A CNN fez uma reportagem especial sobre a reforma do Templo de Salt Lake, com acesso antecipado ao interior do prédio e entrevistas com líderes da Igreja e pesquisadores. Depois de mais de um século fechado a quem não é membro da Igreja, o templo vai abrir as portas para o público em geral, por seis meses.

O templo, com suas seis torres em estilo neogótico, é o símbolo mais reconhecível de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e, desde sua dedicação há 133 anos, era acessível apenas a membros em plena comunhão com a Igreja. Isso muda a partir de 5 de abril, quando o edifício abrirá para visitas guiadas até 1º de outubro de 2027, quando voltará a ficar restrito aos membros.

“É uma oportunidade única, uma chance rara para o resto do mundo vir e ver o que, por mais de um século, foi reservado apenas aos membros da Igreja”, disse o élder Matthew S. Holland, uma autoridade sênior da Igreja, à CNN. “Por esse breve período, ele estará aberto ao mundo.”

A expectativa é de milhões de visitantes atraídos pela chance de conhecer um marco religioso fechado desde 2019, quando começou uma ampla reforma para expandir o espaço interno, reforçar a fundação e fazer melhorias sísmicas no prédio, um dos mais de 200 templos da Igreja em operação no mundo. Os ingressos com horário marcado começam a ser disponibilizados on-line a partir de 1º de setembro.

Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Um marco histórico da Igreja

A localização do templo foi escolhida em 1847 pelo então presidente da Igreja, Brigham Young, dias depois da chegada dos santos pioneiros ao Vale do Lago Salgado. Young acompanhou o início das obras, mas não viveu para ver o templo concluído: a construção levou 40 anos e o edifício foi dedicado em 1893.

“Foi feito sem ferramentas ou equipamentos modernos, esculpindo pedra granítica retirada de um pequeno cânion a cerca de 30 quilômetros do centro de Salt Lake”, contou o élder Holland à reportagem. “E foi um feito extraordinário de engenharia para a época.”

Do lado de fora, o templo é rico em simbolismo, da representação do olho que tudo vê de Deus até a estátua dourada do anjo Morôni, erguida na torre mais alta, tocando uma trombeta em referência à Segunda Vinda de Cristo.

Já o interior do templo tem uma lógica bem diferente da de uma catedral tradicional: em vez de um grande salão de adoração coletiva, o espaço é organizado em uma sequência de salas menores, destinadas a ordenanças específicas, como batismos, casamentos eternos (chamados de selamentos) e investiduras, cerimônia em que jovens adultos recebem instruções espirituais antes de eventos como uma missão.

“Quando as pessoas vêm ao templo, elas podem imaginar algo como uma catedral europeia, com um grande salão logo na entrada”, disse o élder Holland à CNN. “Mas nossos templos são pensados de outro jeito.” Segundo ele, a experiência é mais parecida com uma jornada individual por salas de instrução, compromisso e adoração.

Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Reforçado contra terremotos

O templo já resistiu a um atentado com bomba, um tornado e, em 2020, a um terremoto de magnitude 5,7 que sacudiu suas paredes e derrubou a trombeta da estátua do anjo Morôni. Como Salt Lake City fica sobre uma falha geológica ativa, esse abalo reforçou a urgência do maior desafio da reforma: proteger o prédio contra um possível grande terremoto.

Para isso, as equipes de construção reforçaram as paredes de granito com cabos verticais que vão das torres até a base do templo, além de construírem uma nova fundação com 98 isoladores de base, feitos de borracha e aço, que funcionam como amortecedores. Segundo a Igreja, esse sistema deve proteger o prédio de danos mesmo que o solo sob ele se desloque em até 1,5 metro durante um terremoto.

As obras também abriram uma nova ala subterrânea, com cerca de 9 mil metros quadrados a mais de espaço, nove novas salas de selamento para casamentos e uma segunda fonte batismal, apoiada, como a original, sobre 12 esculturas de boi que representam as 12 tribos de Israel.

O custo e as críticas à reforma

A Igreja não divulgou o valor total investido na reforma. Estimativas extraoficiais de observadores externos apontam um custo superior a 2 bilhões de dólares.

Parte das críticas ao projeto vem da perda de elementos originais do templo, como uma escadaria que ligava o primeiro e o segundo andar e murais pintados à mão, entre eles, um retratando o Jardim do Éden, obra de um artista santo dos últimos dias que estudou em Paris.

“A maioria das pessoas não sabe o quanto o interior mudou. E vão se surpreender”, disse à CNN o historiador de arte Micah Christensen, de Salt Lake City, que se casou no templo.

“Eu acho que colocar eficiência contra preservação como se fosse uma escolha é um falso dilema. Acho que dá para fazer as duas coisas.”

Segundo a Igreja, a reconfiguração da planta do templo tornou inevitável a perda de alguns elementos históricos, incluindo os murais, mas esses itens foram fotografados e arquivados na Biblioteca de História da Igreja. A Igreja também destaca que muitos elementos originais, como os vitrais Tiffany, foram preservados, enquanto outros foram restaurados ao estilo da época vitoriana.

Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Uma visita guiada esperada por milhões

As visitas ao templo acontecerão de manhã à noite, todos os dias da semana. A expectativa da Igreja é receber até 25 mil pessoas por dia, o que soma mais de 4 milhões de visitantes ao longo dos seis meses de portas abertas. Autoridades de turismo de Salt Lake City estimam que o evento deve gerar 300 milhões de dólares em gastos na região central da cidade.

As visitas serão gratuitas, mas a reserva é fortemente recomendada. A partir de 1º de setembro, às 11h no horário de Utah, cada visitante poderá reservar até seis ingressos pelo site oficial do evento. Também haverá a opção de visitas virtuais on-line.

“Estamos abrindo essas portas para todos porque acreditamos que o templo tem uma mensagem relevante”, disse o Élder Holland à CNN.

“Ele é sagrado para nós, como povo de fé, mas também é algo que acreditamos oferecer paz e esperança para todos.”

Fonte: CNN

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