Em português, as expressões idiomáticas, aqueles ditados que não devem ser levados ao pé da letra, aparecem de vez em quando, como um jeito descontraído de falar. Mas no hebraico da Bíblia elas aparecem o tempo todo, e mudam o sentido de quase tudo que é dito. Pense na expressão “bater as botas”. Quem fala português sabe que ninguém está literalmente batendo em um par de botas, é só um jeito de dizer que alguém morreu.

Mas para quem está aprendendo português, essa imagem só confunde. É preciso explicar que aquilo é uma expressão, um jeito indireto de dizer algo que quer dizer bem mais do que as palavras sozinhas.

A Bíblia Hebraica é cheia de expressões assim: “endurecer o coração”, “levantar o rosto”, “andar no caminho”, “conhecer alguém”, “cobrir os pés”, “cingir os lombos”, “firmar o rosto” ou “comer pão”. São exemplos simples, mas mostram algo importante: no hebraico, quase toda expressão carrega uma camada de significado que é difícil de perceber à primeira vista.

Dá para imaginar o problema que isso cria para a gente hoje. Quem fala línguas mais “diretas”, como o português ou o inglês, sente esse desafio de um jeito especial. Essas línguas nos acostumam a esperar uma resposta exata: cada palavra tem um significado certo, e ponto final. Por isso, quando encontramos uma palavra hebraica que carrega vários sentidos ao mesmo tempo, isso pode parecer estranho, e corremos o risco de simplificar demais e perder parte do significado.

Quem ouvia essas palavras na Antiguidade estava acostumado com esses vários significados ao mesmo tempo, para eles, era natural. Já para nós, que falamos línguas mais diretas, é preciso um esforço a mais para começar a enxergar essa profundidade que o hebraico bíblico carregava com tanta naturalidade.

6 Palavras hebraicas.
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Língua flexível versus língua rígida

Línguas flexíveis, como o hebraico, são mais amplas: uma única palavra pode carregar vários significados ao mesmo tempo. Um bom exemplo é a palavra shemá. Nas traduções, ela normalmente vira só a ordem “ouvir”, como em Shemá Yisrael — “Ouve, ó Israel“.

Só que, para quem ouvia essa palavra na Antiguidade, shemá tinha muito mais profundidade do que essa tradução simples de hoje. Ela juntava o sentido de ouvir com entendimento e responder com obediência. Para os israelitas, ouvir e agir eram quase a mesma coisa — por isso, quando alguém era chamado a “shemá”, entendia isso como um convite direto para agir, não só para prestar atenção.

Já línguas mais diretas, como o português e o inglês modernos, gostam de categorias fixas: cada palavra significa uma coisa, e não outra. É por isso que expressões desse tipo tendem a nos confundir. Se insistirmos que shemá significa só “ouvir”, perdemos a profundidade da palavra. Para o antigo Israel, shemá unia ouvir, entender e obedecer em um único ato. Reduzir a palavra a uma única definição tira dela boa parte da força que ela tinha.

O português e outras línguas mais diretas funcionam bem quando o que importa é clareza e rapidez. Mas elas têm dificuldade para carregar as várias camadas de significado que línguas mais flexíveis, como o hebraico, trazem naturalmente. As escrituras ensinam que Deus fala conosco “segundo o nosso entendimento”.

É interessante pensar que, ainda hoje, Deus pode recorrer a essa profundidade quando fala conosco. Será que as línguas modernas, tão diretas e cheias de regras fixas, dão conta de carregar os mistérios da linguagem de Deus? Talvez Ele ainda fale de um jeito cheio de camadas de significado, como o hebraico antigo. Se for assim, vale a pena nos esforçarmos para entender essa profundidade — o mesmo jeito pelo qual Deus sempre se comunicou.

Já em 1832, Joseph Smith, o primeiro profeta de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, sentia esse mesmo limite. Em carta a W. W. Phelps, um dos primeiros editores da Igreja, ele fez um apelo sincero a Deus, pedindo para ser livrado, em suas próprias palavras, de uma “linguagem tortuosa, fragmentada, dispersa e imperfeita”. Essa oração faz ainda mais sentido para nós hoje do que fazia para eles, naquela época.

O enigma de Kenegdo

A história de Adão e Eva é contada há séculos. Mas a versão que a maioria de nós conhece hoje foi moldada por muitas camadas de tradição. Gerações de estudiosos a foram passando adiante através de debates, doutrinas e disputas. Artistas também deram forma a essa história em pinturas e imagens, e cada uma delas influenciou o jeito como Eva passou a ser vista.

Com o tempo, essa história virou uma versão bem conhecida, em que Eva foi criada como subordinada a Adão, e os dois teriam recebido juntos a ordem de não comer do fruto. Mas o estudo da língua conta outra história. Quando olhamos para as camadas mais antigas do texto hebraico, e como certas palavras mudaram de sentido ao longo do tempo, aparece uma imagem bem diferente.

O texto mostra apenas Adão recebendo diretamente o mandamento sobre o fruto (veja também Moisés 3:16, que deixa isso ainda mais claro). Isso já prepara um problema: sozinho, Adão não tinha como cumprir esse mandamento. A tradição oral mais antiga deixou uma pista disso: logo depois desse versículo, os copistas judeus marcaram um sinal de pausa no texto, como se estivessem dizendo “pare aqui, falta alguma coisa”.

Quem lia esse texto na Antiguidade reconhecia esse sinal como uma pausa proposital. É o momento em que Adão fica travado, sem conseguir seguir sozinho. Alguma coisa a mais precisava acontecer para a história avançar.

É exatamente isso que o versículo seguinte apresenta: “não é bom que o homem esteja só”. E a palavra hebraica usada ali para “bom”, tov, também pode significar “suficiente”.

Em outras palavras: sozinho, Adão não era suficiente. Estudos sobre o significado dessa palavra mostram que tov, nesses casos, tinha mais a ver com “dar conta da tarefa” do que com um julgamento moral de “bom” ou “ruim”.

É bem nesse ponto que entra a figura que hoje conhecemos como Eva. O texto a apresenta primeiro como ezer, palavra que a maioria das traduções reduz a “ajuda”. Mas essa tradução simples esconde um significado bem mais profundo.

Ezer kenegdo: muito mais do que uma “ajudadora”

O hebraico já tinha outras palavras para uma “ajuda” comum, do dia a dia. Ezer é diferente: aparece só 21 vezes em toda a Bíblia Hebraica, e quase sempre está ligada à ideia de salvar ou livrar alguém de um perigo (veja Êxodo 18:4; Deuteronômio 33:7; Salmos 33:20). Ou seja: Eva entra na história como ezer, aquela que traz a salvação para um problema que Adão sozinho não conseguia resolver.

Essa descrição ganha ainda mais um detalhe com a palavra kenegdo. As traduções normalmente a apresentam como “idônea” ou “adequada”, como em “ajudadora idônea para ele”. Essa escolha ao menos sugere alguma igualdade entre os dois, o que já era notável para a época em que essas traduções foram feitas.

Mesmo assim, isso ainda fica aquém do que o hebraico realmente transmite. Ao pé da letra, kenegdo quer dizer “estar diante de” ou “face a face com”. É uma expressão que descreve alguém posicionado de frente para outra pessoa, como uma contraparte igual, e, como toda expressão idiomática, seu verdadeiro significado está na ideia mais profunda que ela carrega, não só nas palavras.

E não é à toa: toda vez que Deus confia uma missão importante a alguém na Bíblia, essa é a linguagem usada. Jacó dá o nome de Peniel ao lugar onde viu Deus “face a face” e teve sua vida preservada. Moisés fala com o Senhor “face a face, como qualquer um fala com seu amigo” no momento em que recebe seu chamado de profeta. Os levitas ficam diante do Senhor “face a face” para servir no templo, o que representa a presença de Deus e uma missão recebida dele.

Em cada um desses casos, e em muitos outros, a expressão marca o momento em que alguém recebe autorização de Deus. Entendendo como o hebraico funciona, estar “face a face” é receber sacerdócio. Adão, sozinho, não tinha essa autorização para seguir em frente. Eva entra na história como quem carrega essa autorização: ela está “face a face”, cumprindo a própria ideia do que é sacerdócio.

Essa expressão é difícil de entender para quem fala línguas mais diretas, como o português. Mas, na Bíblia Hebraica, ela está claramente ligada à autoridade. A cena do jardim do Éden segue exatamente esse padrão: Eva não é apresentada como alguém subordinada, mas como salvação, como uma parceira sacerdotal, como quem está autorizada a abrir o caminho para a história seguir adiante. Vale a pena repetir isso.

No fundo, sacerdócio é a autoridade de Deus dada para agir onde outros não conseguem agir sozinhos. A narrativa do Gênesis coloca Adão numa posição em que ele não consegue seguir em frente, limitado pelo mandamento que recebeu. É bem nessa falta que Eva entra: ela é apresentada como ezer, aquela que traz salvação, e como kenegdo, aquela que fica face a face. Essa linguagem a conecta diretamente à expressão do sacerdócio que vai ecoar por todo o Velho Testamento. Não se trata de um papel secundário, mas da própria solução que Deus colocou no centro da história do templo.

Permanecendo face a face em Nauvoo

Essa linguagem do sacerdócio começa no Éden, mas não termina ali. A imagem de Eva como ezer kenegdo, face a face, personificando salvação e sacerdócio, reaparece séculos depois, quando Joseph Smith restaurou a Sociedade de Socorro, um grupo de mulheres da Igreja, em Nauvoo, Illinois.

Esse padrão nunca tinha desaparecido de verdade. Joseph Smith o restabeleceu quando convidou as mulheres a participar do ritual do templo. No Templo de Kirtland, o primeiro templo construído pela Igreja, as mulheres ainda não tinham um papel ritual organizado. Elas testemunharam, cantaram e se alegraram com as manifestações espirituais que aconteciam ali, mas a ordem do templo ainda estava incompleta.

Quando os santos se mudaram para Nauvoo, três anos depois de Kirtland, as perguntas sobre a autoridade das mulheres já ocupavam um lugar importante nos pensamentos de Joseph Smith. Em março de 1842, ele organizou as mulheres na Sociedade de Socorro.

Emma Smith foi apoiada como presidente, cumprindo a revelação que já dizia que ela seria uma “Dama Eleita“. Às mulheres reunidas, Joseph Smith declarou: “Agora passo a chave a vocês em nome de Deus”. Nas semanas seguintes, ele foi ampliando cada vez mais a responsabilidade delas.

Ele ensinou que as mulheres podiam curar, profetizar e abençoar com autorização divina. Chegou a descrever o papel delas com a palavra “salvar”, o mesmo papel de ezer que vimos lá no Éden. Eliza R. Snow registrou que Joseph Smith prometeu às irmãs que elas formariam “um reino de sacerdotes, como nos dias de Enoque”.

Tudo isso chegou ao ponto mais alto no Templo de Nauvoo, onde as mulheres passaram a participar, ao lado dos homens, da ordenança chamada “investidura”. Elas vestiram as mesmas roupas sagradas, fizeram os mesmos convênios e receberam as mesmas bênçãos. Essa foi a grande diferença entre Kirtland e Nauvoo: em Kirtland, as mulheres ficavam como testemunhas.

Em Nauvoo, elas passaram a ficar face a face com os homens no ritual, como contrapartes iguais na ordem do sacerdócio, vestidas com as mesmas roupas, fazendo os mesmos convênios. Esse equilíbrio remete direto ao Éden: Eva foi quem fez a criação seguir adiante, permanecendo como salvação, ezer kenegdo, face a face com Adão, no momento em que ele não conseguia ir além sozinho.

Capa do filme: Mulheres em Cristo
Pôster Mulheres em Cristo

Do Éden ao templo: o papel das mulheres

Em Nauvoo, as mulheres voltaram a assumir esse papel. Elas fizeram a salvação avançar, revestidas de sacerdócio, iguais no convênio, carregando autoridade na mesma linguagem restaurada. O papel de Eva nunca foi um símbolo parado no passado.

Foi restaurado como prática viva, levado para dentro do templo, onde mulheres e homens passaram a ficar juntos, como iguais, à imagem de Deus. O templo ainda não está terminado, suas formas continuam se revelando ao longo do tempo, “linha sobre linha, preceito sobre preceito“.

O que o Éden revelou em Eva, como ezer kenegdo, salvação permanecendo face a face, foi restaurado de novo em Nauvoo, onde as mulheres receberam aquilo que Joseph Smith chamou de “chaves“. Ali, elas recebem a mesma investidura de poder do sacerdócio, e as mesmas promessas de bênçãos futuras e de autoridade de Deus, ao lado de seus irmãos.

Mesmo assim, essa restauração ainda não está completa. O papel de Eva continua a se revelar aos poucos, porque a revelação nunca chega toda de uma vez. Joseph Smith ensinou que a luz vem aos poucos, do mesmo jeito que a manhã nasce no horizonte. Da mesma forma, o papel das mulheres como parceiras no sacerdócio foi mostrado pela primeira vez no Éden, renovado em Nauvoo, e vai continuar sendo revelado com mais clareza com o passar do tempo. O papel de Eva não ficou preso ao passado, ele é o padrão dos próprios Elohim, a “imagem de Deus, homem e mulher“, e continua se revelando.

Se o jardim do Éden foi o começo, e Nauvoo foi uma renovação, o futuro ainda guarda novas revelações. O templo é o caminho para essa revelação, nos levando cada vez mais fundo nas verdades que foram anunciadas desde o princípio. Podemos confiar que a revelação não vai parar. Ela vai crescer, se aprofundar, e nos levar à plenitude do que significa estar face a face com Deus, assim como Adão e Eva estiveram, um dia.

Fonte: Public Square Magazine

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