Toda vez que alguém entra no templo pela primeira vez, passa por uma entrevista com dezesseis perguntas sobre fé e comportamento. E se essas perguntas já estivessem, em essência, no Sermão da Montanha?
É essa a proposta de um estudo publicado pela Interpreter Foundation: a de que as bem-aventuranças não seriam apenas uma lista de virtudes desejáveis, mas um roteiro espiritual quase idêntico às perguntas que hoje são feitas na entrevista de recomendação.
O pesquisador C. Thomas Black comparou as onze bem-aventuranças registradas em 3 Néfi 12 com as catorze perguntas feitas a quem busca entrar no templo pela primeira vez, e, para ele, o paralelo é forte demais para ser coincidência.
“Bem-aventurados” é mais do que “felizes”
O artigo começa investigando a própria palavra “bem-aventurados”. Em grego, o termo usado nos evangelhos é makários, uma palavra que, na Antiguidade, não descrevia uma felicidade qualquer, mas um estado quase divino, associado aos deuses e a uma existência livre das preocupações da vida mortal. Já em hebraico, o termo equivalente, esher, remete à ideia de estar “no caminho certo”, andando na direção que Deus planejou.
Segundo o autor, traduzir essas palavras simplesmente como “feliz”, como fazem algumas versões da Bíblia, enfraquece o verdadeiro peso do que Jesus estava dizendo. Ele defende que, no vocabulário da Restauração, “bem-aventurado” poderia ser entendido como “digno de exaltação”: não uma emoção passageira, mas uma condição espiritual permanente, associada a estar na presença de Deus.

Um ângulo que ainda não tinha sido explorado
Estudiosos de dentro e de fora da Igreja já haviam notado conexões entre o Sermão da Montanha e o templo. O pesquisador John W. Welch, por exemplo, identificou décadas atrás dezenas de pontos de contato entre o Sermão da Montanha, o Sermão no Templo (registrado em 3 Néfi) e a própria cerimônia da investidura do templo.
Estudiosos de outras tradições cristãs, como Hans Dieter Betz e Georg Strecker, também já haviam sugerido que as bem-aventuranças funcionavam como uma espécie de “requisito de entrada” para algo sagrado, ainda que sem fazer a ligação direta com o templo dos Santos dos Últimos Dias.
O ângulo de Black é outro: não a cerimônia do templo em si, mas o que vem antes dela, os critérios que precisam ser cumpridos apenas para que a pessoa seja autorizada a entrar. É justamente aí que o encaixe com as bem-aventuranças fica mais evidente.
Um breve histórico da entrevista de recomendação
As perguntas da recomendação do templo foram mudando bastante ao longo do tempo. Quando o Templo de Kirtland foi dedicado, em 1836, não existia uma lista formal: líderes locais recomendavam os membros ao presidente da Igreja com base na observação pessoal.
Só por volta de 1922 a Igreja publicou o primeiro livreto de recomendação, com critérios ainda bem gerais. A partir de 1976, esses critérios passaram a ser formulados como perguntas diretas, sendo revisados novamente em 1978, 1985, 1991 e nos anos seguintes. Depois de mais de um século de sigilo, as perguntas atuais foram finalmente lidas publicamente pelo presidente Russell M. Nelson na conferência geral de outubro de 2019.

Onze bênçãos, catorze perguntas
Black compara, uma a uma, cada bem-aventurança de 3 Néfi 12 com as perguntas da entrevista de recomendação. Alguns exemplos:
A primeira bem-aventurança, “bem-aventurados sois se derdes ouvidos às palavras destes doze que escolhi dentre vós”, ecoa diretamente a pergunta sobre sustentar o profeta atual e os membros da Primeira Presidência e do Quórum dos Doze como profetas, videntes e reveladores.
“Bem-aventurados os que choram, porque hão de ser consolados” está ligada ao testemunho da Expiação de Jesus Cristo, já que o luto e a dor fazem parte da condição mortal desde a Queda, e é justamente a Expiação que promete consolo e cura.
Já “bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra” se conecta às perguntas sobre viver de acordo com os ensinamentos da Igreja e guardar o dia do Senhor. No grego original, “manso” não tem o sentido de fraqueza, mas descreve algo como um animal domesticado, que não perdeu sua força, mas aprendeu a colocá-la a serviço de outra vontade.
“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça” se relaciona ao pagamento do dízimo e à obediência à Palavra de Sabedoria, sacrifícios voluntários de bens materiais ou de apetites físicos em busca de algo maior.
Já “bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus” corresponde claramente à pergunta sobre a lei da castidade, e “bem-aventurados os pacificadores” está ligada à honestidade nas relações, já que poucas coisas destroem tanto a paz entre as pessoas quanto a desonestidade.

Três bênçãos que só aparecem em 3 Néfi
Um detalhe chama a atenção: três das bem-aventuranças usadas nessa comparação não aparecem na versão de Mateus, no Novo Testamento, só no relato mais completo de 3 Néfi 12 e na Tradução de Joseph Smith.
Para Black, não é coincidência que sejam justamente essas três: elas tratam da natureza de Deus, da Restauração do evangelho e da necessidade de líderes autorizados na Terra, temas que, segundo seu argumento, teriam se perdido durante a apostasia após a morte dos apóstolos originais.
Duas das dezesseis perguntas da entrevista de recomendação não entram nessa comparação: são as perguntas feitas apenas a quem já fez convênios no templo antes, sobre continuar guardando esses convênios. Esse tema também aparece no Sermão da Montanha, só que não em forma de bem-aventurança, e sim mais adiante, no restante do sermão.
A conclusão de Black é instigante: por meio das bem-aventuranças, Cristo pode ter conduzido, na prática, uma espécie de “aula de preparação para o templo” com seus apóstolos e discípulos, possivelmente durante o período de quarenta dias em que ministrou após a Ressurreição. Ele mesmo faz questão de deixar claro que suas conclusões não pretendem estabelecer doutrina oficial da Igreja, mas apenas convidar a um novo olhar sobre um texto tantas vezes lido, e, talvez, pouco compreendido em sua real profundidade.
Fonte: The Interpreter Foundation
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