A ansiedade é contagiosa então não ajude a propagá-la

Muitas pessoas descobriram que, além de ser uma forma inteligente de reduzir a disseminação da Covid-19, o distanciamento social tem alguns efeitos negativos que incluem sentimentos de isolamento, solidão e aumento do estresse.

E esse aumento do estresse pode causar outros problemas, como mudanças nos padrões de sono e dificuldade de concentração.  Mas não tem que ser assim.

As escolhas deliberadas e conscientes que fazemos podem ter um efeito mensurável em como lidamos com o estresse.

Essa é a conclusão baseada nas pesquisas de dois psicólogos, Dr. Paul Napper e do Dr. Anthony Rao, que passaram anos estudando o arbítrio, a capacidade de responder ativamente às situações que afetam nossas vidas.

Em outras palavras, o arbítrio é o que as pessoas podem usar para sentir que estão no comando de suas vidas.

Durante este período de pandemia, é mais importante do que nunca aprender a lidar com o estresse. Porém, muitas pessoas estão tendo dificuldades.

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, cerca de 40 milhões de americanos foram diagnosticados com transtorno de ansiedade. Então repetindo, não tem que ser assim.

Os psicólogos Dr. Napper e Dr. Rao oferecem alguns tratamentos inteligentes – e não farmacêuticos – para a ansiedade em seu livro sobre o poder do arbítrio “The Power of Agency: The 7 Principles to Conquer Obstacles, Make Effective Decisions, and Create a Life on Your Own Terms”, disponível somente em inglês.

Confira uma conversa onde os dois psicólogos respondem algumas perguntas sobre o assunto.

Muitas pessoas se sentiam sobrecarregadas e ansiosas mesmo antes da Covid-19 atingir o mundo. Como a pandemia afetou esse estado de espírito?

Anthony Rao: A pandemia é como um teste de estresse humano global que expõe nossas vulnerabilidades, tanto físicas quanto emocionais.

Podemos esperar mais reações de estresse, como alta irritabilidade, ansiedade, fadiga e problemas para dormir. Mas a pandemia também aumenta as apostas sobre o que a mente das pessoas pode processar e combinar.

Haverá mais momentos de estresse agudo, ou o que é comumente sentido como “sobrecarga”. São nesses momentos que passamos por uma confusão mental, perdemos o acesso ao nosso pensamento crítico e tomamos decisões ruins.

Em resposta, nossa tolerância à frustração é sobrecarregada e podemos ter acessos de raiva ou ser imobilizados pelo medo. Por trás de tudo isso, há níveis elevados de adrenalina e cortisol.

Em um nível mais humano, durante esses períodos de sobrecarga, nosso arbítrio pessoal está sob ataque. Podemos perder a autoconfiança e desistir de controlar as mudanças que estão em nosso poder.

Ao aprimorar nosso arbítrio, permanecemos firmes, construímos resiliência e mudamos para um estado mental e físico superior para enfrentar os desafios que temos pela frente.

Estima-se que agora cerca de 40 milhões de americanos são diagnosticados com um transtorno de ansiedade. Quais são os sinais que revelam esse nível de ansiedade?

Rao: A ansiedade assume muitas formas. Pode variar de preocupações vagas e incômodas a fobias altamente intensas. Pode aparecer como obsessões e rituais incessantes ou medo intenso e repentino que causa palpitações cardíacas e falta de ar.

Os profissionais contam com critérios clínicos para fazer um diagnóstico formal. Pondere sobre esses fatores ao decidir se deve procurar ajuda profissional para controlar a ansiedade.

Quão frequente e quão debilitante é a ansiedade? Se está interferindo no trabalho e na produtividade, estressando seus relacionamentos, impedindo você de alcançar seus objetivos e, o mais importante, afetando negativamente seu humor e nível de alegria, então é sério o suficiente para procurar ajuda.

Segundo, quando os sintomas de ansiedade permanecem altos semana após semana, pode significar que você foi além das reações normais ao estresse comum da vida diária.

Você pode estar neurologicamente preso a um padrão irreal e negativo de pensamento e comportamento que está servindo para exagerar e perpetuar a ansiedade. Pode ser um ciclo vicioso.

Durante esse período de inquietação generalizada, pode ser uma boa oportunidade para prestarmos atenção em nossos pontos fracos mentais e colocar recursos úteis em ação como terapia, coaching, apoios sociais mais positivos e práticas de meditação.

Qual é o efeito em filhos de pais que sofrem de ansiedade (mesmo que não percebam ou não reconheçam)?

Rao: A ansiedade é uma emoção altamente contagiosa. Temos neurônios-espelho que automaticamente captam e imitam os fortes sinais emocionais de outras pessoas ao nosso redor. Quando os pais estão ansiosos, isso é facilmente transferido para os filhos.

Todos nós já sentimos o que é estar em uma reunião tensa ou perto de pessoas muito ansiosas. Muitas vezes absorvemos essa angústia e saímos com níveis mais elevados de estresse.

Crianças mais novas estão mais vulneráveis ​​a captar sinais de ansiedade de seus pais porque suas habilidades de lidar com diferentes situações não estão bem desenvolvidas.

Os filhos contam com os pais para protegê-los e mantê-los calmos, para evitar que sintam que seu mundo é inseguro e imprevisível. E isso ajuda é pensar na paternidade em termos de liderança.

Bons líderes trabalham para manter a calma e manter os outros calmos em momentos de estresse. Eles monitoram suas emoções e reações. Eles se comunicam com calma, clareza e concisão.

Mesmo o melhor dos líderes enfrentará fortes emoções e cometerá erros. Quando isso acontece, o que ajuda é reconhecer esses momentos abertamente e ser um modelo da melhor forma de se adaptar e resolver os problemas durante uma incerteza e uma mudança difícil.

Como as pessoas podem desenvolver o arbítrio afim de assumir um comando mais proativo de suas vidas?

Napper: O arbítrio é nossa capacidade de definir a situação em que nos encontramos, fazer escolhas eficazes e colocar nossas decisões em ação.

O arbítrio humano permite que nos adaptemos com eficácia à incerteza e à mudança. Certos comportamentos e maneiras de pensar permitem que desenvolvamos melhor o nosso arbítrio.

No lado comportamental, é importante gerenciar a qualidade e a quantidade de estímulos que você recebe. Este é o primeiro princípio do arbítrio (Estímulo de Controle). Se seu cérebro é superestimulado e está cheio de informações imprecisas, seu arbítrio pessoal é enfraquecido.

É crucial estar rodeado de pessoas positivas e solidárias com as quais você possa aprender (Associação Seletiva). O princípio comportamental final, que chamamos de “Mover”, é o responsável pelo seu nível geral de saúde física.

Em nosso estudo, isolamos quatro práticas de pensamento que constroem o arbítrio.

Primeira, posicione-se ativamente para aprender em todas as situações em que se encontrar (Posicione-se como um Aprendiz).

Segunda, assuma o controle de suas emoções e crenças pessoais (Gerencie Suas Emoções e Crenças).

Terceira, compreenda o importante papel que a intuição desempenha em seu processo de pensamento e torne-se melhor em usá-la com sabedoria (Verifique Sua Intuição).

O princípio final da construção do arbítrio é aprender a como ponderar de maneira eficaz antes de agir, o que requer que você aprenda a pensar de forma mais crítica (Deliberar, Então Agir).

Como vocês identificaram esses sete princípios?

Paul Napper: Identificamos os sete princípios que constroem um arbítrio melhor a partir de um processo de revisão intensiva da teoria e pesquisa existentes, combinada com décadas de experiência no trabalho.

Com base nisso, conduzimos entrevistas aprofundadas com mais de 100 pessoas em todo o país que estão fazendo a diferença em suas vidas e demonstram um grande arbítrio pessoal.

Então, aprendemos quais mecanismos fundamentais estavam em ação por trás dessa faixa diversificada de indivíduos.

Todo esse processo nos permitiu destilar uma infinidade de técnicas e práticas distintas em um conjunto claro e compreensível de princípios que constroem o arbítrio humano em todas e quaisquer situações.

Como esses sete princípios trabalham juntos?

Napper: Os sete princípios funcionam de forma sinérgica. Usados ​​em conjunto, eles apoiam o arbítrio, o que mantém você equilibrado, fundamentado e focado, preparado para enfrentar qualquer situação presente e fazer boas escolhas.

Praticar um princípio apoia sua habilidade de praticar os outros. Sugerimos começar com os princípios comportamentais, pois são os mais fáceis de começar a praticar.

Os quatro princípios cognitivos do arbítrio requerem mais habilidade para dominá-los e são mais facilmente alcançados quando você está praticando os três princípios comportamentais.

Por causa das ordens de isolamento social e trabalho em casa, a pandemia global aumentou o envolvimento das pessoas com distrações relacionadas à mídia. Seu primeiro princípio exige mais controle sobre essa grande quantidade de estímulos. Que desafios especiais essa grande quantidade de estímulos apresenta?

Rao: Sem dúvida, a pandemia nos manteve confinados em casa. E com isso, usamos muito mais os nossos dispositivos.

Corremos riscos ao não controlar nossa exposição a esse tipo de estímulo. O uso prolongado de dispositivos afeta a postura, pode aumentar a dor no pescoço e nas costas, causa cansaço visual e miopia em crianças. Também foram associados Problemas de atenção, obesidade e sono interrompido.

Precisamos reconhecer que o tipo de estímulo digital consumido, não apenas a quantidade, é importante. Passar mais tempo nas redes sociais está relacionado ao aumento da ansiedade e da depressão em jovens adultos.

Também estamos enfrentando problemas generalizados causados ​​por informações incorretas vinculadas às redes sociais e outras fontes de notícias não confiáveis.

Francamente, há tantos estímulos negativos que nos cercam a todo momento e todos os dias, que a capacidade de pensamento e arbítrio de muitas pessoas estão sendo corroídas. Sim, é muito ruim.

dez dias sem mídias sociais

Sugerimos que você escolha com sabedoria. Durante a pandemia, recomendamos que as pessoas identifiquem (e limitem) as informações que aumentam as emoções negativas, porque elas podem confundir e sobrecarregar os sistemas cognitivos.

Quando somos menos emocionais e nossas mentes estão mais calmas, tomamos decisões melhores.

Hoje em dia, é difícil alcançar um equilíbrio saudável. A maioria das pessoas precisa usar dispositivos enquanto trabalha remotamente. A educação de nossos filhos é virtual.

Então, é hora de aproveitar a incrível tecnologia que temos à nossa disposição para continuar trabalhando e aprendendo.

Contudo, quando você se sentir entediado ou frustrado, reconsidere o impulso de apenas pegar o seu dispositivo.

Em vez disso, pondere sobre dedicar sua mente e corpo a algo não digital – uma atividade que você precise criar, que nutra todos os seus sentidos. Isso vai recarregar seu senso de identidade e fazer com que você se sinta mais vivo.

Fonte: Meridian Magazine

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