Confesso que, ao me tornar membro de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias aos 21 anos, não compreendia muitas coisas a respeito do Evangelho Restaurado de Jesus Cristo. E sei que ainda tenho muito mais a compreender. Mas aprendi a focar no que já me foi revelado, nas primeiras impressões que o Espírito me deu, nas confirmações que vieram ao longo do tempo, e no testemunho que só foi alcançado porque busquei, com sinceridade, me colocar inteiramente à disposição do aprendizado.
Essa jornada não foi linear, foi construída em meio às dúvidas, críticas e também em momentos nos quais o Senhor falou tão claramente ao meu coração que não me restava outra resposta senão a gratidão.
A dúvida como um ponto de partida
Quando me deparei pela primeira vez com a doutrina do batismo vicário, senti um estranhamento genuíno. Não poderia permanecer em uma religião praticando algo que não compreendesse ou em que não acreditasse de verdade.
Ao mesmo tempo, havia algo maior que me segurava: a sensação de que estava no lugar certo, e que o Senhor, no tempo Dele, resolveria o que ainda estava em incerto. Aprendi, naquele período, uma das lições mais valiosas da minha vida espiritual: a de confiar no tempo de Deus, mesmo quando as respostas ainda não chegaram.
Havia também um hino que me causava desconforto. Toda vez que ele era cantado na reunião sacramental, eu me sentia distante, como se as palavras fossem de outro idioma. O hino era “Assombro me causa“, e eu, que ainda não o compreendia, não conseguia me conectar com o que ele tentava expressar.

O templo e o que as palavras não alcançam
Os anos passaram. Em 2021, realizei o batismo vicário em favor do meu pai, que havia falecido em 2019. O que senti naquele momento dentro do templo foi difícil de descrever. Pesquisei em mim mesma, vasculhei meu vocabulário, mas não encontrei palavras à altura do que vivi. Era algo que pertencia a uma dimensão que a linguagem humana mal consegue tocar.
A professora e genealogista Amy Harris, da Universidade Brigham Young, escreveu com precisão sobre essa sensação ao refletir sobre sua própria trisavó, Hannah Mariah Eagles Harris:
“O trabalho de templo e história da família nos oferece a oportunidade de participar da obra de salvação de Jesus Cristo, e ao fazermos isso, aprendemos a amar de forma que vai além dos limites do tempo e do espaço.”
É exatamente isso. No batistério do templo, eu não estava sozinha, meu pai também estava lá. Era uma conexão que atravessava a morte. E a certeza profunda que tinha em mim vai além dos olhos da fé.
Dias depois, durante uma reunião sacramental, foi cantado o hino “Assombro Me Causa”. E então o Senhor me preencheu com mais entendimento.
O hino que passou a fazer sentido
Eu já estava me preparando para prestar meu testemunho sobre o que havia vivido no templo quando as palavras do hino me alcançaram de um jeito diferente. Senti, mais uma vez, o Senhor falando comigo e me dando a confirmação de tudo que estava vivendo. Até as palavras que me faltavam Ele me deu.
Fui pesquisar o que aquele hino significava de verdade. E compreendi: fazer parte do Evangelho Restaurado é um privilégio e um assombro. Não um assombro de susto ou de medo, mas de espanto diante do extraordinário, a palavra certa para algo que é grandioso demais para ser recebido de qualquer jeito. Se nos deixarmos ser guiados pelo Espírito, Ele nos mostrará todo o impacto do que o Salvador fez por nós.
Jesus Cristo desceu à mansão dos mortos e fez o que ninguém mais poderia fazer, abriu um caminho de salvação e vida eterna para todos nós, incluindo aqueles que partiram sem ter tido a oportunidade de receber as ordenanças do Evangelho em vida.

O alcance misericordioso da Expiação
Amy Harris escreve que a pesquisa da história da família e a realização das ordenanças do templo por nossos antepassados nos ajudam a ver, ao mesmo tempo, a vastidão e o caráter íntimo do plano de Deus. Essa tensão, entre o imensurável e o profundamente pessoal, é o que torna essa doutrina tão profunda.
O Profeta Joseph Smith descreveu a salvação pelos mortos como o “mais glorioso de todos os assuntos pertencentes ao evangelho eterno” (D&C 128:17). E faz sentido. Porque ela revela um Deus que não abandona ninguém, que preparou um caminho para que todos os Seus filhos possam, em algum momento, escolher a plenitude das bênçãos do Evangelho, independentemente das circunstâncias da mortalidade.
Harris também observa que o Senhor, que vê até um passarinho cair e vai atrás de uma única ovelha perdida num rebanho de cem, não redime em massa, mas um por um. Cada nome que pesquisamos, cada ordenança que realizamos, é um ato de amor dirigido a uma pessoa específica, com uma história específica, amada individualmente por Deus.
Foi exatamente isso que senti no batistério do templo quando meu esposo se submeteu às águas em favor do meu pai. Não era apenas um ritual sem significado. Era eu, filha, falando ao Pai Celestial sobre meu pai terreno, e sentindo que Ele ouvia.
O que muda quando conhecemos nossos antepassados
Uma das reflexões mais belas do artigo de Amy Harris é sobre o efeito que o conhecimento das histórias de nossos antepassados tem sobre o nosso coração. Ela conta que, quando as pessoas veem a única fotografia conhecida de sua trisavó Mariah, costumam descrever sua fisionomia como sisuda e antipática.
Mas Harris a defende imediatamente, porque a conhece. Conhece a mulher que atravessou o oceano, perdeu um filho recém-nascido, caminhou centenas de quilômetros em direção a uma nova vida, e fez convênios sagrados ao longo de tudo isso.
Esse conhecimento gera amor. E esse amor, diz ela, refina nossa capacidade de amar os vivos também, nossos familiares, nossos vizinhos, todos os filhos de Deus que cruzam nosso caminho.
Ao realizar o batismo vicário por meu pai, não era apenas uma ordenança que eu estava completando. Era um ato de amor. Era dizer: eu te conheço, eu te amo e acredito que o Salvador pode alcançar até onde eu não consigo.

“Oh! ele me amou e assim me resgatou.”
Hoje entendo por que o hino se chama “Assombro Me Causa”. O Evangelho Restaurado não é algo que se recebe com facilidade, é algo que, quanto mais compreendemos, mais nos espanta. A vastidão do plano de salvação, o alcance individual da Expiação, a possibilidade de que os laços familiares continuem além da morte, tudo isso é extraordinário!
Que o Senhor continue me abençoando com esse assombro, e que eu nunca perca a capacidade de me maravilhar com o quanto Ele nos ama.
Veja também
- Participe: A nova maneira de ajudar na história da família
- Como “incluir” a história da família no que já estamos fazendo
- Como o templo e a história da família aproximam você de Deus



