Senhor, de acordo com o cálculo de Colobe” (Abraão 3:4)

jesus cristo

A doutrina da Expiação e o tempo

A Expiação de Jesus Cristo é o sacrifício infinito e eterno que foi realizado por um Deus amoroso para nós e para toda Criação. Cristo sofreu as angustias, pecados e dores para que todos e tudo fossem salvos, caso cumprissem Sua lei.

Creio que a compreensão da natureza da Expiação é a chave para respondermos várias questões fundamentais e outras nem tão relevantes assim. Portanto, suspeito que se entendermos suficientemente sobre a Expiação poderemos até mesmo descobrir se viajar no tempo é ou não uma possibilidade.

A Expiação foi realizada em um momento da eternidade, e os homens podem apontar quanto ela se deu. Começou na madrugada de quinta para sexta-feira, durante a oração fervorosa de Cristo no Getsêmani – e prosseguiu até o momento glorioso da ressurreição na manhã de domingo. Isso se deu no meridiano dos tempos, quando o Senhor tinha cerca de 33 anos.

Todavia, em termos de alcance e eficácia, a Expiação é atemporal. O Élder Tad R. Callister, dos Setentas:

“A Expiação realmente se aplica pela ‘infinita vastidão da eternidade’ retroativamente e prospectivamente. (…)

Esse também foi o testemunho do Salvador: ‘A minha salvação durará para sempre’ (Isaías 51:6)” (Expiação Infinita, pg. 84)

Assim, se fosse possível um homem voltar no tempo, para, por exemplo, desfazer seus erros ou evitar a dor, os propósitos da Expiação estariam distorcidos. De fato, com a possibilidade de refazer a prova mortal não seria necessária fé em Deus, arrependimento e ordenanças do Evangelho.

Poder-se-ia especular que como a Expiação é infinita poderia cobrir uma infinidade de situações remendadas pelo retorno temporal. Com relação a eficácia não há questionamento mesmo, pois a Expiação fez com que o Senhor “fosse em tudo e através de todas as coisas” (D&C 88:6). Contudo, quanto a possibilidade metafísica de viagens do tempo as escrituras mostram ser impossível.

Lemos que certa ocasião o “sol se deteve, e a lua parou, até que o povo [de Israel] se vingou de seus inimigos” (Josué 10:12-14). Em outra lemos sobre um sinal que o profeta Isaías deu ao iníquo rei Acaz fazendo o tempo demorar mais (Isaías 38:7-8). Estes casos são explicados no Livro de Mórmon:

“Se [Deus] diz à Terra — Volta para trás, a fim de que se prolongue o dia por muitas horas — isso é feito;

E assim, segundo sua palavra, a Terra volta para trás, parecendo aos homens que o sol está parado; sim, e eis que assim é; porque certamente é a Terra que se move e não o sol.” (Helamã 12:15)

Veja: parecendo aos homens que o sol esta parado. Deus, que tem todo poder, é capaz de todas as coisas dentro dos próprios limites da realidade que Ele criou. Mas mesmo que a Terra volte para trás, o tempo linear dos homens não volta – somente gera uma impressão de prolongamento.

Nenhuma passagens das escrituras fala sobre viagens no tempo, exceto quando trata de visões da eternidade, como falarei mais adiante.

Voltar no tempo para alterá-lo é impossível frente a doutrina da Expiação e outras passagens das escrituras. A verdade é que “Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus” (1 Pedro 3:8). E que “se não fizermos melhor uso de nosso tempo nesta vida, virá a noite tenebrosa, durante a qual nenhum labor poderá ser executado” (Alma 34:33).

árvore

Acessar o passado X viver novamente

Enquanto a doutrina da Expiação não dá margem a viagem no tempo, para alterar o passado, ela parece concordar com a possibilidade de acessá-lo.

Profetas nas escrituras viram eventos passados e futuros – seja nosso passado pré-mortal (Abraão 3), a criação do mundo (Gênesis 1-2) e viram o futuro (1 Néfi 11-14). O termo vidente tem especial significado neste contexto: um vidente “pode saber tanto de coisas passadas como de coisas futuras” (Mosias 8:17).

O próprio Salvador fez profecias sobre os últimos dias (Mateus 24). Assim, a capacidade de saber exatamente o que se passou e exatamente o que se dará é um dom espiritual recorrente nas escrituras, o que significa que é possível acessar o passado – vê-lo e senti-lo – de modo perfeito – porém sem revivê-lo ou alterá-lo.

É-nos dito que no futuro quando esta Terra, em seu estado santificado e imortal, for transformada como em cristal:

“será um Urim e Tumim para os seus habitantes, pelo qual todas as coisas pertencentes a um reino inferior ou a todos os reinos de uma ordem inferior manifestar-se-ão àqueles que nela habitam; e esta Terra será de Cristo.”

Também sabemos que os que merecerem o Reino Celestial receberão

“a pedra branca, mencionada em Apocalipse 2:17, (…) e por ela tornar-se-ão conhecidas as coisas pertencentes a uma ordem superior de reinos” (D&C 130:9-10)

Nessa condição exaltada seremos semelhantes a Deus – e estaremos numa realidade temporal especial – e tudo será um eterno hoje. Teremos pleno acesso a todo conhecimento dos “reinos inferiores” – passado, presente e futuro.

Conclusão

Muito mais poderíamos investigar sobre a interessante questão proposta. Mas ao refletirmos sobre as teorias cientificas e implicações filosóficas – devemos considerar aquilo que as escrituras revelam com clareza. Uma das verdades fundamentais é a Expiação de Jesus Cristo. O sacrífico Dele por todos nós implica que podemos corrigir nossas falhas – mas não mediante ao retorno ao passado – mas por meio do arrependimento sincero.

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