Adotar um tipo de Natal totalmente diferente

Toda vez que eu conversava com minhas quatro sobrinhas no telefone em dezembro, eu perguntava o que elas esperavam que o Papai Noel lhes trouxesse no Natal naquele ano.

As respostas eram sempre imediatas e sem hesitação, “Uma boneca! Uma boneca!” elas diziam em coro.

Eu poderia dizer pela mudança de tom de suas vozes que elas estavam pulando de entusiasmo.

Minhas sobrinhas se apaixonaram por um tipo específico de boneca durante uma visita que nos fizeram na Geórgia. Todas as meninas da vizinhança estavam brincando com aquelas bonecas na época.

Ao voltar para Utah, minhas sobrinhas não se esqueceram das bonecas, e todas sabiam exatamente o que queriam naquele ano. Isso me fez estremecer um pouco, porque aquele tipo de bonecas era um pouco caro.

Cada uma era feita à mão individualmente. Isso foi antes das bonecas começarem a serem produzidas em massa.

Quando elas passaram o telefone para minha irmã, percebi que ela estava um pouco estressada com aquilo. Claro que ela estava!

Depois de ter quatro filhos, seu marido havia decidido que seu sonho não era construir casas, mas tornar-se arquiteto e projetá-las, então ele voltou a estudar.

O orçamento era um pouco apertado, já que meu cunhado agora era um estudante e não trabalhava em tempo integral.

Em minha casa, por outro lado, a situação era diferente. Meu marido era formado em direito, conseguiu um emprego em um escritório de advocacia como associado e trabalhou tempo suficiente para ser considerado sócio. E só lhe falta mais um ano para que isso se tornasse realidade.

Pela forma engraçada como os exercícios fiscais eram apurados em sua empresa, sabíamos com antecedência que no ano em que ele se tornasse sócio, em dezembro ele ainda não receberia seu pagamento de sócio.

O primeiro cheque como sócio viria em janeiro. Fomos avisados por outros colegas de que, no ano em que você se tornasse sócio, o Natal provavelmente seria mais ‘magro’.

Soubemos disso um ano antes então naquele ano tínhamos dinheiro suficiente para dar aos nossos filhos o que eles queriam no Natal.

Como sabíamos que o ano seguinte provavelmente teríamos um Natal magro, me empenhei muito na compra de presentes naquele ano.

Em dezembro antes do Natal, toda vez que ligava para minha irmã, perguntava se ela havia comprado as bonecas para as meninas, e ela sempre dizia: “Só não consigo encaixar isso no orçamento deste ano”.

Finalmente, pouco antes do Natal, ela me contou que havia encontrado algumas bonecas em uma liquidação e comprado quatro. Mesmo não sendo exatamente o que as meninas queriam, ela disse que era o que podia comprar.

Fiquei triste ao pensar naquelas quatro lindas garotinhas acordando na manhã de Natal e não tendo o único presente que tanto queriam. Eu não tinha certeza se Diana, minha irmã, me deixaria enviar dinheiro para as bonecas.

Então, liguei para minha mãe e disse que gostaria de enviar a ela algum dinheiro para comprar quatro bonecas do modelo que minhas sobrinhas queriam e pedi que ela as levassem para minha irmã. Minha mãe ficou emocionada por estar envolvida neste pequeno plano de Natal.

Na manhã de Natal, enquanto meus filhos abriam os presentes, percebi rapidamente que havia exagerado.

Eles ficaram entediados de abrir presentes, então foram comer alguns chocolates e brincaram com um de seus presentes.

Tivemos que persuadi-los a abrir seus presentes! Havia muitos presentes. Então, um alarme disparou na minha cabeça, “o que há de errado com esta imagem?”

Depois que toda a correria do Natal acabou, meus filhos queriam ligar para suas primas em Utah. Minhas sobrinhas ficaram muito felizes com suas novas bonecas!

Quando Diana pegou o telefone, perguntei a ela sobre as crianças. “Sim, você não vai acreditar, mas a mamãe apareceu na véspera de Natal com as quatro bonecas. Ela disse que simplesmente não conseguia suportar a ideia de as meninas acordarem sem poder receber as queridas bonecas que tanto queriam. Elas foram um grande sucesso!”

Eu disse: “É muito legal que cada uma delas agora tem duas bonecas para brincar”. Diana disse: “Bem, na verdade, depois que mamãe chegou com as novas bonecas, eu pensei: ‘Minhas meninas não precisam realmente de duas bonecas. Temos uma família em nossa ala com seis filhos. O pai ficou muito doente e por isso perdeu o emprego. Eles têm quatro meninas, então levei as bonecas para a mãe delas na véspera de Natal. Ela ficou tão emocionada ao recebe-las!’”

Aquilo me atingiu como um soco no estômago. Enquanto conversávamos, olhei para a nossa sala de estar cheia de presentes e papéis de embrulho espalhados por todo lugar. Eram muitos brinquedos! Eram brinquedos demais!

Às vezes, na vida, sinto que recebemos uma mensagem forte e inegável do outro lado do véu. Este foi um daqueles momentos. Senti como se alguém estivesse sussurrando em meu ouvido: “Sua irmã está lhe ensinando uma lição valiosa”.

Tivemos uma Noite Familiar com nossos filhos na semana seguinte e dissemos que estávamos pensando na melhor maneira de celebrar o nascimento de Jesus.

Todos nós compartilhamos ideias sobre que tipo de comemoração deixaria Jesus Cristo mais feliz em Seu aniversário.

No final, todos decidimos que seguiríamos o exemplo de partilhar de minha irmã. Meus filhos concordaram que um brinquedo seria o suficiente.

Então, perguntamos se nossa família poderia gastar o dinheiro extra em um presente para Jesus.

Afinal, o Natal era o aniversário DELE! Minha filha mais velha mencionou que a família de uma amiga dela estava adotando uma criança no Natal por meio do uma ação de caridade.

Arte: A Savior is Born – Joseph F. Brickey

“Talvez pudéssemos fazer algo assim com o dinheiro extra?” Pesquisamos o que uma ‘adoção’ proporcionava a uma criança em um país do terceiro mundo e como afetava sua vida.

Todos concordaram, este seria o presente de aniversário perfeito para o nosso Salvador. Meus filhos ficaram muito animados com a ideia e todos nós “votamos” para fazer uma mudança na tradição de Natal de nossa família.

Isso foi há mais de 30 anos. No início, fiquei preocupada que, quando chegasse o momento, as crianças voltariam atrás em sua decisão de receber somente um presente.

Mas, surpreendentemente, elas não se importavam. Colocamos a foto da nossa primeira crianças e amiga ‘adotada’ na geladeira. Nossos filhos escreveram cartas para ela. Nós a incluímos em nossas orações familiares.

A cada ano, adotávamos outra criança. Logo nossa família foi enriquecida com histórias de crianças em muitos países diferentes ao redor do mundo.

Aprendemos sobre seus países. Ficamos felizes à medida que se formavam em uma nova série a cada ano.

Meus filhos adoravam escolher os presentes de Natal para cada uma daquelas crianças. Com o tempo, conforme as crianças cresciam, elas não prestavam tanta atenção na criança que adotávamos, mas todas pareciam orgulhosas do que havíamos escolhido fazer.

Para ser sincera, alguns anos me dediquei mais do que em outros. Alguns anos eu olhava para o presente para cada um dos meus filhos e pensava: “Eles ficarão decepcionados. Talvez eu compre algo a mais”.

Durante um tempo, adicionamos um “presente para a família” à regra de um presente por criança. Isso me dava um pouco mais de liberdade.

O engraçado é que não me lembro de nenhuma das crianças reclamar. Tenho certeza que eles reclamaram. Porém, no final, geralmente seguimos essa regra.

Acredito que isso tornou nosso Natal melhor. Por um lado, tínhamos mais tempo. Conforme nossa família crescia (eventualmente para dez filhos), eu não tinha que passar meses fazendo compras para o Natal.

Eu normalmente conseguia comprar tudo em um único dia de compras. Isso reservou mais tempo para atividades familiares em dezembro: cantamos para nossos vizinhos, assamos biscoitos e levamos para os amigos, viajamos para ver as luzes de Natal em diferentes lugares, etc.

Não tínhamos mais aquela pressão financeira. Aquela ação realmente trouxe um Espírito diferente para o Natal de nossa família.

A outra diferença surpreendente é que as crianças sempre pareciam satisfeitas com seu único presente.

Antes, parecia que eles estavam sempre comparando seu “estoque” com o que seus amigos recebiam.

Não importa o que ganhavam, alguns amigos sempre os superavam. Mas a regra de darmos somente um presente para cada, de alguma maneira acabou com a insaciabilidade que nos atormentava.

Eu amo as muitas tradições das quais pude participar desde então, pois tivemos filhos que serviram como missionários em alguns países ao redor do mundo.

As tradições de cada país pareciam aumentar nosso apreço pelo mais milagroso dos eventos – o que Deus enviaria Seu Filho à terra como um bebezinho, que um dia cresceria e, por meio de Seu amor incompreensível, levaria a efeito a milagrosa Expiação que salvaria a todos nós.

Sei que cada família tem sua própria maneira de celebrar o Natal. Não existe um caminho certo!

Outras famílias ensinaram a minha família sobre como criar belas e espirituais memórias de Natal. O materialismo tende a sufocar o Espírito do Natal.

Tive a oportunidade de aprender com muitas famílias de meus amigos, pois eles encontraram maneiras de capturar o verdadeiro espírito de Natal em meio a um mundo consumido por bens materiais.

Um ano, Allison, a filha adolescente de uma de minhas amigas que enfrentavam algumas dificuldades, chocou seus pais e eu ao dizer que ela tinha “coisas” suficientes em sua vida.

Em vez de comprarem presentes para o Natal, ela pediu que adotassem uma criança. Isso me surpreendeu, e pensei comigo mesmo: “Essa garota vai ficar bem!”

Allison me inspirou e então, no ano seguinte, perguntei aos meus filhos se em vez de me presentearem, eles se importariam em doar o dinheiro para a construção de um poço em uma colônia de centenas de pessoas na Índia que não tinha acesso a água potável.

Naquele ano meu presente de Natal foi uma foto de água potável fluindo pela primeira vez em uma colônia em Gandhiji. Eu ainda fico emocionada quando penso nisso!

Desde a decisão de Allison de “adotar” uma criança como seu próprio presente de Natal,  ao longo dos anos um número impressionante de outras crianças tiveram a mesma ideia.

Elas variam de 5 a 18 anos. Em vez de ganhar bonecas, essas crianças estão “adotando” crianças reais e dando-lhes uma nova vida.

Também tivemos crianças que fizeram festas de aniversário com pedidos para que seus amigos não trouxessem presentes, apenas dinheiro suficiente para ajudar a patrocinar uma criança por um ano.

Esses exemplos são sempre muito humildes e nos trazem um nó na garganta. Eu não fui esse tipo de criança! Me sinto humilde pelas coisas que Deus está me ensinando nesta geração através dessas crianças!

Todos nós recebemos muito de Deus! Hoje, mesmo a classe média baixa vive melhor do que os reis, rainhas e realeza da antiga Europa e Ásia.

Em vez de castelos frios e úmidos, temos casas ou apartamentos com aquecimento e ar-condicionado, com luz ao toque de um interruptor.

Temos água corrente – água limpa – até o luxo da água quente ao abrir a torneira. Temos sistemas de esgoto e sistemas de informação e educação à disposição de todos.

Em vez de sanguessugas para remédios, temos antibióticos, vacinas contra doenças mortais, remédios modernos e cirurgias. Em vez de uma expectativa de vida de 35 anos, podemos razoavelmente esperar viver 70. Sim, Deus nos deu muito!

É uma bênção que podemos ser criativos uma vez por ano e que podemos encontrar maneiras de dar algo em troca a Deus no aniversário de Seu Filho!

Este ano é um ano particularmente desafiador. Devido à pandemia da Covid-19, pode haver muitos ao nosso redor que estarão em circunstâncias difíceis devido à perda de seus empregos.

Se formos um dos sortudos por ainda ter um emprego, espero que possamos ter olhos para ver como podemos compartilhar com aqueles que não têm.

Se somos nós que não estamos com nossos recursos financeiros normais, espero que nesta temporada haja outros que nos ajudem.

Certamente, juntos podemos encontrar maneiras criativas de usar esta pandemia para nos ajudar a nos tornarmos um pouco mais como um povo de Sião, unidos em coração, mente e espírito!

Fonte: Meridian Magazine

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