Depois de anos pesquisando críticas contra Joseph Smith e o Livro de Mórmon, é possível notar um padrão curioso. Com uma frequência maior do que se esperaria, uma alegação pensada para abalar a fé, quando investigada a fundo, acaba revelando o contrário do que prometia. Perguntas feitas com a intenção de derrubar o livro, muitas vezes, se tornam oportunidades de crescimento para quem as investiga com calma.
A lista abaixo reúne dez dessas críticas, da mais fraca à mais conhecida, na ordem em que costumam aparecer em debates sobre o tema. Cada uma delas, ao ser examinada com cuidado, acaba reforçando a confiança no livro em vez de enfraquecê-la.
10. Joseph Smith inventou o Livro de Mórmon sozinho
Essa é a crítica mais antiga de todas, e o interessante é como ela mudou de forma ao longo do tempo. Quando o livro foi publicado, em 1830, os primeiros críticos o chamaram de obra simplista, exatamente o que se esperaria de alguém com a educação limitada de Joseph Smith.
Conforme a complexidade do texto passou a ser reconhecida, a crítica mudou de direção: Joseph não teria capacidade intelectual para escrevê-lo sozinho, então Sidney Rigdon teria fornecido o conteúdo teológico, baseado no manuscrito perdido de Solomon Spalding.
Essa teoria circulou por décadas, mas acabou sendo refutada por análises estatísticas de estilo de escrita que compararam o vocabulário do Livro de Mórmon ao de Rigdon e ao do próprio manuscrito de Spalding, sem encontrar correspondência significativa.
Hoje, boa parte da crítica voltou para a ideia original, de que Joseph escreveu o livro sozinho, só que agora o descrevendo como alguém muito mais culto do que família, amigos e adversários da época afirmavam. Depois de quase duzentos anos, a ausência de uma explicação coerente que dê conta de toda a evidência disponível diz mais a favor do livro do que contra ele.
9. Joseph Smith só olhava para uma pedra dentro de um chapéu
Há quase dois séculos, as pessoas zombam da ideia de que Joseph Smith traduziu o Livro de Mórmon olhando para uma pedra de vidente no fundo de um chapéu. Mas o método de tradução, por mais estranho que pareça, não muda o problema de fundo: o texto ou é autêntico ou não é, e se não é, alguém precisa explicar de onde vieram as palavras.
Segundo o próprio relato oficial da Igreja sobre o processo, testemunhas próximas descreveram Joseph ditando o texto hora após hora, sem manuscrito e sem qualquer livro de referência à sua frente. Isso significa que, se a explicação for fraude, Joseph teria memorizado um texto de mais de 269 mil palavras e o recitado de improviso, ou composto tudo em tempo real, na frente de testemunhas, em uma única tentativa.
E não se trata de uma narrativa simples: o livro tem linhas do tempo complexas, profecias que se cumprem em partes distintas do relato, sistemas políticos, genealogias e estruturas econômicas coerentes entre si. É possível rir do chapéu, mas as palavras precisam ter vindo de algum lugar.

8. Ele estava escondido atrás de uma cortina com livros de referência
Uma variação da crítica anterior argumenta que Joseph poderia ter consultado livremente qualquer material de referência, já que durante parte da tradução ele ficava separado do escrevente por uma cortina.
O problema é que essa alegação não se sustenta bem diante das fontes. Múltiplos relatos indicam que, na maior parte do tempo, Joseph estava à vista do escrevente e, com frequência, também de outras pessoas presentes.
A própria esposa de Joseph, Emma, que serviu como escrevente antes de Oliver Cowdery, descreveu a cena assim: Joseph sentado com o rosto enterrado no chapéu, ditando hora após hora, “com nada entre nós”. Isso só aumenta a importância da evidência que precisa ser explicada por quem defende que Joseph foi uma fraude: a teoria da cortina, em vez de sustentar essa hipótese, acaba enfraquecendo-a.
7. As testemunhas que saíram da Igreja não valem mais nada
Vários dos homens que afirmaram ter visto as placas de ouro acabaram se afastando da Igreja ao longo da vida, e por isso alguns críticos consideram o testemunho deles enfraquecido. Na prática, o efeito é o oposto: apesar dos conflitos pessoais com Joseph Smith e do rompimento institucional, nenhuma das Três Testemunhas nem das Oito Testemunhas jamais negou publicamente ter visto as placas.
Esses testemunhos continuam impressos até hoje nas primeiras páginas do Livro de Mórmon (Testemunho de Três Testemunhas; Testemunho de Oito Testemunhas).
Quanto mais pessoas fazem parte de uma suposta conspiração, mais difícil fica sustentar a mentira, especialmente quando algumas delas se afastam do grupo original. Essas testemunhas tinham tudo a perder quando defenderam o livro, e continuaram defendendo-o mesmo depois de não terem mais nada a perder.
6. Joseph Smith hipnotizou as testemunhas sem querer
Como é difícil sustentar que as testemunhas participaram de uma conspiração deliberada, alguns críticos foram por outro caminho. A historiadora Fawn Brodie, autora da biografia No Man Knows My History, chegou a atribuir a Joseph Smith um “talento inconsciente para a hipnose”, como explicação para a experiência das testemunhas com as placas.
Não se trata de uma alegação vinda de qualquer lugar: Brodie é uma autora amplamente citada mesmo fora de círculos de membros da Igreja de Jesus Cristo. Mais recentemente, o autor Dan Vogel defendeu uma variação parecida da mesma ideia, argumentando que a experiência das testemunhas com as placas teria sido puramente subjetiva e visionária, não física.
Ainda assim, é uma explicação difícil de sustentar, já que não há evidência de que Joseph tivesse qualquer formação ou prática em hipnose, muito menos capacidade de induzi-la em várias pessoas ao mesmo tempo, sem querer. Quando a melhor explicação naturalista disponível para o testemunho de várias pessoas é a hipnose acidental em massa, fica mais simples considerar que elas viram, de fato, o que disseram ter visto.

5. Joseph estava planejando o golpe desde jovem
Outra linha de crítica argumenta que Joseph Smith já vinha se preparando havia anos para produzir o Livro de Mórmon, sugerindo um plano de longa data. Se essa hipótese for verdadeira, vale perguntar o que pensavam as pessoas que o conheciam melhor: sua própria família.
Eles cresceram ao lado dele, viram sua rotina de perto e, ainda assim, todos os membros da família Smith, incluindo sua mãe, Lucy Mack Smith, acreditaram nele e no relato sobre as placas, alguns tendo inclusive experiências pessoais e tangíveis com os artefatos.
Apesar da pobreza, da perseguição e da dor que a família enfrentou nos anos seguintes, incluindo a prisão do pai de Joseph e a morte de vários parentes por causa de conflitos ligados à Igreja, eles continuaram ao lado dele até o fim.
4. Em 1843, pediram para ele traduzir placas falsas e ele tentou
Em 1843, um grupo de pessoas em Kinderhook, Illinois, forjou um conjunto de placas de metal com o objetivo de testar Joseph Smith. Ele aceitou dar uma olhada e chegou a fazer uma tradução parcial de alguns caracteres, registrada no diário de seu associado William Clayton.
Mas, ao se examinar o episódio com mais cuidado, fica claro que essa tentativa nunca foi apresentada como uma tradução divina e revelada. Joseph comparou os caracteres das placas a símbolos egípcios que já vinha estudando por conta própria, e essa comparação, não qualquer instrumento de tradução religiosa, foi a base do que ele escreveu.
Nenhuma tradução oficial chegou a ser publicada, e o próprio interesse de Joseph pelo assunto esfriou rapidamente nos dias seguintes. As placas, aliás, foram comprovadamente forjadas décadas depois, quando um dos responsáveis pela farsa confessou. Quem armou a armadilha esperava expor Joseph como fraude, mas ele não reagiu como eles esperavam: tentou uma tradução acadêmica e comum, não obteve muito sucesso, e desistiu.
3. Os nomes de lugares do Livro de Mórmon foram copiados da vizinhança de Joseph Smith
O Livro de Mórmon contém 86 nomes geográficos, e uma crítica bastante conhecida, popularizada pela chamada CES Letter, argumenta que cerca de vinte desses nomes se parecem com lugares próximos de onde Joseph Smith morava, sugerindo que ele os teria copiado para inventar o livro.
Olhando mais de perto, porém, vários desses lugares nem existiam ainda quando o Livro de Mórmon foi traduzido, e outros eram extremamente obscuros e distantes para a época. O argumento é tão frágil que, em algum momento, o próprio autor da CES Letter chegou a considerar retirá-lo quase por completo do texto.
Vale notar, inclusive, que um estudo mais aprofundado dos nomes do Livro de Mórmon revela achados bem mais interessantes: a terra de Jérson, herança dos lamanitas, tem uma raiz hebraica plausível ligada ao verbo “herdar”, algo difícil de explicar em uma fraude do interior do estado de Nova York no século 19.
2. Joseph Smith plagiou o livro The First Book of Napoleon
Ainda segundo a CES Letter, Joseph Smith teria plagiado trechos do livro The First Book of Napoleon para escrever o Livro de Mórmon, com base em uma comparação lado a lado de frases dos dois textos.
Ao se examinar a fonte original, porém, o quadro muda bastante: as frases citadas foram retiradas seletivamente das primeiras dez páginas do Livro de Mórmon e espalhadas ao longo de 21 páginas de The First Book of Napoleon, e a alegação de que apareceriam na mesma ordem não se confirma quando os textos completos são comparados lado a lado.
Além disso, algumas dessas frases se repetem várias vezes em cada livro, o que permite reorganizá-las artificialmente até parecerem alinhadas. Não existe evidência de que Joseph Smith sequer conhecesse essa obra, e é difícil sustentar que ele teria roubado frases genéricas como “condenar”, “a terra” ou “Jerusalém”, palavras comuns em praticamente qualquer texto de temática bíblica.

1. O Livro de Mórmon copiou View of the Hebrews, de Ethan Smith
Essa é provavelmente a crítica mais conhecida de todas: os paralelos entre o Livro de Mórmon e View of the Hebrews, um livro de 1823 do pastor Ethan Smith que também associa povos nativos americanos à casa de Israel.
Depois de anos ouvindo falar sobre essa teoria sem nunca ter lido o livro na íntegra, vale a pena finalmente sentar e ler todas as páginas, porque o quadro muda bastante depois disso.
As semelhanças mais chamativas, quando analisadas de perto, aparecem em passagens que Ethan Smith enfatiza mas o Livro de Mórmon simplesmente não menciona, como a arca da aliança e as cidades de refúgio, e não há evidência histórica de que Joseph Smith tenha lido ou mesmo conhecido a obra.
Depois de quase duzentos anos tentando explicar como Joseph Smith produziu o Livro de Mórmon, se essa for a melhor teoria disponível, fica mais simples aceitar que o livro é exatamente o que ele diz ser.
Veja também
- A história da tradução do Livro de Mórmon para português
- Uma análise do processo de tradução do Livro de Mórmon
- Qual o propósito das placas de ouro na tradução do Livro de Mórmon?



