Bethany Brady Spalding e McArthur Krishna são autoras da série de livros infantis Girls Who Choose God e dos guias A Girl’s Guide to Heavenly Mother e A Boy’s Guide to Heavenly Mother.

Em uma entrevista, elas responderam a uma pergunta de fundo: é possível valorizar o que foi revelado sobre a Mãe Celestial sem cair no tipo de debate acalorado que se vê nas redes sociais? Para as duas autoras, a resposta é sim, e começa pela alegria.

O que a Igreja ensina

A doutrina de uma Mãe Celestial não é exclusiva dos santos dos últimos dias, já que várias religiões do mundo apontam, de algum modo, para o feminino divino. Ainda assim, ela distingue a Igreja de outras igrejas cristãs.

O texto oficial Mãe Celestial, da seção Tópicos do Evangelho, resume o ensino: todos os seres humanos, homens e mulheres, são amados filhos espirituais de pais celestiais, um Pai Celestial e uma Mãe Celestial. Foi esse texto que delimitou o trabalho das duas autoras.

Elas explicam que não pretendem elevar essa doutrina acima de outras verdades do evangelho, nem acima do Pai Celestial. Querem apenas dar mais luz a uma crença que o próprio texto chama de “apreciada e distinta” e que, para muitos, ficou na sombra.

Quando algo é negligenciado ou mal compreendido, dizem, às vezes é preciso dar atenção extra para restaurar o equilíbrio. A Primeira Presidência e o Quórum dos Doze já haviam declarado, em A Família: Proclamação ao Mundo, que “cada indivíduo é um filho (ou filha) gerado em espírito por pais celestiais que o amam e, como tal, possui natureza e destino divinos”.

Segundo McArthur, quem aprendeu que a Mãe Celestial é sagrada demais para ser mencionada tem uma ideia que não é doutrina: o texto oficial e o artigo que ele cita, A Mother There, mostram o contrário. Falar dela com respeito é possível, e as autoras sugerem que isso seja feito com base no que já foi revelado.

representação do pai e da mãe celestial olhando para seus filhos

O limite que a Igreja ensina

As duas insistem em respeitar a linha traçada pelo élder Dale G. Renlund, no discurso Sua natureza divina e seu destino eterno, da conferência geral de abril de 2022.

Ele lembrou que muito pouco foi revelado sobre a Mãe Celestial e que o que sabemos está resumido naquele texto. Também alertou que a especulação não leva a um conhecimento espiritual mais elevado e pode desviar o foco do que já foi revelado.

E repetiu o padrão ensinado por Jesus: a adoração é dirigida ao Pai Celestial, em nome de Jesus Cristo, e os santos dos últimos dias não oram à Mãe Celestial. Como disse o presidente Gordon B. Hinckley, citado no texto oficial, não orar a ela “não a diminui ou deprecia”.

Bethany e McArthur dizem que não querem mais doutrina do que a revelada. Querem mais conversa e mais aplicação do que o texto oficial já ensina.

Por que isso importa

Para McArthur, a doutrina ajuda a entender temas centrais do plano de salvação: a vida pré-mortal, o nascimento, as famílias eternas, o progresso divino e a exaltação. Ela cita o então élder Dallin H. Oaks: “Nossa teologia começa com pais celestiais, e nossa mais alta aspiração é a de alcançar a plenitude da exaltação eterna”, palavras reproduzidas no texto oficial e no discurso do élder Renlund.

Para as mulheres, diz McArthur, conhecer a Mãe Celestial amplia a visão do próprio destino. Um homem pode aspirar a ser como o Pai Celestial, mas ela nunca será um pai, e sim uma mãe nos céus.

Por isso a doutrina ajuda a entender o destino divino das mulheres. Entre as mulheres de mais de um país, ela e Bethany ouviram relatos de alegria ao aprender isso, e de renovado ânimo para atender ao apelo que o presidente Russell M. Nelson fez, em Um apelo às minhas irmãs, para que “deem um passo adiante” e ocupem “seu lugar de direito, em sua casa, em sua comunidade e no reino de Deus”.

O assunto também alcança os homens. Bethany conta que, ao falar a jovens de um ramo de língua espanhola, os rapazes perceberam logo que o machismo, tão presente em muitas culturas, não combina com a ideia de homens e mulheres trabalhando lado a lado.

Ela cita ainda o relato de um pai que usou os guias para conversar com os filhos universitários sobre as qualidades que esperam encontrar na futura esposa. E o consolo que o próprio pai de Bethany, que perdeu a mãe aos seis anos, encontrou na fala do presidente Harold B. Lee de que temos um Pai Celestial e uma Mãe Celestial “ainda mais preocupados conosco do que nosso pai e nossa mãe terrenos”.

Para McArthur, o texto oficial mostra que os Pais Celestiais trabalham juntos, lado a lado, na salvação de Seus filhos. Esse é o “padrão divino” que homens e mulheres podem seguir.

Elas também veem efeito em culturas onde as mulheres são desvalorizadas ou onde a violência doméstica é aceita. A doutrina reforça a mensagem registrada em 2 Néfi 26, a de que todos são iguais perante Deus. Uma amiga de Bethany, presidente da Sociedade de Socorro em Cidade do Cabo, na África do Sul, que atua com mulheres vítimas de violência doméstica, comentou como entender uma Mãe Celestial, ao lado do Pai, poderia mudar vidas em sua comunidade.

Sem competir com o Pai e com Jesus Cristo

Uma preocupação comum é que a atenção à Mãe Celestial possa tirar o foco do Pai Celestial e de Jesus Cristo. McArthur diz que nunca encontrou alguém que, ao conhecer melhor essa doutrina, passasse a achar que ela substitui a Expiação de Cristo ou diminui o Pai.

Segundo ela, as pessoas passam a ver melhor como os Pais Celestiais estão unidos em favor de Seus filhos. A Expiação é a ponte que nos leva de volta para ser como Eles e estar com Eles. Em “Vem, e segue-me”, o presidente Nelson ensinou que Jesus Cristo nos convida a trilhar o caminho do convênio para que voltemos “ao lar de nossos Pais Celestiais” e estejamos com nossos entes queridos.

No discurso Retornar e receber, o élder M. Russell Ballard testificou que viver para sempre com os Pais Celestiais e com o Salvador é também o objetivo Deles: “Somos Sua obra. Nossa glória é Sua glória.”

Ela lembra ainda a frase do texto oficial, atribuída ao élder Rudger Clawson: honramos a mulher quando reconhecemos nela a divindade em seu Modelo eterno. Adorar a Mãe, escreveu ele, não tira nada da adoração ao Pai, assim como incluir nossas mães terrenas em nosso afeto não diminui o amor que temos por nossos pais.

Equilíbrio e gratidão

Bethany e McArthur reconhecem o risco do excesso de zelo, em qualquer assunto, e dizem ver isso nos dois lados do debate. Houve quem fosse longe demais, e houve também líderes locais que proibiram os membros de falar da Mãe Celestial na igreja, o que também é exagero. Para elas, o remédio é o equilíbrio e a gratidão pelo que já foi revelado.

Bethany lembra ainda que o perfeito amor lança fora o temor (1 João 4), e que conhecer os Pais Celestiais deveria afastar o medo, não criá-lo.

Elas também defendem que a linguagem pode se ampliar de forma natural, sem abandonar os títulos de Pai e de Cristo, falando de “Pais Celestiais” quando for doutrinariamente correto. Para Bethany, conhecer a Mãe Celestial aprofundou, e não reduziu, a admiração pelo Pai e pelo Salvador. Como mãe, ela passou a perceber melhor o sacrifício de dar um filho ao mundo.

Um convite

Perguntadas sobre o que diriam a quem está frustrado com o assunto ou quer entendê-lo melhor, as duas dão conselhos práticos.

McArthur sugere estudar o texto oficial, que já traz bastante: a Mãe Celestial nos ama, se preocupa conosco e trabalha com o Pai pela salvação de Sua família.

Sugere também perguntar a Deus e agir: se acreditamos nessa doutrina, devemos vivê-la em nossa comunidade de fé e abençoar a vida de outras pessoas. Bethany acrescenta que, mesmo que só se estude o que o texto oficial ensina, o efeito para meninas e mulheres já seria revolucionário.

McArthur encerra com uma lembrança: além de um Pai e de um Irmão, temos uma Mãe. Para ela, essa é uma verdade para se alegrar, e a alegria é o que ela quer proteger no meio do debate.

Fonte: Public Square

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