Na Bíblia existe um princípio literário conhecido entre estudiosos como “o princípio dos primeiros”.

As primeiras palavras e as primeiras ações de um personagem, numa narrativa, costumam revelar quem ele é e qual papel vai desempenhar dali em diante. É por isso que a primeira fala de Deus no Gênesis, “Haja luz”, já diz muito sobre quem Ele é: o Criador e Controlador da força mais poderosa e essencial da existência.

Se esse princípio vale para Gênesis, qual é a primeira fala de Deus registrada no Livro de Mórmon? A resposta é um convênio, feito com Néfi ainda no início de 1 Néfi.

Duas orações feitas em um momento de dificuldade

O Livro de Mórmon começa com Leí temendo pela destruição de Jerusalém e orando “em favor de seu povo” (1 Néfi 1:5). Pouco depois, Néfi também ora. Dessa vez, ele pede para saber se deveria aceitar a ordem do pai de abandonar Jerusalém, já que seus irmãos mais velhos, Lamã e Lemuel, se recusavam a acreditar (1 Néfi 2:16).

As duas orações têm uma estrutura quase idêntica. Ambas nascem de uma crise espiritual e não são citadas literalmente no texto; Néfi resume apenas o resultado, dizendo que Deus visitou Leí e que “ele [Deus] me visitou” no seu próprio caso. As duas também resultam em uma missão que, no fim, fracassa: os moradores de Jerusalém tentam matar Leí, e os próprios irmãos de Néfi tentam matá-lo depois. Por fim, ambas terminam com a mesma frase de consolo de Deus: “bendito és tu, Leí” e “bendito és tu, Néfi”.

Até aqui, as duas histórias seguem a mesma estrutura, mas há uma diferença importante entre elas. No caso de Leí, Néfi só relata em terceira mão que Deus o instruiu a “levar sua família e partir para o deserto” (1 Néfi 2:2). Já no seu próprio caso, Néfi registra, palavra por palavra, o que Deus disse, e é esse discurso, não nenhum outro, que constitui a primeira fala de Deus citada diretamente no Livro de Mórmon.

O que Deus disse a Néfi

O texto do convênio é este:

“E se guardares meus mandamentos, prosperarás e serás conduzido a uma terra de promissão; sim, uma terra que preparei para ti; sim, uma terra escolhida acima de todas as outras terras. E se teus irmãos se rebelarem contra ti, serão afastados da presença do Senhor. E se guardares meus mandamentos, serás feito governante e mestre de teus irmãos. Pois eis que no dia em que se rebelarem contra mim, eu os amaldiçoarei com dolorosa maldição e não terão poder sobre a tua semente, a menos que ela também se rebele contra mim. E se acontecer que ela se rebele contra mim, eles serão um flagelo para teus descendentes, a fim de levá-los aos caminhos da lembrança.” (1 Néfi 2:20–24)

Pode parecer só mais uma promessa entre tantas outras nas escrituras, mas um estudo publicado pelo pesquisador Steven L. Olsen, argumenta que essa passagem é mais do que isso. Segundo ele, o texto contém, em miniatura, os três temas que vão organizar o restante do registro de Néfi: terra prometida, povo escolhido e o evangelho de Jesus Cristo. Esses temas reaparecem, de um jeito ou de outro, ao longo de praticamente todo 1 e 2 Néfi.

Uma promessa que vira vocabulário

Um dos aspectos mais interessantes do estudo é mostrar como certas palavras desse convênio (guardar os mandamentos, prosperar, terra, rebelar-se, eliminado, maldição, caminhos de lembrança) não aparecem só uma única vez. Elas se repetem ao longo de toda a obra de Néfi, formando um vocabulário próprio que conecta a narrativa histórica às profecias.

“Prosperar”, por exemplo, aparece pela primeira vez no convênio, ligado à ideia de ser levado a uma terra de promissão. Mais adiante, quando Néfi finalmente se separa de Lamã e Lemuel e funda seu próprio povo, ele lista nove características de uma sociedade que prospera segundo esse padrão: guardar os mandamentos, cuidar do próprio sustento, preservar registros sagrados, formar famílias estáveis, garantir defesa, construir com os materiais disponíveis, adorar em templos, trabalhar com afinco e ter uma liderança justa (2 Néfi 5:10–18). O convênio não fica restrito ao campo espiritual, ele orienta também como esse povo deveria organizar sua vida prática.

Da mesma forma, “terra” quase nunca aparece no registro de Néfi como um simples pedaço de território. Ela é, quase sempre, o sinal visível de um convênio com Deus, primeiro a “terra de Jerusalém”, depois a “terra escolhida acima de todas as outras terras”. Quando Néfi e seu povo se separam de Lamã e Lemuel, o nome da própria terra muda, para refletir essa nova identidade de convênio.

Guardar ou se rebelar: as duas metades do convênio

O convênio não é só uma lista de bênçãos, ele também descreve o que acontece quando alguém se rebela: “serão eliminados da presença do Senhor” e sofrerão “uma grave maldição”. Essas mesmas palavras (rebelar-se, eliminado, maldição, flagelo) voltam a aparecer dezenas de vezes ao longo de 1 e 2 Néfi, sempre no mesmo sentido: o de alguém que se afastou do convênio.

É esse vocabulário que, mais tarde, vai explicar a separação entre nefitas e lamanitas.

Segundo o estudo, essa maldição não recai sobre uma etnia por si só. Ela marca quem se afastou da aliança. Não é à toa que, séculos depois, o próprio texto do Livro de Mórmon vai descrever lamanitas mais justos do que nefitas, como em Morôni 9:20, ou lamanitas convertidos que deixam de estar “eliminados da presença do Senhor” assim que voltam a guardar os mandamentos (2 Néfi 5).

O próprio texto do convênio original já estabelece essa lógica: a maldição está ligada à desobediência, não à linhagem, e pode ser revertida.

Ao mesmo tempo, o convênio promete a Néfi que ele será feito “governante e mestre” sobre seus irmãos. Essas palavras reaparecem ao longo do livro toda vez que Néfi exerce liderança espiritual e prática sobre sua família, mesmo sendo o filho mais novo. É esse mesmo convênio, aliás, que explica por que Néfi, e não Lamã ou Lemuel, se torna a voz que Deus usa para registrar Suas palavras dali em diante.

Um povo definido pela aliança, não pelo sangue

O estudo chama a atenção para outro detalhe: no vocabulário de Néfi, a palavra “povo” quase nunca descreve um simples grupo étnico, ela marca um grupo unido por convênio com Deus.

Por isso, o Livro de Mórmon distingue judeus de gentios, Israel do restante da humanidade e, mais adiante, nefitas de lamanitas, sempre com base em quem está dentro ou fora dessa aliança, não apenas em quem descende de quem.

Isso ajuda a explicar por que a família de Leí é descrita como um “remanescente” de Israel, retirado da Terra Santa para preservar um ramo fiel do povo do convênio. Ajuda também a entender por que, mesmo com toda a ênfase na descendência de Leí, o Livro de Mórmon nunca deixa a genealogia ser a palavra final sobre quem pertence ou não a essa aliança.

Por que Néfi dividiu o livro onde dividiu

O estudo também levanta uma pergunta que intriga estudiosos há anos: por que Néfi encerrou o livro de 1 Néfi exatamente onde encerrou, e começou 2 Néfi do jeito que começou? Cronologicamente, a divisão não faz muito sentido, já que 2 Néfi simplesmente continua a mesma cena que fecha 1 Néfi.

Olhando pela lente do convênio, porém, a resposta aparece. Os dois livros seguem a mesma estrutura, em paralelo. Ambos começam com uma experiência espiritual de Leí ligada ao convênio: a visão inicial em 1 Néfi 1, e as bênçãos finais em 2 Néfi 1–4.

Ambos registram a separação entre o remanescente fiel e a parte rebelde da família: em Jerusalém, em 1 Néfi, e entre os próprios filhos de Leí, em 2 Néfi 5. E ambos terminam com citações e comentários sobre as profecias de Isaías, ligando tudo de volta ao mesmo convênio. Segundo o estudo, essa estrutura indica que Néfi organizou deliberadamente seu registro em torno dessa única promessa.

Entender isso muda a forma de ler o Livro de Mórmon. Ele deixa de ser uma sequência de eventos históricos e profecias soltas e passa a ser lido como o registro de um povo definido por um convênio: quem eles são, o que podem esperar e o que Deus espera deles.

Fonte: The Interpreter Foundation

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