No filme Cinderela, de 2015, a mãe de Ella lhe diz para “ter coragem e ser gentil”. Ella, que mais tarde passa a ser conhecida como Cinderela, enfrenta crueldade, mas responde com bondade e perdão, convidando-nos a refletir sobre nossa própria capacidade de encontrar coragem para perdoar. Sua luta para perdoar a madrasta e as meias-irmãs pode ser mais dramática do que a maioria dos conflitos familiares, mas ainda assim fala sobre situações presentes até mesmo nos relacionamentos familiares mais comuns.

Adaptando o conselho de Cinderela, queremos nos concentrar em um convite semelhante que pode ajudar as famílias a prosperar: “tenha coragem e perdoe”. Nas famílias religiosas, o perdão é tanto uma exigência quanto uma bênção. Com base em entrevistas realizadas com membros de cerca de 200 famílias de diferentes origens raciais e religiosas, buscamos compreender por que o perdão continua sendo tão importante para a reconciliação e a cura dos relacionamentos, apesar de poder ser tão difícil.

As conclusões vêm de um estudo sobre reconciliação nos relacionamentos de famílias cristãs, judaicas e muçulmanas participantes do projeto American Families of Faith. Analisamos tanto os motivos pelos quais as famílias escolhem se reconciliar quanto os processos pelos quais fazem isso.

casamento
Um casamento feliz se alicerça nos princípios da fé, oração e perdão.

Por que as famílias se reconciliaram

Os participantes apontaram três motivos principais para a reconciliação: (1) suas crenças religiosas, (2) sua capacidade de enxergar um “panorama mais amplo” e (3) suas próprias experiências com o amor e o perdão de Deus.

Crenças religiosas

Muitos participantes disseram que sua fé criava uma expectativa de que deveriam perdoar e se reconciliar, influenciando a maneira como reagiam aos conflitos. Briana, uma esposa cristã afro-americana, refletiu sobre como as escrituras a motivavam durante os desentendimentos com o marido:

As escrituras nos dizem que podemos ficar irados, mas não devemos pecar. Como somos diferentes, nem sempre vamos concordar, mas estar na igreja é algo que nos ajuda. Podemos ouvir alguma coisa no estudo da Bíblia ou no culto de domingo (…). Deus sempre traz de volta à nossa memória alguma palavra que nos faz perceber nossos erros e pedir perdão a Ele. Então voltamos e pedimos perdão um ao outro.

Cynthia, uma adolescente filha de pais santos dos últimos dias, um latino e outro caucasiano, contou:

Nos momentos difíceis (…) cada um acaba seguindo para um lado, mas então eu sei que todos nós pensamos em [nossa] religião e ficamos tipo: “É, precisamos fazer as pazes, é isso que devemos fazer”. E é isso que fazemos, e nos sentimos melhor depois.

Enxergar o panorama mais amplo

Os participantes frequentemente descreveram como sua fé os ajudava a olhar além dos conflitos imediatos e enxergar um “panorama mais amplo” ou adotar uma “perspectiva de longo prazo”. Saul, um marido judeu caucasiano, destacou como práticas religiosas como o Yom Kippur ajudavam ele e sua esposa a refletir sobre o relacionamento:

Nós dois sempre colocamos alguma coisa [em nossas metas de Yom Kippur] sobre sermos cônjuges melhores, parar de gritar um com o outro ou seja lá o que estivermos fazendo. Existe a sensação de que uma prática religiosa nos ajuda a manter o foco no panorama mais amplo e nos lembra das coisas que queremos mudar. Se não tivéssemos esse ritual, não acho que teríamos a oportunidade de dizer: “Estas são as coisas que quero fazer melhor”.

Alecia, uma adolescente caucasiana membro de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, explicou sua perspectiva:

Se brigamos aqui, é como se brigássemos e superássemos aquilo em mais ou menos uma hora. A maioria das pessoas da nossa família não fica com raiva umas das outras por semanas e semanas. Saber que nossas escrituras dizem que estaremos juntos para sempre (…) que estamos ligados para sempre, que temos esse vínculo, faz com que uma briga aqui pareça algo insignificante quando pensamos nisso.

O amor e o perdão de Deus

Os participantes também descreveram a experiência de receber o perdão de Deus como outro motivo poderoso para buscar a reconciliação dentro da família. Muitos disseram que reconhecer a graça de Deus em sua própria vida os inspirava a oferecer perdão aos outros. Chen, um marido cristão asiático-americano, refletiu: “Sou um pecador perdoado por Deus — e, se Deus pode me perdoar, eu posso perdoá-la”.

Da mesma forma, Shawn, um marido batista negro, relacionou o perdão de Deus à maneira como lidava com os conflitos no casamento:

Queremos que Deus (…) seja o centro do nosso casamento, para que nosso compromisso um com o outro seja uma consequência do nosso compromisso com Ele. Além disso, na realidade prática da vida a dois, precisamos exercer perdão e graça um para com o outro, porque recebemos graça e perdão de Deus, e podemos estender isso um ao outro.

Depois de analisarmos três motivos que explicam por que as famílias perdoavam, vamos agora considerar quatro processos que mostram como elas faziam isso.

Como as famílias se reconciliaram

A reconciliação envolvia quatro processos interligados: espiritual, pessoal, relacional e prático. Esses processos frequentemente se sobrepunham, refletindo uma abordagem dinâmica para a resolução de conflitos.

Processos espirituais

A oração surgiu como uma prática espiritual fundamental que conduzia as famílias em direção à reconciliação. Os participantes frequentemente recorriam à oração em busca de clareza e orientação e também para recuperar a calma. Angela, uma esposa católica ítalo-americana, descreveu da seguinte maneira como ela e o marido resolviam seus conflitos:

Nos momentos em que temos algum conflito sobre qualquer coisa (…) nós dois estamos sempre abertos para que um de nós diga: “Vamos simplesmente orar sobre isso”. (…) Essa capacidade de nos reunirmos em oração e pedirmos perdão um ao outro ou o perdão de Deus, além de discernimento e orientação, é algo que, mais uma vez, não sei como as pessoas conseguem superar essas situações sem isso.

A oração também ajudava as pessoas a reconhecer os próprios erros. Yul, um marido cristão asiático-americano, disse: “A oração ajuda muito. Quando temos conflitos e discussões, a oração consegue nos acalmar (…). Deus nos conduz por meio da oração para reconhecermos nossos pecados e melhorarmos nosso casamento”.

Processos pessoais

Os participantes descreveram o autoexame e a admissão dos próprios erros como outros passos pessoais importantes em direção à reconciliação. Essas atitudes frequentemente exigiam humildade e introspecção. Bekah, uma esposa judia caucasiana, destacou a importância da responsabilidade pessoal:

Acho que um dos pontos fortes do judaísmo é esse senso de responsabilidade pessoal e, certamente, em qualquer conflito que tivemos, foi muito importante assumir a responsabilidade pela parte que nos cabia naquele conflito. E isso é algo que vem diretamente do judaísmo.

Pedir desculpas foi outra prática importante. Brent, um marido caucasiano Testemunha de Jeová, descreveu como dizer “sinto muito” frequentemente ajudava a resolver conflitos em seu casamento:

Depois fico arrependido e digo: “Por que estou transformando uma coisa tão pequena em algo tão grande?” E ela está sentindo o mesmo arrependimento. Então ficamos: “Sinto muito, sinto muito”. E pronto, acabou.

Processos relacionais

Os participantes frequentemente descreveram perdoar e ser perdoado como atitudes relacionais que promoviam compreensão e aceitação. Stewart, um marido santo dos últimos dias, contou:

Acho que um dos ensinamentos fundamentais do Salvador é o perdão. Então (…) se você quer ser perdoado, a Bíblia ensina que precisa perdoar as outras pessoas. E, obviamente, somos imperfeitos e queremos ser perdoados, então acho que nós dois levamos essa ideia ou esse princípio para o nosso casamento. Entendemos que precisamos estar dispostos a perdoar um ao outro. Acho que isso influencia nossa capacidade de (…) perdoar um pouco mais rápido do que normalmente perdoaríamos, porque sabemos e acreditamos que perdoar é algo bom.

Os pais também davam aos filhos o exemplo do perdão. Shawn, um pai batista negro, disse:

Nossos filhos (…) veem que Emily e eu nem sempre fazemos tudo certo e que precisamos resolver as coisas, mas depois estendemos o perdão um ao outro. Eu já precisei pedir perdão aos meus filhos. Então espero que eles vejam que somos pessoas reais, que não temos tudo sob controle, mas que podemos aceitar e amar uns aos outros porque estendemos uns aos outros o perdão e a graça de Deus. E cada um de nós sabe o quanto precisa desesperadamente disso.

Processos práticos

As famílias também costumavam tomar medidas práticas para reparar os relacionamentos e impedir que os conflitos aumentassem. Entre essas atitudes estavam comunicar-se de maneira cuidadosa, usar estratégias para diminuir a intensidade do conflito e procurar reparar os danos causados. Aashif, um marido muçulmano árabe-americano, descreveu como ele e a esposa lidavam com os desentendimentos:

No início do nosso casamento, tínhamos muito mais conflitos. A parte religiosa é que dizemos: “Tudo bem, vamos parar por aqui e conversar sobre isso depois. Vamos orar ou deixar isso para mais tarde”. Controlamos a nós mesmos por causa da fé (…) para não exagerarmos o problema e transformá-lo em uma bola de neve, fazendo com que fique cada vez maior até chegar ao ponto de um desentendimento que nos coloque em lados opostos. Nós definitivamente dizemos: “Precisamos parar, precisamos pensar sobre isso”. Temos esse limite que não ultrapassamos.

Para outras pessoas, agir de maneira prática significava reparar rapidamente as rupturas no relacionamento. Jeffrey, um marido cristão caucasiano, explicou:

Embora eu exploda rapidamente, também tento rapidamente consertar o estrago causado por essa explosão. (…) Acho que isso tem sido fundamental em nosso relacionamento porque, muitas vezes, as coisas acabam transbordando. Tentar voltar rapidamente e reparar a ruptura é importante.

Juntos, esses processos que se sobrepõem mostram a natureza dinâmica e multifacetada da reconciliação dentro das famílias. Cada passo, seja espiritual ou prático, contribui para reparar e fortalecer os relacionamentos.

Nossa adaptação do conselho de Cinderela para “tenha coragem e perdoe” reflete as experiências relatadas pelos participantes do projeto American Families of Faith. Motivadas pela fé, pela capacidade de enxergar o panorama mais amplo e pela experiência da graça divina, essas famílias procuram fazer do perdão uma parte central da dinâmica familiar.

Por meio da oração, da responsabilidade pessoal, da reparação dos relacionamentos e de atitudes práticas, os participantes descreveram o perdão como algo que promove cura e vínculos mais profundos. Assim como Cinderela escolheu a bondade em vez do ressentimento, essas famílias mostram que a coragem de perdoar, no fim, fortalece os relacionamentos e traz paz.

Fonte: Public Square

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