Quando estava na Terra Jesus Cristo disse “Eu e o Pai somos um” (João 10:30). Em outra ocasião ele confidenciou a seus apóstolos: “E quem me a mim, aquele que me enviou” (João 12:45). Algumas pessoas usam essas passagens e algumas outras para justificar a ideia de que Jesus Cristo e o Pai Celestial são o mesmo ser. Entretanto, conforme explicou o Élder Jeffrey R. Holland, dos Doze Apóstolos:

“Nossa primeira e mais importante regra de fé na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é: “Cremos em Deus, o Pai Eterno, e em Seu Filho, Jesus Cristo, e no Espírito Santo”. Cremos que essas três pessoas divinas, que constituem uma única Trindade, são unidas em propósito, modo de agir, testemunho e missão. Cremos que estão imbuídos do mesmo sentimento divino de misericórdia e amor, justiça e graça, paciência, perdão, e redenção. Acho correto dizer que cremos que Eles são um em todos os aspectos eternos, significativos e imagináveis, exceto no de que são três pessoas unidas em uma só substância, conceito de Trindade nunca citado nas escrituras porque não é verdadeiro.” [1]

De fato, seria ilógico Jesus ser a mesma pessoa que Seu Pai, devido a estaa considerações:

  1. Jesus é identificado como Filho de Deus. Tanto Ele se referia como sendo Filho, como seus discípulos o chamavam de Filho de Deus. Ele disse: “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus [o Pai] sobre ele permanece” (João 3:36) e “Desde agora o Filho do homem se assentará à direita do poder de Deus” (Lucas 22:69). Seus servos escreveram (para mencionar apenas algumas das centenas de passagens que existem): “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Marcos 1:1), “Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1 João 5:12), “E eu vi, e tenho testificado que este é o Filho de Deus” (João 1:34) e “Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mateus 16:16).
  2. Jesus orava frequentemente a Seu Pai. Jesus não orava para si mesmo. Mas rogava com veemência e constância para Deus. “Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice” (Mateus 26:39) e “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27:46)
  3. Jesus nunca se identificava como sendo o Pai Celestial. O Elder Holland explicou: “Tendo em vista essas referências do Novo Testamento, além de outras que nos ocorrem, seria redundante perguntar o que Jesus quis dizer ao declarar: “o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai”. Em outra ocasião, Ele disse: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”. Sobre Seus antagonistas, Ele disse: “[Eles] me odiaram a mim e a meu Pai”. E também, vemos a sempre complacente submissão ao Pai, que levou Jesus a dizer: “Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus”. Meu Pai é maior do que eu”. (…) Reconhecer a prova das escrituras de que os membros da Trindade, perfeitamente unidos em todos os outros sentidos, são, não obstante, seres separados e distintos não nos torna culpados de politeísmo. Trata-se, sim, de parte da grande revelação que Jesus veio conceder-nos sobre a natureza de seres divinos. Talvez o Apóstolo Paulo tenha-se expressado melhor, ao dizer: “Cristo Jesus (…) sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus” [2]
  4. O Pai apresentou Jesus em diversas ocasiões, deixando claro que eram pessoas distintas. No batismo de Jesus, a voz de Deus foi ouvida (Mateus 3:17). No monte da Transfiguração também (Mateus 17:5). Estevão viu o Pai e o Filho (Atos 7:56), bem como Joseph Smith os viu (JSH 1:16-17). Entre os nefitas a voz do Pai testificou que pelo menso três vezes que era Seu Filho, e não um anjo, que apareceu ao povo (3 Néfi 11:1-10)

É verdade que consideramos Jesus Cristo Deus. A palavra Deus geralmente se refere ao Pai Celestial e é Ele a quem devemos adorar. É verdade que Jesus Cristo também é Deus. Os santos dos tempos do Velho Testamento conheciam-No como Jeová, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. O Élder James E. Talmage, que serviu no Quórum dos Doze Apóstolos, ensinou que as escrituras ajudam-nos a entender o caráter divino de Jesus Cristo e Seu papel como Deus:

“Reivindicamos autoridade escriturística para a asserção de que Jesus Cristo foi e é o Deus Criador, o Deus que Se revelou a Adão, Enoque e a todos os patriarcas e profetas antediluvianos até Noé; o Deus de Abraão, Isaque e Jacó; o Deus de Israel como povo unido e o Deus de Efraim e Judá após a divisão da nação hebraica; o Deus que Se manifestou aos profetas desde Moisés até Malaquias; o Deus do Velho Testamento e o Deus dos nefitas. Afirmamos que Jesus Cristo foi e é Jeová, o Eterno” [3]

A doutrina da Trindade ensina que há três personagens que são Deuses: Deus o Pai, Deus o Filho e Deus o Espírito Santo – cada qual seu devido papel no Plano Eterno. Apesar disso, às vezes as escrituras mencionam que Jesus Cristo é o Pai. Em 1916 a Primeira Presidência e o Quórum dos Doze Apóstolos fizeram uma declaração detalhada do Pai e do Filho. [4] Seguem-se exemplos de como eles ensinaram que Jesus Cristo é representado como o Pai:

  1. Ele é o Criador de todas as coisas e é, portanto, indicado em muitas passagens na escritura como “o próprio Pai Eterno do céu e da Terra”. (Ver Mosias 15:4; 16:15; Alma 11:38–39; Éter 4:7.)
  2. Ele é o Pai de todos os que aceitam Seu sacrifício expiatório e que fazem o convênio com Ele de obedecer Seu evangelho eterno. (Ver Mosias 5:7; 15:10–13; Éter 3:14; D&C 25:1.)
  3. Ele é o Pai por “investidura divina de autoridade”. Isso significa que o Salvador é o representante plenamente autorizado e comissionado por Seu Pai. Tudo o que Ele fizer será duradouro e ligado ao céu, por ser Ele o executor da vontade do Pai.

Explicando estes pontos doutrinários o Élder M. Russell Ballard disse:

“Como Cristo pode ser tanto o Pai como o Filho? Na verdade não é tão complicado quanto parece. Apesar de ser o Filho de Deus, Jesus Cristo é o cabeça da Igreja, que é a família dos crentes. Quando nascemos de novo espiritualmente, somos adotados por Sua família e Ele passa a ser nosso Pai ou líder. (…) Essa doutrina não diminui de forma alguma o papel de Deus, o Pai, mas acreditamos que ela aprofunda nosso entendimento do papel de Deus, o Filho, nosso Salvador Jesus Cristo. Deus, o Pai Celestial, é o Pai de nosso espírito; falamos de Deus, o Filho, como sendo o pai dos justos. Ele é considerado ‘Pai’ por causa de Sua relação com aqueles que aceitam Seu evangelho e, assim. tornam-se herdeiros da vida eterna. O terceiro membro da Trindade, o Espírito Santo, que também é um Deus, tem a missão específica de ensinar e dar testemunho das verdades referentes à divindade de Deus, o Pai, e de Deus, o Filho” [5]

Assim, concluímos que o Salvador Jesus Cristo é um ser distinto de nosso Eterno Pai Celestial, a quem dirigimos nossas orações. As escrituras podem até dizer que Cristo é o Pai, mas quando o fazem, não confundem o Senhor do Universo, o Pai de todas as coisas – mas querem revelar um papel do Redentor – como Criador, Salvador ou Procurador do Pai.

 

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NOTAS

[1] “O Único Deus Verdadeiro, e Jesus Cristo, a Quem [Ele Enviou]”, Conferência Geral, outubro de 2007

[2] Idem a Nota 1

[3]  Jesus, o Cristo, pg. 32

[4] Ver “O Pai e o Filho: Uma Exposição Doutrinária da Primeira Presidência e dos Doze”, em James E. Talmage, As Regras de Fé, 12ª ed., [1924], pp.413–414; ou: “The Father and The Son”, Ensign, abril de 2002, pp. 14–15, 17

[5] “Building Bridges of Understanding”, Ensign, junho de 1998, pg. 66–67